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Hipnose auxilia tratamento dentário

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Já pensou em fazer uma extração dentária sem usar anestesia? A ideia pode parecer assustadora, mas esta já é uma realidade em muitos consultórios odontológicos que usam a técnica da hipnose para tratar os pacientes.

 

Longe da aura mística que ainda envolve o tema, especialistas garantem que a hipnose realmente funciona. De acordo com eles, o paciente em transe não fica apenas relaxado, a ponto de perder o medo do terrível barulho do motorzinho. Mais do que isso, ele pode até mesmo não sentir dor e sangrar menos durante cirurgias mais complexas.

 

É o que garante o hipnólogo uruguaio Fábio Puentes, que esteve ontem em Bauru para ministrar palestra no 25º Congresso Odontológico da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP). “Os benefícios são muitos para o profissional, que economiza com material, e para o paciente, que não fica com o incômodo da anestesia após o tratamento, além de se recuperar mais rapidamente”, pontua.

 

Especialista em cirurgia bucomaxilofacial e em pacientes com necessidades especiais, o dentista Claudio Gargione aplica a técnica há mais de 20 anos. Ele explica que, além de acalmar pessoas que normalmente ficam agitadas na cadeira do dentista, a hipnose também é um importante aliado no tratamento dentário de hipertensos, diabéticos, hemofílicos e de pacientes alérgicos a anestesia.

 

“A hipnose permite que sejam realizadas cirurgias que não seriam recomendadas a alguns pacientes por conta do excesso de sangramento. Ou mesmo pela necessidade de anestesia, que pode provocar reações alérgicas ou taquicardias perigosas para quem é hipertenso”, comenta.

 

Segundo Puentes, a eficácia da prática já foi cientificamente comprovada. Usando o poder da mente do próprio paciente, o hipnólogo aciona algumas “chaves” cerebrais capazes de disparar no organismo substâncias como endorfina, adrenalina e dopamina. 

 

“Para que o paciente sangre menos durante uma cirurgia, por exemplo, pedimos para que ele imagine que está fechando uma torneira dentro da boca. Fazemos uma conexão entre algo que parece impossível, parar de sangrar, e algo muito simples e prático, como fechar uma torneira. E ele simplesmente para de sangrar”, comenta. 

 

 

 

Céticos x sensíveis

 

Puentes explica que, quando a cirurgia é complexa, geralmente o paciente precisa ser posto em transe profundo. Em procedimentos mais simples, permanece consciente, mas sem qualquer sensação de dor. “Na verdade, ele fica em estado intermediário de consciência, porque está desconectado daquela realidade imediata. O profissional precisa falar com o paciente o tempo todo, para ‘alimentar’ aquele estado até o final do atendimento”, comenta. 

 

O hipnólogo diz que não há restrições para a aplicação da técnica em consultório e destaca que todas as pessoas, até as mais incrédulas, podem deixar de sentir dor na cadeira do dentista. Tudo depende da capacidade do profissional de seduzir e eliminar o senso crítico do paciente mais cético, levando o ao transe.

 

“É claro que as pessoas mais sensíveis são mais fáceis de serem hipnotizadas. Mas, em alguns casos, é necessário sensibilizar o paciente durante alguns dias para garantir que a dor será totalmente eliminada durante uma cirurgia”, frisa.

 

Puentes afirma que já formou mais de 1,4 mil hipnólogos na América Latina. Apesar de ter nascido no Uruguai e se formado na Espanha, ele vive e trabalha no Brasil há 20 anos. Além de ministrar cursos e palestras em todo o Brasil, atende pacientes voluntariamente no Centro de Dor do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

 

 

 

Preconceito

 

A hipnose ainda é cercada de muito preconceito, vista por grande parte da população e dos próprios cirurgiões dentistas como algo místico ou mesmo charlatanismo. O que pouca gente sabe é que o uso da técnica está previsto na lei 5.081/66, que regulamenta a odontologia no país. 

 

Recentemente, a prática foi normatizada pelo Conselho Federal de Odontologia, que especificou os requisitos necessários para sua aplicação em consultório. “Para ser habilitado, o profissional precisa, por exemplo, concluir um curso de 180 horas ministrado por universidades ou entidades de classe. Não é uma brincadeira”, detalha Marivaldo Santo Pietro, diretor do Departamento de Hipnose da Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas (APCD) Central. 

 

Na opinião do hipnólogo Fábio Puentes, mais do que preconceito, os profissionais da área ainda têm receio de levar a técnica aos consultórios. “Muitos temem abolir a anestesia e acabar provocando dor ao paciente. De fato, é algo que pode acontecer se o dentista não tiver total domínio da hipnose”, analisa.

 

 

 

O que é

 

Do ponto de vista científico, a pessoa hipnotizada atinge um estágio similar ao sono, embora permaneça entre o estado de vigília e o do sono fisiológico. É quando ocorre a modificação do estado de consciência. A pessoa sai do estado consciente, no qual prevalece o espírito crítico e certa resistência, e entra num estado no qual o inconsciente aflora e permite ao indivíduo ser levado ao transe hipnótico. É desta forma que uma pessoa, mesmo cética, é capaz de aceitar uma sugestão dada pelo hipnólogo sem que a mente seja capaz de questionar o que é dito.

 

 

 

Congresso

 

O 25º Congresso Odontológico da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP) será encerrado hoje com a mesa-redonda “Atenção Básica em Odontologia no Brasil”, que terá a participação de profissionais de diversas regiões do país. O evento será realizado das 8h às 12h, com coordenação do professor da disciplina de Saúde Coletiva da FOB/USP, Roosevelt da Silva Bastos, e participação de secretários de Saúde, coordenadores de Saúde Bucal, cirurgiões-dentistas e alunos de odontologia. 

 

Com o tema “Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade Socioambiental”, o congresso é organizado pelos alunos do 4º ano do curso de odontologia da FOB/USP, com apoio da Diretoria da Faculdade, que comemora neste ano seu Jubileu de Ouro (50 anos). 

 

 

 

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