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Içami: mães líderes, filhos educados

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 5 min

O psiquiatra e educador Içami Tiba nasceu em 15 de março de 1941 na cidade paulista de Tapiraí. Considerado um dos maiores especialistas em  educação, ele publicou 28 livros que já venderam mais de quatro milhões de exemplares.  


O livro “Quem ama, educa! Formando Cidadãos Éticos” é editado em todos os países de língua espanhola. Seu trabalho mais recente leva o título de “Pais e Educadores de Alta Performance”.


Em entrevista ao JC para o Dia das Mães, Içami Tiba fala sobre a tarefa de educar os filhos modernos, um desafio que vem tirando o sossego das mães atuais. Confira os principais trechos.


Jornal da Cidade – Por que educar os filhos parece ser uma tarefa tão difícil, hoje?

Içami Tiba – Os pais estão muito perdidos porque houve uma mudança de “chip” feminino. A mulher se emancipou e passou a ser uma profissional fora de casa, entretanto, ela não mudou o “chip” de mãe que ainda funciona com se ela estivesse em casa. Na prática, é como se ela estivesse com um programa novo e um velho que não combinam e isso está gerando problemas. É preciso mexer no que está ultrapassado, ou seja, nesse “chip” de mãe que diz que ela precisa ficar o dia todo grudada no filho e que faz com que ela se sinta culpada por não poder ficar e precisar trabalhar.


JC – E há quem se sinta culpada por não trabalhar para cuidar dos filhos...

Içami Tiba - O que acontece é que a mãe se sente culpada trabalhando ou não. Trabalhando, ela se sente culpada por não estar com o filho e, em casa, a culpa vem por não atuar nessa nova realidade feminina no mercado de trabalho. Outra coisa a observar é que, toda vez que se dedica a outras atividades como a programas como o marido ou amigos, a mulher se sente erroneamente culpada pelo fato do filho não participar.


JC – Qual é o segredo para minimizar ou exterminar essa culpa?

Içami Tiba - Se o ser humano tivesse a capacidade de mudar de “chip” como uma máquina seria fácil. Como isso não é possível, a mulher precisa aprender a ser educadora, ou seja, educar seus filhos mesmo tendo pouco tempo. Ela precisa estudar a educação dos filhos porque não dá para usar toda a sua experiência de vida e desejos para educar uma criança moderna se essa experiência é da época em que nem havia celular e a mulher não trabalhava fora. Com eu costumo dizer, quem ama, educa. E não é preciso passar o tempo todo junto para isso. Educação é como um remédio que você dá para o filho e ele continua fazendo efeito sem a sua presença. Essa deve ser a qualidade da educação. A mulher atual tem muitas funções e não pode se perder no papel de mãe. Se for assim, ela perde até o papel de esposa, e isso é muito sério.

JC – O senhor acredita que falta autoridade nas mães atuais?

Içami Tiba - Educar não é castigar, ficar nervosa e fazer da criança o sonho de querer ser mãe. O educar é ensinar para que o filho faça o que ele é capaz de fazer. Antes de cobrar é preciso ensinar. Como é que uma mãe ou um pai vão cobrar o que não ensinaram? E não adianta apenas dar exemplos. Exemplo não funciona para quem não está atento ou pensando sobre o assunto. É preciso falar, educar. E isso não envolve gritos e desespero. A mãe é a líder da relação.


JC – E como legitimar essa liderança?

Içami Tiba - A mãe precisa entender que o filho é um seguidor e uma líder desgovernada obriga o seguidor a também se desgovernar. A mãe tem que saber que precisa ensinar e saber o que a criança é capaz de aprender de acordo com sua idade. Não adianta, por exemplo, colocar uma criança de dois anos de idade de castigo. Outra coisa é que a mãe deve estabelecer o clima e uma energia boa. Ela deve mostrar que está ali para resolver as coisas. O clima bom ou ruim é passado para o filho e a mãe é capaz de controlar o temperamento da criança através do seu clima. Uma mamãe afobada deixa o filho agitado.


JC – É comum o fato de algumas mães falarem e os filhos não ouvirem. O que fazer em casos como esse?

Içami Tiba - Outra coisa que precisa ser explicada é que os pais precisam deixar claro o que querem dos filhos. A criança fica desesperada quando não entende o que os pais querem dela. Há mães que ficam o tempo todo fazendo previsões sobre o que pode acontecer. Em um parque, por exemplo, ela começa a gritar para o filho não subir em tal brinquedo porque vai cair e se machucar e isso e aquilo. A criança sobe, nada acontece, e a mãe cai em descrédito.


JC – Muito se fala sobre a importância do “não”. Como o senhor avalia essa questão?

Içami Tiba – A própria mãe pode descaracterizar o “não”. Ela diz para a criança nunca mais fazer isso e aquilo e faz um monte de ameaças, o filho faz e nada acontece. Então aquela foi apenas uma ameaça boba e nada educativa. Quando o “não” for dito, o mínimo que se espera é que ele seja cumprido. Por isso é que não se deve falar não para qualquer coisa. Li uma pesquisa americana que aponta que a mãe fala 100 mil “nãos” em oito anos.


JC - O senhor acredita que há fórmula correta para educar?

Içami Tiba - Existe, sim. Estudar como ser educadora. É papo furado essa coisa de que não existe fórmula para educar. É preciso se preparar para educar os filhos para que eles se tornem cidadãos éticos. Sem limites, em geral, a criança cresce delinquente, medrosa ou sem limites. Hoje você vê pequenos tiranos de quatro ou cinco anos de idade mandando em pai que é chefe de empresa ou em mãe que é líder no trabalho. Por que mudou a liderança em casa? A mãe precisa entender que é a líder e o filho é o seguidor. Dessa forma, o filho pode aprender que se ele cumprir o que está sendo feito será a melhor coisa do mundo. Para ter direitos ele precisa ter deveres e cumpri-los.

 

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