Voltamos ao nosso querido caderno de todas as quintas-feiras . Que delícia ! E voltamos para narrar mais um fato fantástico que, não sabemos bem o motivo, sempre acontece conosco. Dentre as inúmeras viagens feitas ao lindo e imenso Estado de Mato Grosso do Sul para pescar, nenhuma delas foi tão curta e assustadora quanto esta. Era fevereiro de 1980, verão, sol escaldante com previsão de chuvas e ventos fortes para aquela semana que se iniciava. Nada disso assustou meu amigo e experiente caminhoneiro, o Pedrão.
- Vamos lá, Fernando? Esta época promete muito peixe no pantanal! E fomos, desta vez de caminhão. Cortando a rodovia Marechal Rondon rumo a Três Lagoas, tudo era festa na boléia! Pedrão atento ao volante e eu na posição confortável de copiloto, apreciando a paisagem! O rádio e toca-fitas (o CD ainda não existia) do caminhão transbordava em música sertaneja. Era o gosto do companheiro, tolerável, já que o clima era de festa, em busca de bons peixes. Ao passarmos pela cidade de Lins, a Polícia Rodoviária, gentilmente nos parou perguntando qual seria o nosso destino. Ao sabê-lo, recomendaram cautela, pois a última previsão do tempo anunciava chuvas torrenciais e ventos muito fortes.
De fato, algumas nuvens escuras já mudavam a cor do céu naquela altura da viagem. Mesmo assim, duvidei da previsão. Eles sempre erram, pensei. Depois da simpática Araçatuba, começou a chover. Não parou mais. Nas proximidades de Andradina já era um vendaval! Mal se via a estrada e o vento já dava sinal de violência. Resolvemos continuar. Estávamos próximos da Usina Engenheiro Souza Dias, mais conhecida como Jupiá, cuja barragem divide os dois estados, quando um raio precipitou-se bem à nossa frente, na estrada. Foi um clarão espetacular, seguido de um estrondo muito forte. Confesso que assustei, mas o Pedrão não tava nem aí, cantando junto - ensurdecedoramente - com Leandro e Leonardo, no toca-fitas. Na entrada da barragem a cena era dantesca! O vento, fortíssimo, soprava rio abaixo, encrespando as águas represadas que batiam na mureta, ameaçando transbordar. A chuva forte embaçava a visão, entrecortada pelo limpador do para-brisa. Nisto, pudemos ver, incrédulos, vários objetos literalmente "voando" por sobre a barragem! Mesmo com a visão prejudicada pela água da chuva, misturada com a névoa que subia da enorme represa, conseguimos ver algas, aguapés, pedaços enormes de madeira, galhos de árvores e alguns objetos prateados, além de tocos escuros que pareciam folhas de papel, pela maneira leve e rápida com que flutuavam ao sabor do vento impiedoso! Uma verdadeira loucura! Pedrão, agora um pouco nervoso, vociferou: - Fernando, vamos atravessar a barragem! Não dá para parar! Segura as pontas! Segurei muito mais, inclusive meu coração acelerado que já ia saindo pela boca! No meio da barragem a situação piorou! Os objetos não ultrapassavam o concreto devido a sua grande altura. Batiam nele e caíam na carroceria do caminhão que já quase desgovernado, numa velocidade espantosa, " voava " também, pela pista da barragem! Num sufoco sem precedentes, atravessamos e, já no outro lado, estacionamos no acostamento, esperando o final daquele infernal dilúvio. Passado o aguaceiro, pudemos descer do caminhão. Atraídos por um barulho estranho, subimos na carroceria e constatamos, boquiabertos, algo assombroso e inusitado. Entre as algas, aguapés e galhos de árvores - pasmem senhores e senhoras pescadores -, debatiam-se, presos às redes de pesca, vários curimbas (aqueles objetos voadores prateados não identificados, lembram?) e pintados (aqueles tocos escuros!!!). Vejam o que é a força dos ventos naquela região, arrancaram do rio, redes com peixes e tudo! Força maior que essa, só uma tsunami daquelas lá do Japão! E nós, apesar do risco, estávamos no lugar certo, na hora certa e com a carroceria certa, digo, descoberta. Voltamos de lá mesmo para Bauru. Foi nossa primeira pescaria em que as "tráias" ficaram intactas e as iscas voltaram do mesmo jeito que foram. Mas os peixes vieram. Agradecemos até hoje os "bons e violentos ventos" de Mato Grosso do Sul.
?Fernando Lucilha Júnior,
pescador e contador de histórias e que nunca mais duvida da previsão do tempo