Neide Carlos |
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Além do público-alvo, marcha também contou com heterossexuais, crianças e idosos |
Se o objetivo da 1ª Marcha Contra a Homofobia de Bauru era reunir um público diversificado para pedir fim aos crimes motivados por preconceito e discriminação, ela conseguiu. Cerca de 250 pessoas tomaram a avenida Getúlio Vargas, que teve interditada a pista ao lado do Aeroclube na tarde de ontem, carregando faixas e cartazes que diziam: “As pessoas são diferentes. Respeite!”.
E as palavras da frase se refletiram ao longo da marcha, que atraiu além de gays, lésbicas e travestis, crianças, adolescentes, casais heterossexuais, famílias e idosos. A mobilização se concentrou na quadra 9 da Getúlio e só terminou na Praça da Copaíba, após a execução do Hino Nacional, seguida por intervenções artísticas, ao som de canções populares e muita música eletrônica.
Por trás da alegria, porém, o caráter cidadão da marcha também foi bem explorado pela organização, da Associação Bauru pela Diversidade (ABD), Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) e Conselho Municipal da Diversidade.
Mas não é apenas na legislação que o movimento LGBTT pede igualdade, como por exemplo, com a aprovação da lei federal que criminaliza a homofobia. Os casais homoafetivos ainda sonham com pequenas conquistas, às quais todos os heterossexuais têm direito.
Gabriel e Walter (que preferem ter seus sobrenomes preservados) estão juntos há seis meses. A diferença de idade entre eles é de 31 anos, mas esse não é necessariamente um tabu para o casal. O que eles queriam mesmo era poder andar de mãos dadas...
“Fomos ao shopping hoje (ontem) e comentamos justamente isso. Ainda não sentimos a segurança de andar de mãos juntas lá e em nenhum outro lugar. Por essas e outras, precisamos estar aqui, marcando posição, dizendo que a homossexualidade não é doença e nós queremos viver como todas as outras pessoas”, conta Gabriel.
O preconceito e a discriminação são sentidos, até mesmo, por aqueles que não são seus alvos. O jornalista Thiago Teixeira, 26 anos, e a estudante de psicologia Fernanda Gomes, 23 anos, são namorados e fizeram questão de participar da marcha. Além da simpatia à causa, ela desenvolve projeto na área de educação sexual na Universidade Estadual Paulista.
Já Thiago conta que tem alguns amigos homossexuais e relata que, até mesmo em meios tidos como mais progressistas, como o universitário, o preconceito está presente. “É claro que lá, homossexuais têm a liberdade de se colocar como tal, o que não ocorre em outros espaços. Ainda assim, a discriminação existe. O ideal mesmo seria que as pessoas não fossem distinguidas entre heterossexuais ou homossexuais”, afirma.
Igreja Inclusiva não divulga endereço
As igrejas inclusivas, que aceitam a homossexualidade, estão explodindo pelo Brasil. Em Bauru, uma já existe há dois anos. No entanto, o reverendo Aloísio Pereira da Silva, 28 anos, não divulga publicamente o endereço onde cerca de 60 fieis se reúnem semanalmente para os cultos. “Muitas igrejas no País são alvos de ataques. Por isso, preferimos preservar essa informação”, explica.
Aloísio já foi seminarista da Igreja Católica e frequentou outras comunidades evangélicas. No entanto, nunca se sentiu acolhido por conta da orientação sexual. “A partir disso, um grupo de amigos começou a se reunir para orar e nasceu a Igreja Inclusiva ‘Monte da Adoração’”, explica.
A comunidade defende a união civil e a adoção de crianças por homossexuais. No entanto, Júnior refuta o rótulo de ‘igreja gay’. “Ela é inclusiva e está aberta a todos. Aliás, já contamos com a participação de famílias e pessoas.
‘Lei precisa ser aprovada’, diz secretária
A 1ª Marcha Contra a Homofobia de Bauru foi realizada em razão do Dia Internacional da Luta Contra a Homofobia, celebrado no dia 17 de maio. A data foi instaurada no País há dois anos e foi escolhida por conta da retirada da homossexualidade da lista internacional de doenças da Organização Mundial de Saúde (OMS), neste mesmo dia, em 1990.
Membro da ABD, Markinhos Souza afirma que muitos avanços foram conquistas, principalmente em Bauru, que tem se tornado referência nacional na luta contra a homofobia. No entanto, pondera que o problema só terá remédio com a aprovação do Projeto de Lei 122 (PL 122), que criminaliza a homofobia.
Ele comentou ainda os recentes casos de violência supostamente motivados por homofobia, como o da travesti Evelyn. “Embora sejam inaceitáveis, já eram esperados. Acontecem como uma reação daqueles que se incomodam com o fato de nossa luta estar, cada vez mais, ganhando espaço”, pontua.
Titular da Sebes, Darlene Tendolo participou da marcha, a qual classificou como ato de cidadania. “O combate à homofobia é uma questão de política pública. Precisamos sempre lembrar que, apesar da homofobia ainda não ter sido criminalizada, atos de violência e preconceito são. Nossa Constituição garante direitos individuais que precisam ser preservados”, diz a secretária.
Internet
Markinhos Souza alerta sobre os perigos da internet como forma de conhecer pessoas. Segundo ele, muitos homossexuais que não se assumem por questões familiares e pelo preconceito da sociedade, acabam utilizando a ferramenta para iniciar relações. “A internet é uma porta para os crimes de homofobia. “Por isso, as pessoas precisam ser muito cautelosas nesse sentido. Não podem, por exemplo, colocar um desconhecido dentro do carro”, exemplifica.
Encontro de gerações comprova avanços
Pessoas de todas as idades participaram da Marcha Contra a Homofobia. A dona de casa Maria do Carmo Queiroz Castro, 67 anos, prestigiou a mobilização junto da neta Patrícia de Castro, 17 anos.
Um breve diálogo entre as duas mostrou que, apesar dos obstáculos que ainda precisam ser superados, a causa LGBTT avançou ao longo das gerações. “Quando eu tinha a idade dela, ainda mais morando em cidade pequena, ninguém nem sequer falava sobre isso. Se aconteciam relações homossexuais, eram muito bem escondidas”, relatou.
Já a neta afirma que, na sua escola, a temática é comum. “A gente percebe tendência sem alguns colegas, mas respeita. Só que sempre tem alguém para tirar sarro ou fazer piadinhas”, explica.
Questionada se as mudanças ao longo dos anos a assustam, Maria do Carmo garante que não. “Temos que respeitar todo mundo. Além disso, sou pra frente”, brincou.
‘Provei que sou mais do que isso’, diz travesti sobre inclusão social
Apesar da persistência do preconceito, da discriminação e até de crimes de homofobia, existem também exemplos positivos de superação a essas barreiras. Samantha Oliveira, 29 anos, é prova disso por conseguir ter se inserido no mercado de trabalho formal, diferentemente da maioria das travestis como ela.
Em Bauru há dois anos, vinda do Estado do Rio de Janeiro, ela trabalha como operadora de crédito em uma grande empresa da cidade. Mesmo em sua terra natal, conseguiu também atuar como professora de informática. “As travestis são estigmatizadas como garotas de programa ou simplesmente símbolos de fetiches, o que nunca esteve entre as minhas opções de vida. Provei que sou mais do que isso, graças à formação que tive desde criança”, conta.
Samantha chegou também a ingressar no ensino superior, mas não concluiu o curso de Letras.
