Articulistas

Aguardemos tempestades

Marcondes Serotini Filho
| Tempo de leitura: 3 min

Contemplamos, não do alto destas pirâmides, como "o Corso" Napoleão bradou aos seus soldados ao chegar às margens do Nilo, mas sob as mazelas da fome e do subdesenvolvimento, vários séculos de domínio de vários impérios sobre povos menos aquinhoados, sem que nenhuma medida rápida fosse tomada para a redenção destes milhares de desvalidos. O Velho Mundo, branco e ocidental, nunca se preocupou com seus domínios e dominados, a não ser se alguma de suas matérias-primas faltasse e perturbasse a ordem de sua produção, desde o sistema feudal ao pré-capitalismo, formando uma sociedade burguesa auto-suficiente, entrando aí grandes aspas. A dependência de um povo, não raro de pele escura, que fornecesse uma mão-de-obra barata para a exploração ora de diamantes, ouro, ou alguma riqueza verde, bem como fazendo deles consumidores compulsórios de seus produtos, gerou povos massacrados pela miséria e pela falta de educação. Nada aí de racismo e sim de segregação geopolítica pura.

O mundo não moveu uma palha generalizada ou de maneira deliberada para estabelecer uma ordem mais igualitária, que seria positiva para todos os desclassificados desde há muito, e não seria demais esta medida humanitária ter tomado assento em alguma reunião dos grandes e poderosos. Foram séculos de descaso, quando as linhas demarcatórias geradas pelo poder político e bélico mostraram a verdadeira face de um mundo envelhecido pelos anos de hipocrisia, combalido e claudicando na bengala espúria de um egoísmo que faz aniversário. Basta notar qual foi e é a reação global frente a um terremoto na Namíbia ou quando um trem descarrila no Paraguai: zero é o número de atuações prontas que possam minimizar a catástrofe, investigar as causas e evitar futuras repetições do evento. Porém, quando um homem-bomba mata quatro ou cinco pessoas loiras e de olhos azuis na Europa ou nos E.U.A., chega-se a revogar a lei da.gravidade, passando pela discussão da quadratura do círculo, tamanha é a comoção que um desastre deste porte causa nas hostes do Primeiro Mundo. Não é à toa que pululam nos países menos favorecidos mártires chamados "Redentores", "Pacificadores", "Libertadores" e líderes revolucionários que prometem salvar a massa do jugo dos poderosos. Por outro lado, quando a Alemanha foi vilipendiada e esfolada pelo Tratado de Versalhes, ato contínuo foi o surgimento do IIIº Reich, que culminou com a Segunda Guerra Mundial e o holocausto.

Agora, com a Europa vendo ir à falência seu projeto de unificação do Estado de Bem-Estar.Social, que faria dela um bloco de países vivendo e convivendo numa espécie de Shangri-Lá com um estado de espírito beirando o Nirvana, urgem medidas que estanquem esta bancarrota generalizada. A procela que redimirá o Velho Mundo já está desembocando no recrudescimento de uma rediviva esquerda festiva e quase sempre acéfala, além da ultra-direita neofascista, truculenta e belicista. Esperemos uma bonança que virá após esta resolução, não sem antes sentir aqui na nossa pele morena os derivativos e respingos das futuras medidas para sanar o desequilíbrio econômico-social dos outrora resolvidos, hoje insolúveis.

O autor, Marcondes Serotini Filho, é cronista e colaborador de Opinião

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