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Muito ruído no clima

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Desde a grande reunião de Estocolmo em 1972, a Organização das Nações Unidas patrocinou a realização de Conferências sobre o Clima Mundial regularmente a cada 10 anos, a mais recente a de Johannesburgo em 2002 (Rio + 10) e a próxima a ser realizada no próximo mês de junho no Rio de Janeiro, com a esperança de que poderá acrescentar algo importante aos fracos resultados das suas predecessoras. A expectativa favorável se explica pelo fato de que o Brasil não apenas "tem saído bem na foto" em todos os debates como, hoje, é comprovadamente um dos mais eficientes produtores da "energia verde" que substitui os combustíveis responsáveis pelo aumento da poluição do clima universal.

Isso impõe uma grande responsabilidade à Rio+20 da qual se deve esperar compromissos firmes para a mudança "verde" na produção de combustíveis e no esforço recobrado em tecnologias que reduzam a quantidade de energia por unidade de PIB nos níveis que se imagina até 2050. O difícil é convencer os grandes "sugismundos" ao redor do globo. A China, por exemplo, que desde 2006 é a maior poluidora internacional (muito rica em carvão), consome 2,5 vezes a energia por unidade de PIB com relação à média mundial e 4,5 vezes a consumida pelos países da OECD. Apesar de todo seu esforço antipoluidor, sendo a maior consumidora de energia por unidade do PIB, com o aumento de sua energia produzida pelo carvão e tendo a maior taxa de crescimento do PIB, é pouco provável que mesmo com um esforço gigantesco ela venha a contribuir significativamente para o objetivo de reduzir as emissões conforme exigido até 2050. O mesmo acontece com os EUA.

A situação é ainda mais complicada quando consideramos que 16 cientistas publicaram no início deste ano um manifesto sob o título "Não há necessidade de pânico sobre o aquecimento global" (The Wall Street Journal, 26/01/2012) afirmando que não há "evidência incontroversa de que esteja havendo um aquecimento global" e que "não há prova que o CO2 seja um poluente". Sugerem que podemos esperar mais 50 anos para ver como as coisas ficam! E como se faltasse "ruído", o ganhador do prêmio Nobel de Física, prof. Ivar Giarver, democrata, apoiador de Obama, pediu desligamento, em setembro de 2011, da prestigiosa American Physical Society (APS), por não concordar com uma resolução onde ela afirmou o contrário do que está dito acima. Isso mostra o nível de paixão despertado por uma questão que deveria ser resolvida com fria objetividade apelando, pelo menos, para o princípio da precaução, diante das terríveis consequências do aumento do aquecimento terrestre se ele vier acontecer. Mais dramático, ainda, foi o recente reconhecimento do célebre catastrofista James Lovelock (o criador da hipótese Gaia: a Terra é um organismo vivo) que o clima contrariou, desde 2000, todas as suas previsões e que "é necessário mais estudos para entender o futuro do planeta".


O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC

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