Este ano, a Igreja Católica trouxe como lema da Campanha da Fraternidade: Que a Saúde se Difunda sobre a Terra, com o objetivo de propiciar discussões sobre a realidade da saúde no Brasil e repensar as políticas públicas que regem esta área. Proponho aqui uma reflexão sobre um setor específico da saúde como parte desta Campanha, partindo do pressuposto que o ciclo gravídico-puerperal tem valor fundamental no desenvolvimento psíquico saudável da criança e da nova família formada e que o parto/nascimento é um fator de peso neste processo.
Dr. Michel Odent, médico obstetra e renomado pesquisador, referindo-se à situação de violência no mundo diz: "Se quisermos verdadeiramente mudar a humanidade, temos que mudar a forma como nascemos." Após décadas de estudos, ele afirma a importância de se rever as assistências dadas à mulher e ao bebê em seu momento de nascimento considerando que "a capacidade de amar é em grande parte, organizada e construída durante o período em torno do nascimento."
Quando se discute saúde pública, não podemos deixar de pensar em prevenção. Uma mulher que passa por uma má assistência, por um parto desrespeitoso e até mesmo traumático, terá maior possibilidade de desenvolver depressão pós-parto e transtorno de estresse pós-traumático pós-parto. O estudo Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado (Fundação Perseu Abramo), no capítulo Violência no Parto relata que 1 em cada 4 mulheres contam ter sofrido maus-tratos no momento do parto. E em sua tese de doutorado, drª Janaína Marques constatou que a violência institucional, tema de estudos em diversos países, está também presente no Brasil. Ela foi retratada em relatos que demonstram "uma banalização da violência institucional através de jargões de cunho moralista e discriminatório, usados como brincadeiras pelos profissionais; no uso de ameaças como forma de persuadir a paciente e na naturalização da dor de parto como preço a ser pago para se tornar mãe." Outro aspecto a ser considerado é o fato de um ato natural, fisiológico como o parto, passar a fazer parte da medicalização. O resultado disto são taxas altíssimas de cesárea e pouca informação sobre os riscos e consequências para a mulher e bebê; partos ?normais? repletos de intervenções que vão na contramão do funcionamento fisiológico.
Logo após o nascimento, o recém-nascido está em um estado denominado de "alerta tranquilo": pronto para começar a mamar, para se vincular com sua mãe, seu pai e recebendo a primeira impressão do mundo. O imprint que ocorre aqui dará base para seu desenvolvimento emocional, relacional. Entretanto, geralmente é o este o contexto encontrado: separação do bebê de sua mãe assim que nasce; bebês recebendo glicose ou leite artificial porque a amamentação na primeira hora não é estimulada; recém-nascido passando por procedimentos realizados de forma rotineira que produzem dor e stress.
Ao constatarmos esta realidade no atendimento à parturiente e ao bebê, ficamos com as questões: quais são as conseqüências para a saúde psíquica deste novo ser humano e para o vínculo da díade mãe-bebê? Quanto pode dificultar o desenvolvimento da maternagem, incluindo o aleitamento materno? Quais consequências estas crianças terão em seu desenvolvimento?
É hora de buscar novas posturas e atitudes em relação a este período crucial de nossas vidas e das vidas de nossos filhos. Obter informações com base científica, participar de grupos de apoio a gestantes; procurar uma boa assistência onde as decisões sejam partilhadas são o ponto de partida para as mudanças necessárias acontecerem.
A autora, Celma Godoy Araujo, é psicóloga com formação em Psicologia Perinatal