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A tábua de salvação... Será uma utopia?

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

O papel da educação, hoje, é o de fornecer ferramentas intelectuais e morais que nos permitam sobreviver ? nada menos. Somos um número cada vez maior de pessoas que, por viverem mais tempo, sentem-se ameaçadas de tédio, de medo do vazio e tentadas a escapar disso através do frenesi consumista. No entanto, é preciso privilegiar outras formas de satisfação insistindo na aquisição do saber e, principalmente, no desenvolvimento de uma crescente vida interior. Se quisermos aproveitar plenamente o que a vida nos oferece, somos obrigados a modificar nosso comportamento. Não para reduzir o leque de sensações, mas, pelo contrário, para ampliá-lo, realçá-lo, buscar outras sensações que podem se revelar intensas. Podemos procurar satisfazer as necessidades e os prazeres da existência consumindo mais, porém, isso reduz os recursos do planeta e suscita tensões destruidoras ou satisfazer-nos privilegiando a sustentabilidade, a aprendizagem e a cultura em todas as etapas da vida. Uma sociedade sustentável, justa e cônscia de seus deveres é uma construção sem fim e, portanto, em cada instante, imperfeita. No entanto, tudo deve ser feito para que fique cada vez mais próxima da perfeição. Ela é uma utopia ou uma estrela em direção à qual nos dirigimos e que serve para encontrar o caminho, por mais reduzida que seja a esperança de atingi-la. Sendo uma construção humana, essa utopia só pode ser transmitida pela educação. Educação significa sensibilizar a si mesmo, aos seus amigos e à sua família para o comprometimento com o bem coletivo; a educação de verdade desencoraja o egoísmo e a violência. A educação deve se intensificar à medida em que nos tornamos mais experientes e adquirimos uma compreensão mais profunda do nosso lugar no universo. A educação faz-nos sentir capazes de avaliar e apreciar o significado de uma convivência pacifica; de alterar a perspectiva solitária e míope de si próprio e do mundo. O conhecimento é um universo incomensurável, podemos dele consumir sem economia, pela vida inteira e nunca vamos esgotá-lo. Melhor ainda: quanto mais consumimos, menos esgotamos o planeta. Esta já seria razão suficiente para se considerar a primazia da educação como garantia de sobrevivência. Mas não é a única. Há outra, igualmente fundamental e que, por si só, justifica que se coloque a educação no centro da escala de valores. Trata-se da maneira como ela pode nos ajudar a lidar com a diversidade humana, já que, em nosso século, não há mais estrangeiros ou estranhos, há apenas "companheiros de viagem"; quer morem do outro lado da rua ou do outro lado da Terra, estão a dois passos de nós ou do outro lado da tela; nosso comportamento os afeta, como os deles a nós.

Se quisermos preservar a paz em nosso País, em nossa cidade, em nosso bairro, se quisermos que a diversidade humana se traduza pela coexistência harmoniosa, não podemos mais aceitar conhecer "os outros" de maneira superficial, grosseira. Precisamos conhecê-los com sutileza, de perto. É o que pode ser feito através da cultura e antes de tudo, pela literatura. A literatura é a intimidade de qualquer povo, nela se revelam suas paixões, aspirações, sonhos, frustrações, crenças; ela nos mostra sua visão do mundo, sua percepção de si mesmo e dos outros. Há tantos povos e tradições... que se encorajássemos a criança a se entusiasmar por outra cultura além da sua, resultaria disso um denso tecido cultural que cobriria o planeta inteiro, reconfortando identidades temerosas, atenuando antipatias, reforçando pouco a pouco a crença na unidade da aventura humana e com isso, tornando possível um salto edificante. O mundo só pode ser salvo pela educação; é preciso, pois, dar a ela o lugar prioritário que lhe cabe. E isto não é nenhuma novidade; já disse o Profeta do Islã: "A tinta de escrever de quem sabe vale mais do que o sangue do mártir"; também, no Talmude da tradição judaica, encontra-se esta referência, de forma forte e comovente: "O mundo só se sustenta pela respiração das crianças que estudam".


O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - Campus de Bauru

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