Embora continue a avançar tecnologicamente, nossa espécie deu início a um movimento de regressão moral que ameaça colocar em questão um patrimônio que tantas e sucessivas gerações se esforçaram para construir. Ao expandir o fanatismo e a violência, nossos "companheiros de viagem" deixam o navio à deriva, sem rumo e sem bússola num mar agitado e com pouca visibilidade. Os Estados Unidos veem-se envolvidos numa empreitada titânica que os exaure e desnorteia: dominar sozinhos um planeta indomável. O mundo árabe afunda cada vez mais num "buraco" histórico do qual parece incapaz de escapar, revelando um rancor contra a Terra inteira. Se de um lado tiranos sanguinários arruínam seus povos, dilapidam o dinheiro do petróleo em despesas militares ou luxos suntuosos; do outro, o embargo econômico precipita na miséria todo um povo e custa a vida de milhares de inocentes, sem privar os ditadores de seus charutos. Nos últimos cinquenta anos, o Ocidente avançou de modo espetacular, mas hoje, particularmente as grandes potências, procuram preservar pela força o que não é mais possível preservar pela superioridade econômica nem pela autoridade moral. Por sua vez, o mundo árabe se encontra em seu ponto mais baixo, envergonhando sua história e seus filhos.
A China e a Índia, apesar da grande ascensão econômica, têm motivos para se preocuparem com a coesão social e política de uma multidão que, gradativamente, desmonta toda indústria manufatureira do mundo. Em uma geração, estes gigantes passam da imitação à adaptação e depois à criatividade. A história destes grandes povos revela que são capazes disso e ninguém pode, legitimamente, contestar a essa imensa população o direito de possuir o que há muito possuem as populações dos países mais ricos ? a geladeira, o automóvel da família, água quente, água limpa, alimentos, educação, lazer, turismo.
A Europa, presa entre dois fogos, o da Ásia e o da América, perde suas referências, questiona sua própria identidade, suas fronteiras, suas futuras instituições, seu lugar no mundo, sem ter certeza alguma quanto às respostas. A Rússia sofre para se recuperar dos setenta anos de comunismo e da maneira caótica como o abandonou. Os países da África, com raras exceções, passam por guerras intestinas, epidemias, corrupção generalizada, desemprego, desesperança e desintegração do tecido social. Na nossa época, com cada país se confrontando cotidianamente com os demais; cada cidade precisando organizar em seu interior uma delicada coabitação; cada indivíduo tendo a necessidade de se afirmar com virulência, a questão é saber se conseguiremos impedir que nossas sociedades se percam na direção da violência, do fanatismo e do caos.
Na nossa época o que está em causa é o abismo aberto entre nossa rápida evolução material e a exageradamente lenta evolução moral. É claro que a evolução material não pode nem deve ser retardada. É a evolução moral que deve se acelerar consideravelmente e acompanhar, com toda urgência, a evolução tecnológica, o que exigirá uma verdadeira revolução no comportamento humano. Estamos todos a bordo do mesmo navio, ou melhor, de uma frágil canoa, sem nos preocuparmos com o mar que se agita. Continuamos a nos afrontar, a brigar e até a aplaudir se a onda devastadora, que cresce em nossa direção, devorar, antes de nós, nossos inimigos. Se não conseguirmos construir uma civilização comum em que cada um possa se identificar, unida pelos mesmos valores universais, guiada por uma poderosa fé na aventura humana e enriquecida pela enorme diversidade cultural, com toda certeza, afundaremos juntos.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru