Tribuna do Leitor

Sobre cafés e asfalto


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Dois casos me revoltam em Bauru. Começarei por algo que me aborrece já há algum tempo: a precariedade e a ausência de asfalto em alguns bairros de Bauru. Na Vila Santa Tereza, bairro em que trabalho, uma rua nunca permanece mais que dois dias com um buraco no asfalto. Já notei isso em praticamente todos os bairros adjacentes. Por exemplo, há apenas algumas semanas refizeram o asfalto da quadra 17 e 18 da rua Joaquim da Silva Martha, sem nenhuma necessidade visível.

Eis minha revolta, pois o bairro Santa Edwiges, onde moro, e outros bairros pobres de Bauru não recebem este mesmo tratamento. Às vezes são tantos buracos numa mesma rua que temos de escolher qual buraco danificará menos o automóvel. Basta verificar as crateras encontradas em ruas como a Alameda Atenas e a avenida Engenheiro Paulo Frontin, do Sta. Edwiges. Estas dão acesso para a maioria das outras ruas que vergonhosamente não são asfaltadas. Como eu disse e exemplifiquei, em outros bairros buracos e outras irregularidades são tratados rápida e efetivamente. Lá onde moro não funciona assim, pois mesmo que peçamos para que os buracos sejam tapados, nada é feito por semanas, até que vem alguém e faz um serviço porco.

Os impostos pagos por nós dos bairros pobres valem menos? É o que me parece. Fico me imaginando num dia desses à noite na faculdade, se aquela máquina de café maravilhosa mostrará em seu visor: desculpe ocorreu um erro. Sua moeda é sim de um real, porém o sr. é da periferia, seu café será fraco e sem açúcar. É assim que me enxergo quando vejo o descaso com que a prefeitura tem com o asfalto em meu bairro e adjacentes em relação a outros bairros, onde vive a parte da população a quem a máquina de café perguntaria: o sr. deseja torradas? É por conta da casa. Pra você do bairro rico, sou até torradeira.

Agora a outra revolta é com este tão comentado aumento do valor da tarifa. Indigna-me. Sei muito bem o que é pegar ônibus: a espera, o valor, o aperto, o barulho, o desconforto e a demora. Imagine o quão ruim é para aquela mulher de 40 anos ou mais, empregada doméstica que só pensa em criar os filhos. Ela provavelmente trabalhou 8 ou de 10 horas em pé, esperou 40 minutos pelo ônibus, desembolsou os devidos trocados.

Girou a roleta e se deparou com um aglomerado de gente. Apertada e abafada. ficou mais 40 minutos numa maldita barulheira e tremedeira até chegar a sua casa. Será que estes que aumentaram e permitiram o aumento da tarifa sabem o que é pegar ônibus e passar por isso diariamente? Aposto que não. São R$ 2,60 apenas, mas ao fim do mês faz muita diferença no capital. Se melhorasse 90% da qualidade do transporte coletivo junto com este aumento, daria até para entender. Mas é pouco provável que isso aconteça.

Devemos enfiar os responsáveis por este aumento dentro de um ônibus, durante seis meses nos horários de pico para serem também maltratados pela falta de qualidade do transporte. Só assim eles sentiriam na pele um pouco de outra realidade que não é deles. Mesmo assim, é bem provável que apenas adiassem este aumento na tarifa.

Rafael Vieira Sinhorilio - estudante de jornalismo

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