Articulistas

O cocar e a toga

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

Deprimente o tratamento oferecido ao índio diante do mundo! Demonstrado foi que a voz do povo não tem a cravelha de acesso aos portais desta onírica democracia. Bem antes do "descobrimento" pelos então irmãos lusitanos e muito antes do imensurável desmatamento do glorioso pau-brasil, os indígenas já habitavam este lugar! Deprimente para a nação e para o mundo a cena do representante indígena algemado, humilhado, atirado ao chão, a clamar por direitos iguais. Vergonhosa a demonstração de poder e submissão pela força bruta, jamais utilizada aos criminosos lesa-pátria. Algemar um representante do povo brasileiro, que luta por seus direitos, nos reporta ao típico cala-boca utilizado nas antigas ditaduras. Felizmente, nossos índios não trocam mais seus direitos por apitos e espelhos, sequer desconhecem os imbróglios existentes entre poderosos eleitos pelo povo. Representam a população brasileira que clama por direitos, espaços e oportunidades para escancarar a voz engasgada por mais de quinhentos anos! Os índios já aqui habitavam quando os afrodescendentes aportaram, advindos por mãos estrangeiras para a escravidão. Se temos uma dívida para com nossos irmãos afrodescendentes, qual seria o valor da dívida para com nossos silvícolas, nativos das entranhas das florestas, na exuberante esmeralda do Atlântico, Brasil? De cultura diferenciada, sem acesso à universidades, sem o poder da oratória, apenas revestido de coragem e de patriotismo, compareceu o índio para reivindicar direitos para seu povo oprimido e esquecido. Porém, do pedestal da justiça, o cidadão privilegiado pela oportunidade de destacada superioridade, agasalhado por anos de estudos, doutor das leis, que deveria primar pela educação esmerada, deveria dar exemplo de respeito aos desiguais, não o fez. E o representante da nação indígena foi covardemente agredido e atirado ao solo da pátria amada. Oportuno citar o grande filósofo Sêneca, ao ensinar o verdadeiro sentido de nobreza: "Nobre é aquele que come em prato de ouro como se fosse de barro e come em prato de barro como se fosse de ouro".

Deus criou homens de pele branca, amarela, vermelha e preta e, sábio, o grande artista do universo, não deu cor à inteligência humana. Se a inteligência não tem cor e se somos todos iguais, qual o critério utilizado para beneficiar poucos e discriminar muitos com o sistema de quotas nas universidades? Serviria apenas para acobertar com o manto da hipocrisia o sucateado e ineficaz sistema de ensino público?

A autora, Valderez de Mello, é advogada, pedagoga, psicopedagoga, autora do livro "Trama e Urdidura"

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