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?Profissão coruja? afeta as mulheres

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 7 min

Eder Azevedo

 A enfermeira Bruna se desdobra entre as madrugadas no Hospital Estadual e manhãs no Centrinho

Enquanto o dia termina para muitos, para elas, a jornada está apenas no início. É depois do por do sol, para algumas muitas horas depois, que muitas mulheres saem de casa para cumprir suas respectivas rotinas de trabalho (leia mais nas páginas 9 e 10). Além dos afazeres fora do cotidiano profissional, entre eles as obrigações do lar, filhos, etc, elas ainda encaram uma luta particular contra o relógio biológico. Assim como os homens, as mulheres também sentem os efeitos de uma jornada de trabalho que transcende o horário comercial.

Atendentes de hotéis, restaurantes ou hospitais, policiais civis e militares, artista, entre outras profissionais conhecem bem a diferença entre a rotina e descanso diário de quem trabalha sob a luz do sol e quem vai à luta tarde da noite e até atravessa a madrugada.

Particularmente entre as mulheres, observa o reumatologista José Knoplich, membro da Sociedade Brasileira do Conforto ao Dormir, os efeitos de uma “jornada coruja”, se manifestam de forma mais latente no organismo.

Segundo o especialista, mesmo que uma trabalhadora noturna descanse durante o mesmo número de horas que uma funcionária do expediente comercial, a primeira jamais conseguirá ter um nível de regeneração semelhante.

 “Nosso relógio biológico é orientado pela luz do sol, igual a todos os outros animais”, ilustra. “Quando há luz é para ficar acordado. Na ausência dela, é preciso dormir”, decreta o médico.

Entre as mulheres, diferencia Knoplich, existem outros fatores (orgânicos e sociais) que acentuam os efeitos causados pela jornada noturna. “Uma mulher que começa a trabalhar no período noturno, ao menos nos primeiros meses, não vai conseguir dormir durante o dia”, sentencia.

Além da escuridão natural necessária ao sono pleno, observa o médico, fatores como ruídos internos e externos ou obrigações domésticas, literalmente, tiram o sono das mulheres.

“A quantidade entre sete e oito horas que ela precisava dormir não será cumprida. Desta forma, ela fica mais sonolenta (durante a jornada), o raciocínio também fica mais breve”, descreve. “A adaptação total demora”, acentua.

“Elas não dormem o mesmo número de horas. Vão para casa, lá tem barulho, seja da rua ou dos filhos que brincam, dos vizinhos, elevador. Enfim, não conseguem dormir”, ilustra o médico.

Knoplich observa ainda que, pior do que o descanso incompleto durante o dia, é a alternância de horários. “Quando começam a se acostumar, elas voltam para o trabalho em ritmo anterior e desregula tudo outra vez. Nas mulheres, isso acarreta até alteração da menstruação”, especifica.

Dores generalizadas pelo corpo e até mesmo alterações nas secreções digestivas resultam das oscilações nos horários de trabalho, acentua o médico. “Imagina então se ela tem um filho. Nos meses seguintes, ela praticamente não trabalha em período normal. Toda a adaptação obtida é perdida”, complementa. “Nasce o bebê e ela tem de se readaptar”, comenta.

Exceto por força maior (no caso uma gravidez) o médico recomenda às mulheres “profissão coruja”: “Não aceite variações. É muito pior do que trabalhar durante a noite seguidamente”, diferencia.

Acertando os ponteiros

Apesar de tudo, é possível adaptar uma rotina que acerte os ponteiros do relógio biológico. Aliando formas de descansar melhor, mesmo durante o dia, com uma alimentação adequada, mulheres que trabalham durante altas horas podem ter qualidade de vida, antes ou depois do galo cantar.

Por parte das empresas, salienta o médico reumatologista José Knoplich, cabe fornecer subsídios para que as funcionárias otimizem o rendimento, justamente, com “descanso” durante o expediente noturno ou da madrugada. “Durante o trabalho é importante tirar um cochilo”, recomenda. “Alguns médicos plantonistas tiram a soneca, enfermeiras também”, ilustra. “Meia hora é suficiente”, dosa.

Uma das profissionais que seguem a receita citada pelo médico é a enfermeira Bruna de Almeida Oliveira. Além das jornadas de madrugada no atendimento aos pacientes do Hospital Estadual em Bauru, ela ainda “estica” o expediente até o período da manhã no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, o Centrinho.   

Para encarar os plantões na UTI Coronariana do Hospital Estadual conjugadas com as manhãs no centro de reabilitação da USP, a enfermeira conta que mantém uma disciplina de descanso e alimentação que a fazem aguentar o tranco. “É um desafio trabalhar fora do horário habitual. O período noturno parece ser quando os pacientes sentem mais dores”, descreve.

Ela diz conseguir dormir normalmente durante a tarde e, nas ocasiões de folga, até encontra tempo para sair com as amigas e curtir um barzinho. “Lidamos com o ambiente hospitalar o tempo todo. É necessário um esforço para que a gente também tenha vida social. Eu saio, mas brigando contra o sono”, admite.

Contudo, na maioria dos dias de folga, pondera Bruna, o lazer é mesmo estar com a família, oportunidade em que pode se cuidar para a nova jornada que se aproxima. “É importante se alimentar direito e tomar cuidados com nossa própria saúde”, conscientiza-se.

Desafio e utilidade são combustíveis

“Eu sei que sou apenas eu quem está aqui no horário em que as pessoas necessitam. Essa percepção de utilidade é uma das minhas maiores motivações”. Assim a escrivã de polícia Lívia Maria Remaeh enxerga a missão que encara ao menos uma vez por semana: os pernoites acordada no plantão permanente da Polícia Civil.

Há 14 anos na corporação - todos eles dedicados aos plantões, seja em Lençóis Paulista, onde iniciou o trabalho na polícia, ou Bauru, onde está há sete anos -, ela não se queixa do trabalho noturno, pelo contrário: “Eu gosto de trabalhar à noite. O mais importante é ser útil a quem precisa da gente e saber que fazemos falta”, orgulha-se. “Sou uma romântica convicta”, confessa.

Lívia, mesmo em meio à agitação de uma delegacia, em meio aos flagrantes, oitivas, entra e sai de presos do xadrez, mantém o pique. Seja com o estresse de uma noite movimentada no meio policial ou numa fria madrugada sem registros de ocorrências de maior “vulto”, a escrivã mantém o astral das pessoas as quais dizemos que parece “não haver tempo ruim”.

Diabética, Lívia ainda tem outro desafio. Manter a taxa glicêmica equilibrada numa rotina fora do horário habitual não é fácil. Contudo, ela afirma ter desenvolvido métodos, tanto de alimentação quanto de descanso, para não deixar a peteca cair.

Com uma dieta específica prescrita, medicação disciplinada e alimentação regrada, ela conta que não dorme nas tardes após ser “rendida” (termo policial quando os plantonistas da delegacia passam o turno umas para as outras) por outra equipe. “Faço isso para dormir à noite. Desta forma não viro um ‘zumbi’ depois que escurece e ainda aproveito o dia para resolver assuntos pessoais”, receita.

O cotidiano envolvendo o crime e seu respectivo combate também parece ser o de menos para a soldado Patrícia Gonçalves Pereira, da Polícia Militar.

Integrante há quatro anos do pelotão de Força Tática, grupamento especializado em ações que envolvem maior risco, como controle de rebeliões, ela encara outros desafios além de combater a criminalidade durante turnos de 12 horas, incluindo madrugadas por todos os cantos da cidade.

Avó aos 42 anos, ela revive o crescimento dos três filhos agora nos cuidados com o pequeno Renato, de 11 meses. “Não é fácil. Mas gosto de tudo o que faço”, assegura a policial, que se diz apaixonada pelo trabalho na PM. “Sou mãezona, caseira. Só que consigo trabalhar melhor à noite”, testemunha ela, que lembra até hoje da primeira prisão que efetuou.

Na ocasião, uma assaltante fora detida por Patrícia após uma tentativa de roubo contra um taxista. A ocorrência, recorda a policial, foi justamente no período noturno. “Realmente é quando as situações são mais tensas, outro público frequenta as ruas, desde os boêmios até criminosos mais perigosos.”

Contudo, ela diz não se intimidar com a tensão que chega com o escurecer. “Quando a gente atende a uma ocorrência nem sente tanto. A adrenalina também fala mais alto”, relaciona a soldado, cujo comprometimento arranca elogios dos comandantes, entre eles o sargento Paulo Tenório da Silva, comandante da equipe integrada por Patrícia. “Ela sempre se saiu muito bem, inclusive nos treinamentos mais difíceis, como os envolvendo gás lacrimogênio”, cita.


 

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