Ciências

Implantes mudaram a odontologia!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Os cabelos são filamentos de queratina formados pelo revestimento da pele. Cada um tem uma raiz implantada na parte mais profunda da epiderme, mas em continuidade com esta parte mais externa ou epitelial da pele. Em outras palavras, os cabelos são formados e localizados na parte externa do corpo, o mesmo ocorrendo com as unhas.

A única parte do corpo formada pela parte interna e externa que atravessa o epitélio de revestimento são os dentes. Parte do dente está fora do corpo, a coroa, mas outra parte está no meio interno, a raiz, interagindo com o sangue e demais líquidos e células. Para isto ser viável, no projeto humano original, que ninguém sabe onde está guardado, fez-se um verdadeiro cinturão de epitélio juncional entre a mucosa e o colo do dente ou a parte cervical logo abaixo da gengiva para isolar o meio interno do externo.

Na região cervical o epitélio juncional isola a parte interna ajudado por fibras colágenas firmemente aderidas na raiz. Se neste lugar juntar bactérias e restos alimentares por falta de higienização pode-se violar este vedamento e começar uma doença ao redor do dente ou periodontal. Se higienizarmos os dentes isto não acontecerá, os teremos para sempre!

Quando se perde dente por alguma razão dá uma vontade enorme de colocar outro no lugar, mas não havia materiais que o corpo aceitasse como parte de si mesmo. Se colocasse pino ou parafusos para simular as raízes dos dentes, os materiais não promovia com os tecidos e células do corpo uma continuidade, uma integração estrutural e funcional. Logo ficavam moles, infectados e eram perdidos.

Até 25 anos atrás, para substituir um dente perdido precisava-se preparar ou “desgastar” no mínimo dois outros dentes vizinhos nos quais uma coroa isolada ficaria apoiada em cada lado. Cada vez mais reduzimos o número de dentes perdidos pela educação e assistência à população, mas quando acontece, os implantes dentários representam, em geral, a solução mais evoluída, pois rapidamente teremos de volta a estética e função. Até então um tratamento reabilitador era muito demorado quando compara-se com o tempo em que hoje o paciente volta a ter o sorriso. Evoluímos muito, quase que de forma inacreditável!

Há mais ou menos 40 anos atrás um cientista sueco conhecido como Branemark estava pesquisando como o sangue circulava dentro dos vasos nos tecidos. Ele envolvia sua câmara de vídeo com um material que não conhecia. Ao remover, percebia que o osso do paciente recobria a caixinha e até a levava à perda de algumas câmaras, pois a adesão era muito forte. Se informou qual era este material, do que era composto e descobriu-se que era de titânio.

Como sua mente estava preparada para “acasos”, uma situação conhecida como serendipidade, logo percebeu o valor daquela observação e projetou implantes dentários testados em ossos. Semanas e meses depois de colocados nos ossos dos maxilares, havia uma integração com a superfície dos implantes, tão firme, que se a ponta superior ou mais superficial destes implantes, com roscas semelhantes a de parafusos, fossem expostas e trabalhadas na forma de dentes do ponto de vista estético e funcional, o paciente voltaria a ter sua mastigação e outras funções normais. O homem procurava por este material há milênios!

Imaginem a resistência que esta forma de tratamento odontológico reabilitador sofreu no meio dos profissionais. Com muita pesquisa, persistência e inteligência conseguiu convencer sobre o valor dos implantes de titânio para a humanidade. A odontologia mudou completamente. O titânio constitui um material que o osso e tecidos moles o aceitam como mais um de seus componentes, não os distingue de suas estruturas, promovendo uma verdadeira osseointegração.

Nosso organismo não rejeita os implantes de titânio, sob qualquer situação. Um implante pode ser perdido por sobrecarga, planejamento inadequado, falta de higiene, área óssea escolhida, não seguimento das orientações, mas nunca por rejeição ou imunorejeição!

Ainda havia um problema: será que a mucosa atravessada por esta estrutura iria vedar o meio interno do meio externo como acontece com os dentes pelo epitélio juncional? Hoje sabemos que sim. O homem conseguiu imitar a natureza na única estrutura no corpo que atravessava a superfície e ficava ao mesmo tempo no meio interno e externo: os dentes. Como diria o caboclo: eta homem danado, sô! Evoluímos!

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