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40% das demissões são espontâneas

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Foi-se o tempo em que o trabalhador vivia sob constante ameaça de ser mandado embora do emprego. O mercado de trabalho aquecido criou uma nova realidade para os bauruenses que, cada vez mais, se demitem voluntariamente das empresas em busca de melhores oportunidades.

 

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), mostram que quase 40% dos desligamentos no primeiro quadrimestre deste ano ocorreram por decisão do trabalhador. A cidade teve 21.298 desligamentos de janeiro a abril, sendo 8.457 deles por iniciativa do empregado.

 

No primeiro quadrimestre de 2003, ano do início da pesquisa, o panorama era bem menos favorável e as saídas voluntárias somavam somente 17,7% do total. Se considerados os números anuais, a tendência de aumento do desligamento espontâneo mais uma vez é confirmada. 

 

Na média de 2011, 36,2% das demissões foram por iniciativa do funcionário, ante a proporção de 16,3% sobre o total em 2003. “A maior oferta de vagas é a grande responsável por permitir que o trabalhador consiga um emprego melhor”, sentencia o economista Mauro Gallo.

 

Uma comprovação de que o mercado de trabalho se mantém aquecido em Bauru é o total de pessoas contratadas neste ano. De janeiro a abril, foram 23.295 admissões, que resultaram num saldo de 1.997 novas vagas no período. 

 

Um reflexo do fenômeno, conforme aponta a gerente de recursos humanos Giuliana Moscatelli Fabiano, é que trabalhadores que ficavam 15 anos na mesma empresa são cada vez mais raros de serem encontrados. “Hoje, se uma pessoa está há cinco anos no mesmo emprego, a gente já acha muito. Isso ocorre porque, agora, ela tem condições de escolher onde quer trabalhar. Há pouco tempo atrás, tinha de aceitar o que aparecesse”, pontua. 

 

Em alguns casos, as empresas ainda tentam reter seus talentos e, dependendo da competência do empregado, costumam oferecer contrapropostas salariais antes de acatar o pedido de demissão. Esta concorrência entre empregadores, segundo Gallo, acaba pressionando os salários para cima.

 

“O aumento da renda vem se mantendo sempre acima da inflação, mas não é algo extremamente elevado. Obedece à lei da oferta e procura”, cita.

 

 

 

Troca-troca

 

O programador Tiago José da Silva Neto, 20 anos, por exemplo, trocou de emprego no mês passado e, assim, conseguiu elevar seu salário em cerca de R$ 300,00. Ele garante, entretanto, que a melhor oferta de rendimento não foi decisiva para a mudança de trabalho.

 

“No emprego anterior eu já trabalhava como programador, mas não exatamente na minha área. Agora, estou em uma empresa de desenvolvimento de sistemas e acredito que esta oportunidade de trabalho, com foco mais voltado à área que eu pretendo seguir, vai ampliar meus conhecimentos”, cita ele, que faz faculdade de sistemas de informação. 

 

Tiago decidiu conciliar estudos e trabalho, mas há quem peça demissão para centrar esforços na educação, como foi o caso do estudante universitário Adriano Vannini, 18 anos, que começou a cursar jornalismo neste ano. Ele revela, porém, que a decisão também foi influenciada pelo desejo de encontrar estágio em sua área, já que tem planos de conhecer melhor o mercado antes de terminar a faculdade.

 

“Eu trabalhava como atendente em uma livraria e, há quatro meses, decidi parar. Sempre tive emprego, mas agora gostaria de encontrar algo dentro do jornalismo. Do contrário, vou focar na minha banda (musical) e nos estudos, que demandam bastante tempo de dedicação fora da sala de aula”, revela.  

 

 

 

Salário e oportunidade de crescimento

 

Salário mais alto, oportunidade de crescimento, dispensa de trabalho aos fins de semana e proximidade com a residência estão entre os quesitos que levam as pessoas a abandonar um emprego e optar por outro, segundo revelam especialistas consultados pela reportagem. O economista Mauro Gallo observa que esta realidade de trabalho é inédita na cidade, já que antes eram as empresas que impunham exigências na hora da contratação. 

 

“Hoje, são os trabalhadores que evitam, por exemplo, empregos que exigem disponibilidade aos finais de semana e feriados, como é o caso de supermercados, hospitais e o comércio. Se o salário em outra empresa que não possui esta exigência for o mesmo, a pessoa certamente vai optar por esta última”, detalha.

 

Para a gerente de recursos humanos Giuliana Moscatelli Fabiano, as chances de crescimento profissional dentro de uma empresa também costumam pesar na decisão do trabalhador. “Em muitos casos, ele aceita até ganhar um pouco menos por acreditar que possa aprender e evoluir na carreira, no período de alguns anos”, assinala.

 

 

 

Tendência é mais forte em cargos operacionais

 

O desligamento espontâneo aumentou entre trabalhadores de todos os níveis de qualificação, mas a rotatividade é mais acentuada nos cargos operacionais, conforme analisa a gerente de recursos humanos Giuliana Moscatelli Fabiano. O aumento da oferta de trabalho faz com que os profissionais mais qualificados sejam disputados por empresas que sofrem com falta de mão de obra neste nível para expandir seus negócios.

 

Por outro lado, os empregados com menor capacidade técnica mudam de emprego em busca de aumento - por menor que seja, já que também são beneficiados pela demanda crescente por seus serviços. “Se o trabalhador estiver ganhando R$ 1 mil por mês, mas encontrar um emprego que pague R$ 1,1 mil com as mesmas condições de trabalho, ele vai trocar. A maior oferta de vagas, na verdade, criou uma falta de comprometimento entre empresa e trabalhador”, avalia Giuliana. 

 

Entre os setores com maior rotatividade de funcionários, o economista Mauro Gallo cita a construção civil e o segmento de serviços, com ênfase nas áreas de contabilidade e recuperação de crédito. “Todos, hoje, estão com dificuldades para encontrar gente para trabalhar”, pontua.

 

 

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