Malavolta Jr. |
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Caixões são cobertos com bandeiras como homenagem aos policiais |
“Ambos são heróis que foram sacrificados durante o fiel cumprimento do dever”. As palavras do tenente-coronel Cláudio Mercadante, comandante do 2º Batalhão de Polícia Rodoviária, precederam, ontem à tarde, o sepultamento do cabo Alberto Borges Pinheiro e do soldado Rodrigo Ferreira, no Cemitério Jardim do Ype, em Bauru. Pouco antes, com honras fúnebres, colegas de corporação prestaram aos dois a última homenagem. Mas nem a salva de 21 tiros conseguiu silenciar o pranto de mães e esposas, inconformadas com as consequências do acidente registrado sábado pela manhã, na rodovia Deputado João Lázaro Almeida Prado (SP-255).
Debruçada sobre o caixão de Rodrigo, seu único filho, Márcia Elena Gama Ferreira, agradeceu a Deus por tê-lo tido e amado. Abraçada ao marido Roberval Ferreira, dizia ao rapaz em voz alta que ele sempre seria exemplo e que Nossa Senhora o receberia. Ao lado, agarrada à bandeira do Brasil, cuidadosamente dobrada pelos policiais rodoviários durante a cerimônia, a esposa dele, Lilian Mariana Zardetti, também tombada sobre o visor aberto do caixão, era amparada. Entre um abraço e outro, lembrava que o marido não voltaria mais para os filhos, para ela e para casa.
Dor visceral estampava Andreia Aparecida Saranholi, esposa do cabo Alberto Borges Pinheiro. Escorada para acompanhar a cerimônia, agora servirá de ‘arrimo’ aos filhos do companheiro. Renan, 21 anos, e Alex, 12 anos, frutos do primeiro casamento do policial, perderam a mãe no dia 1 de março deste ano, justamente na data do aniversário de Borges.
Parentes ouvidos no sepultamento a indicavam como a nova referência materna dos irmãos, que se despediram abraçados do pai. Pareciam incrédulos com a sucessão de perdas.
Honras fúnebres
O cabo Alberto Borges Pinheiro e o soldado Rodrigo Ferreira foram enterrados no mausoléu da Polícia Militar. Como a corporação também é considerada uma família, tanto o sepultamento quanto o velório concentraram grande número de pessoas. Apenas no Centro Velatório Terra Branca mais de 400 pessoas passaram para prestar apoio aos familiares e homenagem aos policiais, segundo cálculos da própria Polícia Militar. Para que o féretro saísse, o tráfego na quadra 5 da rua Gerson França foi interrompido.
Na calçada e nas escadarias do velório, amigos e familiares acompanharam quando os caixões, cobertos com a bandeira brasileira, foram carregados por seis policiais e colocados numa viatura do Corpo de Bombeiros. Coroas de flores lotaram vários carros, sendo que o cortejo alcançou cerca de dois quilômetros pelas ruas da cidade, despertando curiosidades pelo caminho.
Batedores da PM, coordenados pelo subcomandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior, major Flávio Jun Kitazume, sinalizaram todo o trajeto até o Cemitério do Ype. Com highlight ligado, seguiram as motocicletas policiais duas viaturas da PM, uma viatura da funerária, 11 carros do Policiamento Rodoviário, outro veículo do Resgate, além de muitos, muitos veículos particulares, alguns com o pisca-alerta ligado.
Acidente vitimou mais um
Além do cabo Alberto Borges Pinheiro e do soldado Rodrigo Ferreira, morreu ainda no acidente de anteontem, Nélson Ferreira Carvalho, 53 anos. Morador de São Bernardo do Campo, o motorista deixa a esposa e dois filhos, um de 14 anos e outro de 27 anos. Ainda nos sábado, o corpo foi transferido para o Grande ABC.
Os três foram vítimas de um violento acidente registrado na manhã de sábado na rodovia Deputado João Lázaro Almeida Prado (SP-255), em Barra Bonita (68 quilômetros de Bauru). Segundo informações do Policiamento Rodoviário de Jaú, o cabo Alberto Borges Ribeiro e o soldado Rodrigo Ferreira estavam estacionados no acostamento do quilômetro 176 da rodovia, próximo à Usina da Barra, para sinalizar um trecho, conhecido popularmente como “curva do fedor”.
Estavam no local porque um caminhão Sprinter com placas de Dois Córregos (SP) se descontrolou e caiu em uma valeta às margens da pista, durante a madrugada. Conforme o JC veiculou, por volta de 9h, um caminhão bitrem com placas de Torrinha (SP), que seguia no sentido Barra Bonita-São Manuel, perdeu o controle na curva. Durante a tentativa de frenagem, os dois semi-reboques do veículo se deslocaram em “L”, atravessando toda a largura da rodovia, e outra carreta que vinha em sentido contrário acabou sendo atingida.
Com o impacto, a cabine da carreta teve a parte superior arrancada e ficou completamente destruída. Os dois policiais, que estavam ao lado da viatura, no acostamento, também foram atingidos violentamente.
Exemplos ressaltados entre lágrimas
Considerado o amigo para qualquer momento, o cabo Alberto Borges Pinheiro, 48 anos, tinha 26 anos de carreira. Veio para Bauru por conta da primeira mulher. Após casar-se, constituiu família em Bauru. A essa altura da vida, tinha como prioridade dedicar-se aos filhos, que perderam a mãe há cerca de 70 dias, contaram parentes e amigos. Alex, o caçula, já morava com ele e com a segunda esposa Andréia. Já o primogênito estuda em São Paulo. O cabo deixa ainda os pais José de Souza Pinheiro e Benedita Bruno Borges Pinheiro, além de irmãos.
“Para a história da nossa Polícia Militar, os policiais deixaram um legado de exemplo e orgulho aos seus superiores, pares e subordinados”, discursou o tenente-coronel Cláudio Mercadante, comandante do 2º Batalhão de Polícia Rodoviária. Ainda mais para a família do soldado Rodrigo Ferreira, 37 anos. Pai de Ryan Zardetti Ferreira, 6 anos, também acolheu como filho o enteado Gabriel Zardetti Barbosa, 11 anos.
Foi apontado como referência de pai e também de filho. Com 8 anos de carreira no Policiamento Rodoviário, ainda ajudava o pai Roberval Ferreira, na marcenaria da família. Colaborava na área administrativa. Brincalhão e divertido, não tinha medo de superar desafios e amava a profissão, conta um amigo próximo.
Borges e Ferreira foram sepultados um ao lado do outro, logo após os presentes abrirem caminho para o toque de silêncio, honraria também reservada aos policiais que morrem em serviço.