Articulistas

Rosa de Maio

Ciro Moss d`Avino
| Tempo de leitura: 4 min

"Mil tronos eu daria para libertar os escravos do Brasil". Nessa frase a princesa Isabel revela a feição da árdua luta empreendida para eliminar o pérfido instituto representado pelo regime servil. Entretanto, passados mais de 120 anos, pouca importância se dá ao seu heroísmo e desprendimento. Imperioso avaliar o contexto no qual foi proferida a frase que inicia o artigo: ato contínuo a assinatura do decreto que aboliu a escravidão no Brasil, o Barão de Cotegipe se acerca da princesa e diz ironicamente: "Vossa Alteza libertou uma raça, mas perdeu o trono". A corajosa princesa não se faz de rogada e retruca daquela forma. Desde cedo ela se uniu aos partidários da abolição, financiou a alforria de escravos com dinheiro do próprio bolso, apoiou a comunidade do Quilombo do Leblon e recebia fugitivos em sua residência. Às vésperas da abolição, conforme o testemunho insuspeito do grande abolicionista André Rebouças, subia a mais de mil os fugitivos acolhidos por ela. Recentemente veio ao lume carta do arquivo dos descendentes do Barão de Mauá, onde a princesa escreve agradecendo o envio de fundos doados pelo banqueiro e seus sócios para ajudar a "collocar esses ex-escravos, agora livres, em terras suas próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e dellas tirando seos próprios proventos...Mas não fiquemos mais no passado, pois o futuro nos será promissor, se os escravocratas e os republicanos nos deixarem sonhar mais um pouco." Lutava contra os "escravocratas de quatro costados", como a estes se referia o escritor Lima Barreto, que viam o elemento servil como patrimônio. D. Pedro II sabia disso e temia que uma ação mais açodada provocasse uma guerra fratricida como ocorreu nos Estados Unidos, onde pereceram mais de 600.000 pessoas. Como a filha, ele abominava o cativeiro, e sempre lutou para a sua extinção. Da sua lavra a Lei do Sexagenário, que com a Lei do Ventre Livre, assinada pela Princesa, poriam fim a escravidão. Mas a princesa tinha pressa, nem bem assumiu a regência se lançou com toda a alma para livrar o Brasil dessa nódoa. Exonerou Cotegipe, que defendia os escravocratas, e nomeou João Alfredo para presidir o Gabinete de Ministros. Veio o 13 de maio e com ele a Lei Redentora. A princesa sai do Parlamento sob uma chuva de pétalas de rosa. José do Patrocínio, líder abolicionista, se lança aos seus pés. Ela o levanta e o abraça diante da multidão emocionada. Nos conta Lima Barreto, que a tudo assistiu: "Fazia sol e o dia estava claro. Jamais na minha vida vi tanta alegria. Era geral, era total" Seu gesto lhe valeu a Rosa de Ouro, outorgada pelo Papa Leão XIII - a única brasileira a receber, em vida, essa excelsa insígnia. Mas também lhe causou a queda. Em menos de dois anos escravocratas e republicanos se vingaram proclamando a republica e banindo a Família Imperial Brasileira. Não errara o Barão de Cotegipe. No exílio a família fixou residência na França. Casada com o Conde D?Eu, teve três filhos, e o infortúnio de sobreviver a dois deles. D. Luis, oficial do exercito inglês, pereceu em razão de grave moléstia contraída nas trincheiras da Primeira Guerra. D. Antonio, que participou do conflito até o final como ajudante de campo do Estado Maior da cavalaria canadense, faleceu em desastre aéreo quando se deslocava em missão da Inglaterra para a França. Mesmo atingida por tantos dissabores nunca deixou de amar sua pátria, que, entretanto, morreu sem rever. Infelizmente a data histórica vai ficando esquecida. Um tipo de revisionismo calçado em surrada dialética vai, pouco a pouco, apagando da memória dos brasileiros muitos fatos marcantes. O bordão, "nunca antes na história desse país", quer fazer crer que tudo gira em torno do líder e do partido majoritário, que o que veio antes não presta! Entretanto, pequenos gestos nos dão a esperança de que dias melhores virão. Recentemente o Arcebispo do Rio de Janeiro, D.Oriani Tempesta, recebeu o pedido de abertura do processo de beatificação da princesa Isabel. Esperamos que a comissão constituída de inicio aos estudos que venham reconhecer as virtudes heróicas dessa princesa que, desafiando os poderosos do seu tempo, foi mãe de tantos desvalidos.

O autor, Ciro Moss d`Avino, é conselheiro pró-monarquia

Comentários

Comentários