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Quando o carro vira ?casa ambulante?

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 8 min

A distância entre os utensílios é mínima, não mais que dois metros. Entre a máquina fotográfica e a trena para aferir se as dimensões nas obras estão tudo em ordem, o engenheiro Fábio Parolin precisa apenas esticar o braço. Está tudo em ordem e acessível. Mas não falamos do escritório do profissional, e sim de seu automóvel.


Assim como Fábio, muitas outras pessoas optam, ou deixam acontecer mesmo, por acumular pertences e objetos de trabalho no apertado espaço dividido com os estofados e acessórios automotivos. “Para mim fica mais fácil. Sequer almoço em casa e sempre estou de um lado para outro. É uma questão de facilidade”, considera o engenheiro.


No pequeno espaço entre os dois lugares de uma picape Ford/Courier, Fábio se ajeita entre os cantos em que “guarda” o capacete de obras. Duas trenas também dividem o espaço com a agenda de compromissos, um par de botinas, câmera fotográfica, uma porção de CDs de música, entre outros utensílios.


Apesar do espaço curto que sobra para ele e os periféricos do próprio carro, o engenheiro diz que a “bagunça organizada” é funcional e atende às necessidades que tem para o cotidiano, sempre itinerante entre uma obra e outra na construção civil.


Além do trabalho, outros compromissos também ocupam, literalmente, espaço na “boleia”. “Sempre carrego uma botina e uma troca de camisa, para reuniões”, completa. “Mas, como também fico fora o dia inteiro, carrego outras coisas dentro do carro. Toda quinta-feira jogo bola, então par de tênis, shorts e toalha seguem comigo também”, detalha.


O engenheiro garante: nada disso atrapalha a locomoção e até mesmo ergonomia no trabalho, pois alcança facilmente todos os utensílios, encontrados e utilizados de maneira prática. Contudo, admite, tem problemas apenas quando recebe “convidados”.


“Dias atrás dei carona para uma arquiteta e ela precisou dividir espaço com uma lata de tinta”, diverte-se. “É uma coisa meio de cigano, levar tudo no carro. Às vezes dá vergonha. Minha esposa mesmo, que trabalha comigo, vive pegando no pé”, brinca. “Ela não anda comigo”, comenta.



Cama e mesa


Diferentemente do engenheiro e da esposa, há quem prefira dividir a “bagunça organizada” com a família. É o caso da professora Dalcimari Pavani.


Atribulada entre as rotinas de professora, em dois períodos em duas escolas diferentes, e de mãe/motorista, que leva e traz os filhos de 5 e 10 anos (também em duas instituições de ensino distintas), Dalcimari admite que o Ford/Fiesta, de fato, é uma extensão do lar, com direito a um festival de pertences tanto dela quanto das crianças.


Desde os brinquedos, travesseiro da criança menor que dorme entre uma parada e outra e agasalhos acumulados (tanto dela quanto dos pequenos) ela conta que já teve até mesmo dificuldades para guardar objetos que, a princípio, deveriam ter “prioridade” no porta-malas.


Ao invés de compras ou eventual bagagem, o compartimento, narra a professora, abriga livros didáticos, assim como outros tipos de material escolar.


Porém, ela acredita que levar uma amostra da casa para dentro do apertado ambiente entre direção e bancos de passageiro é a única forma de dar conta de todos os compromissos e, ao mesmo tempo, propiciar a atenção necessária aos filhos.


“Saio de casa as 6h30 e chego somente às 18h30. Acho que fico mais tempo no carro do que em casa”, desconfia a professora.


Quem também carrega para dentro do veículo um pedacinho tanto do universo profissional quanto do lar é a arquiteta Allana Ciniciato.


Os apetrechos profissionais como a caneta específica para elaboração de projetos e trena são protagonistas no mesmo ambiente ao lado de lanchinhos rápidos, como pacote de biscoitos, e outras guloseimas, entre elas, gomas de mascar.

 

Nécessaire no porta-luvas


A correria e funcionalidade dos objetos sempre a mão, parada ou não, ainda dividem espaço com o habitual esmero feminino em manter a aparência impecável. “Creme para as mãos, perfume e creme para o cabelo vão no porta-luvas, que se transformou em minha nécessaire”, compara a arquiteta.


O compartimento do Astra ainda abriga uma agenda de compromissos. Há também espaço para outros itens, que, segundo ela, não podem falar, como talco, desodorantes, perfume, blusas (que também chegam a se acumular sobre o banco de trás ou do carona).


Óculos de sol, bolsa com roupas de academia, notebook e dois pares de sapato completam a lista de acessórios permanentes no automóvel.


“Meu carro é grande, tem um bom espaço interno. Só que, no final das contas, acaba pequeno”, considera a arquiteta. “As compras do supermercado sempre acabam no banco de trás, porque o porta-malas está sempre ocupado”, descontrai.

 

‘Efeito Caracol’ é cada vez mais comum

Sala de estar, copa, cozinha, quarto, dispensa... Não, não se trata de um descritivo comum em anúncios imobiliários. São os “compartimentos” de um automóvel, apontados em recente pesquisa que atesta: as pessoas trazem, cada vez mais, partes de casa para dentro do carro.


O estudo foi conduzido pelo Centro de Psicologia Especializado em Medos (Cepem), de Curitiba (PR), chefiado pela psicanalista Neuza Corassa.


O trabalho -- resultado de levantamentos iniciados por ela ainda no início da década passada, durante especialização em Gestão da Mobilidade Urbana na Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR) --, resultou nos livros “Vença o Medo de Dirigir: como superar-se e conduzir o volante da própria vida” (Editora Gente) e “Seu Carro: sua casa sobre rodas” (Editora Juruá).


Na obra mais recente, a autora compara o costume de deixar o carro repleto de objetos pessoais ao do caracol, que carrega a moradia nas costas para aonde for.


A “síndrome”, que, tranquiliza a psicanalista, apesar do termo, não teria relação a princípio com qualquer tipo de distúrbio, seria reflexo dos tempos modernos, quando, cada vez mais pessoas, optam por levar o “casulo” para todos os cantos. “A pergunta inicial era: qual a razão de tantos conflitos no trânsito?”, relaciona.


Após um ano de pesquisa, a conclusão da psicóloga foi a de que um dos motivos que deflagram a “disputa” por espaço nas ruas das cidades é motivada pela “invasão” do terreno alheio, mesmo que este esteja sobre rodas. “As pessoas levam parte de suas casas para o carro, que se transforma numa miniatura móvel da casa”, compara.


Desta forma, de acordo com Neuza, o condutor apresenta comportamento como se estivesse em casa. “Há confusão entre espaços público e privado”, acrescenta a pesquisadora que deixa claro: o estudo não reprova tampouco endossa a prática, apenas o relaciona com os efeitos verificados no trânsito.


“Tem a parte boa do carro ter o jeito, a cara da pessoa”, aprova. “O difícil é que grande parte das pessoas ainda não percebeu isso e confunde espaço público e privado”, pondera a psicóloga.


E é justamente nesse terreno em que residem os problemas, explica ela. Quem carrega simplesmente utensílios, mas sabe distinguir espaço público de ambiente privado não pode ser confundido com pessoas desequilibradas no trânsito.


“O condutor sem a consciência (público x privado) enxerga o colega de trânsito como um inimigo, um intruso”, detalha. “É como se o território fosse dele, quer que o outro saia dali para não incomodar”, descreve a pesquisadora curitibana.  “A pesquisa não diz se isso é bom ou ruim. Apenas constatamos que fazemos cada vez mais isso”, enfatiza.



Outras vertentes


A psicóloga também tira relação entre a casa, de fato, com o cenário dentro do carro. “O carro abarrotado de muitas coisas diferentes não quer dizer casa desorganizada. A tendência é pensar: ‘casa arrumadinha, carro arrumadinho. Não é bem assim, necessariamente”, isenta. “O ser humano muda o comportamento por necessidade”, atribui.


Pelo lado positivo, Neuza destaca famílias que utilizam o meio de transporte como forma de dialogo a caminho do trabalho ou escola dos filhos. Por outro, observa, o veículo é utilizado, de forma equivocada, como “ringue” de discussões, principalmente entre casais.


 “Casais que discutem a relação com o veículo em movimento são exemplo desastroso”, reprova, relacionando conflitos atrás do volante entre as principais causas de acidentes. Mês passado, numa rodovia em Mairiporã, na Grande São Paulo, um homem morreu atropelado, justamente, por um carro conduzido por motorista que discutia com a namorada.

 

Exageros comprometem segurança


Engenheiro mecânico e consultor automobilístico e autor da coluna “Dr. Automóvel” no suplemento Auto Mercado & Cia., do Jornal da Cidade, Marcos Camerini ressalva que, quando menos objetos dispersos no interior do veículo, maior a segurança.


“Tem gente que só falta morar no carro”, comenta. “Ou então o cidadão compra um Chevette por R$ 2 mil e coloca R$ 10 mil em som. Quando vender, vai anunciar o equipamento e, ‘de brinde’ o carro”, ironiza o engenheiro.


Em tom mais sério, o consultor adverte contra exageros de pertences soltos dentro do automóvel. A segurança, acentua Camerini, deve ser o principal item disponível para motoristas e passageiros. “Numa freada brusca, objetos soltos, podem representar um risco. Carro é para levar a gente. Porta-malas leva coisas”, decreta.

 

Cômodos

Neuza compara alguns traços de comportamento ao volante com os mesmos de dentro de casa. A copa ou cozinha, exemplifica a especialista, pode ser emulada quando o condutor para numa lanchonete, mas come dentro do carro. “Já viu alguém comprar a refeição no drive-thru e almoçar dentro do carro?”, ilustra.


O escritório também ganha sua “versão itinerante”. “Nos engarrafamentos, é comum o profissional telefonar, anotar coisas, manusear documentos. Tem gente que fecha negócios em pleno congestionamento”, observa. Até a descontração de uma sala de estar encontra espaço nas ruas. “Quem enche o carro de amigos para sair à noite transforma o veículo em sala de estar”, compara, citando outros “ambientes”, como trocador de frauda, banheiro para retocar maquiagem ou sala de som.

 

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