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Nunca antes, na história das redes sociais...

José Eugênio de Mira
| Tempo de leitura: 4 min

Nunca antes na história desse país usamos tantas redes sociais. Com o perdão do clichê lulista, nenhuma frase exprime tão bem o momento social que estamos atravessando. A utilização da Internet, venda de notebooks e smartphones com acesso às redes sociais batem recordes, mês após mês. A introdução de novas tecnologias na vida de jovens e adultos parece ser a formula para um novo pensamento compartilhado. Se boas ideias surgem em um brainstorm, imagine uma rede inteira de brasileiros de todas as classes conectados pensando juntos alguns problemas políticos e econômicos que urgem serem solucionados? Twitter e Facebook são ferramentas protesto, embora alguns céticos duvidem. O tempo do político alienado já foi, e quem quiser fazer política no século 21 precisa de aliados digitais. Maluf precisa aprender piar no mesmo tom do passarinho azul. A grande força das redes sociais é esse poder de coerção invisível, o medo que a democracia deveria naturalmente ter da turba enfurecida de votantes perplexos, de tablets na mão. O protesto nas redes sociais, se bem arquitetados, poderiam ser válidos e tirar o Brasil do atraso histórico e da lama da corrupção de uma vez por todas.
Então... Onde está o povo? O povo está no Twitter, xingando os técnicos de todos os times paulistas. O povo está lá, digitando hashtags ridículas que algum apresentador solicita para decidir a sorte de algum personagem real-fictício. O povo está compartilhando um tombo ou uma entrevista de algum ex-BBB. O povo está no Facebook. Compartilhando imagens que causam um lapso mínimo de riso. Um gato, um brinquedo da década de 80, uma ofensa religiosa/sexual/esportiva. Centenas de milhares de pessoas compartilhando conteúdo inútil desde, é claro, que seja fato. Ou #fato. O povo é carente, tadinho. Quer gente pra curtir e compartilhar suas desgraças e felicidades pessoais. O dedinho pra cima azul do Facebook é um abraço patético virtual. E o povo brasileiro é assim. Prefere o político ladrão que abraça e beija ao carrancudo que instaura CPIs. Engraçado é nunca vermos uma imagem escrita "Compartilhe se você votou no PT, ou curta se votou no PSDB". E é por isso que continuamos a compartilhar vídeos engraçados e piadas de time, mas evitamos botar o dedo na ferida e falar do que interessa. Não queremos chatear nossos amigos e parentes, mostrando nas redes sociais como somos manipulados pelo Jornal Nacional e pelo Datena. O povo se acostumou a consumir conteúdo pré-fabricado e agora age assim, regurgitando conteúdo mal elaborado. No turbilhão disforme de informações gerado pelas redes sociais está tudo lá. Só falta coerência. Por que entramos naquela rede social? Por pior que seja, ainda preferimos uma experiência social vazia ao invés da solidão. E aceitamos isso de qualquer pessoa que esteja disposta a compartilhar ou curtir nossas amenidades, que tope abraçar com pena nossa mediocridade. As redes sociais não são feitas de gatos, brinquedos antigos ou Willy Wonkas. Elas são feitas de pessoas. E no Brasil, elas são feitas de brasileiros. Nunca teremos uma experiência social que preza conteúdo no lugar de humor, porque vivemos em um país que consegue anunciantes milionários para o Zorra Total e o Pânico, mas precisa de incentivo governamental para manter a TV Escola no ar. Nunca vamos alcançar o ideal Europeu de protestos nas redes sociais, porque demoramos quase trinta anos para perceber que estávamos em uma ditadura. Nunca vamos ter um país que preza a política no lugar do fanatismo esportivo, porque em nosso país os televisores estão todos ligados na final do campeonato, mas desligados no Horário Eleitoral.
Nossas redes sociais são espelhos de nossas almas vazias de cidadãos de segunda classe. Desinteressados, vazios e apolíticos. Idiotas, como diriam os gregos. Talvez essa seja a característica mais fascinante dssas redes: Escancarar nossa sociedade do jeito que ela é, com todas suas idiossincrasias. Compartilhar as experiências de um povo que vota mal e não tenta acertar na próxima eleição e que lida bem com a violência e a corrupção que mata nossos filhos na rua e nossos avós na fila do hospital. Espalhar para o mundo todo como somos felizes sem motivo, pois nosso sistema de saúde está falido, nossa segurança é uma piada e nossa educação está abandonada. Mas ainda assim, sorrimos e somos felizes no Facebook e no Twitter. Particularmente, eu acredito que quem ri sem motivo está bêbado, ou tem alguma deficiência mental.

O autor, José Eugênio de Mira, é analista técnico administrativo -
Gerência do Departamento de TI - Fatec Bauru

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