Bairros

Sozinhos e felizes

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Diego Gonçalves de Toledo tem 21 anos e deixou a casa dos pais em Cafelândia para estudar e morar sozinho em Bauru, aos 16 anos. No início, dividia o apartamento com o irmão mais novo. Depois, mudou-se para São Paulo e, seis meses depois, assim que voltou para Bauru, estava convicto da necessidade de ser independente. Queria fazer seus próprios horários, ter sua própria rotina, não dar satisfações, ser independente e correr atrás dos sonhos.


Érica Gulinelli, 32 anos, também mora sozinha desde que deixou a família em São Paulo para cursar arquitetura na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. Por alguns anos viveu sob o mesmo teto das amigas e, depois, do marido. Depois, divorciou-se e nem cogitou voltar a viver na Terra da Garoa ao lado dos pais. Preferiu morar sozinha porque da possibilidade de ter seu próprio canto e vida própria.


Nair Urbaneto Boneli tem 86 anos e também pertence ao time dos que estão satisfeitos e são felizes por morarem sozinhos. Viúva há 22 anos, ela recusou o pedido feito pelos filhos para que morasse junto deles. Prefere de ter seu próprio espaço, não se sente solitária e não quer incomodar ninguém. Gosta tanto de morar sozinha que, mesmo tendo namorado, não pretende juntar as escovas de dente.


Diego, Érica e Nair são o retrato dos singles da atualidade: bem resolvidos, independentes e que de modo algum podem ser rotulados solitários. Vivem sozinhos por opção e gostam da vida que levam.


Mesmo vivendo contextos e tendo idades completamente diferentes, independência, tranquilidade e liberdade são palavras que pautam suas vidas.


“Estou em um momento de realizações. Acordo muito cedo e trabalho o dia todo. No fim do dia, vou para a faculdade, onde curso publicidade e propaganda. Depois, volto para casa e trabalho até de madrugada. Dividir um apartamento poderia interferir nesta rotina”, justifica Diego, que mora em um imóvel no Centro da cidade e tem sede de viver.


Érica concorda. Já dividiu o teto algumas vezes e sabe das dificuldades típicas da convivência entre diferentes. “Quando se mora junto com alguém, é preciso estabelecer horários para não haver conflitos. Tem horário para lavar louça, para fazer almoço, para lavar roupa... E dividir a geladeira, então! É muito complicado! Morar sozinha é ter vida própria”, define ela, que mora num apartamento na Vila Universitária e almoça em restaurantes para não ter de cozinhar.


Nair concorda com os dois. Com a voz tranquila de quem já viveu de tudo um pouco, é categórica em afirmar que não troca o privilégio de morar sozinha por nada. Se recusa a ser dependente e sabe diferenciar muito bem a palavra sozinha de solitária.


“Morar sozinha é poder ficar tranquila, no seu canto. Gosto de ler, fazer crochê, sair com meu namorado e estar em paz. Solitário é quem não tem ocupação nem amizade, quem ocupa a mente com coisas negativas. Não sou assim. Enquanto tiver saúde, vou ficar no meu cantinho”, defende, categórica, ela que mora em um apartamento nos Altos da Cidade.

 

Tão só quanto bem acompanhado

Morar sozinho já foi, durante muito tempo, sinônimo de isolamento e de problemas. Geralmente, as pessoas que viviam sob esta condição eram vistas com maus olhos: eram consideradas difíceis de conviver, amargas, solitárias, excluídas.


Mas, felizmente, por diversos motivos isso mudou. Atualmente, morar sozinho é sinônimo de independência. Um modelo a ser seguido.


“São pessoas decididas, seguras e que têm autoconfiança. Elas se sentem capazes de gerenciar a própria vida e alçar novos voos. Isso é muito positivo”, destaca a psicóloga Norma Regina Spirito Figueiredo.


Para ela, essa mudança de conceitos na sociedade é benéfica e tem várias justificativas. Uma delas é a liberdade feminina conquistada ao longo dos anos, que inseriu as mulheres nas universidades, no mercado de trabalho e lhes conferiu autonomia


Outro fator é a melhoria nas condições de vida, que permite que as pessoas possam optar por este estilo de vida.


“Hoje, é saudável que as pessoas tenham um padrão econômico que lhes permita manterem seus próprios espaços. Elas aprenderam que individualidade não necessariamente tem a ver com isolamento”, frisa.

De acordo com Norma Regina, a idade mínima ideal para quem deseja morar sozinho é 18 anos.

 

 

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