‘A família é o centro da sociedade’
Ele nasceu em Campina Grande, na Paraíba, e veio a Bauru pelo ministério pastoral. Aqui, o pastor Gilson Souto Maior Júnior, da Igreja Batista do Estoril, conheceu Shirlei, casou-se e constituiu família: “Eu tenho dois filhos e a família é o centro da sociedade, a base. E para mim é o bem mais importante”.
A vocação religiosa, segundo ele, surgiu ainda na adolescência e aos 18 anos de idade veio o seminário. Preocupado com a visão da sociedade sobre o ministério, ele diz que algumas vezes é até difícil dizer que é pastor porque as pessoas, infelizmente, fazem ligação com o ganho de dinheiro desonesto. “Há péssimos exemplos por aí. A figura do pastor que cuida de suas ovelhas, que chora com os que choram e se alegra com os que se alegram não é mais vista dessa forma. Hoje existe um evangelicalismo midiático e as pessoas tomam essa forma como sendo o modelo pastoral. Mas não é o modelo”, aponta.
Menino do Nordeste brasileiro, pastor Gilson lembra dos momentos felizes do passado, das tradicionais Festas Juninas de Campina Grande e do tempo em que jogava futebol na rua ou entrava em campo com o time do coração, o Treze de Campinha Grande. Estas e outras histórias você confere logo a seguir.
Jornal da Cidade - Você nasceu na Paraíba. O que ficou daquela época?
Pastor Gilson Souto Maior Júnior - Diferente do que muitas pessoas imaginam, o Nordeste não é apenas um lugar de pobreza, mas sim um lugar muito agradável de se viver. Campina Grande é um pouco maior do que Bauru e, naquela época, a cidade ainda mantinha as características de uma pequena cidade do Interior. A gente jogava bola na rua, brincava com os amigos...Foi um tempo muito agradável, muito gostoso.
JC - É praticamente impossível falar em Campina Grande sem lembrar de Festa Junina. Como é viver isso sendo um morador da cidade?
Pastor Gilson - É difícil ir para lá nesta época do ano porque a cidade tem o número de pessoas praticamente duplicado. O que eu trago na memória da minha época de infância são as comidas da casa da minha avó. Nesse período, a gente ia para lá comer as comidas feitas com milho, como curau, pamonha, cuscuz, bolos...Era um momento de brincadeiras na rua. Cada casa tinha uma fogueira e as pessoas assavam milho, as ruas organizavam o seu próprio arraial e a gente via as danças. Algo diferente do que é hoje. A festa de São João não era pirotécnica como é hoje. Com o passar dos anos, a Festa Junina se transformou em uma espécie de Carnaval carioca, muito profissional.
JC - Você veio de Campina Grande direto para Bauru?
Pastor Gilson - Não. Eu vim para o Estado de São Paulo em 1996, logo depois que eu terminei o seminário teológico. Primeiro vim para Botucatu, onde fui pastor da Primeira Igreja Batista por dois anos. Depois, sim, para Bauru.
JC - E quando você percebeu sua vocação religiosa?
Pastor Gilson - Digo que o ministério pastoral é uma vocação dada por Deus, não uma profissão. É um tipo de trabalho, mas ele é mais do que um trabalho normal onde você bate o ponto e vai embora. O ministério pastoral está ligado o tempo todo porque você cuida de pessoas. Infelizmente, hoje, esse ministério está atrelado a uma figura que faz com que as pessoas se lembrem do ganho de dinheiro desonesto. Então eu costumo dizer na igreja que, às vezes, é difícil dizer que se é pastor. Isso porque as pessoas logo pensam nos maus pastores e nos péssimos exemplos de pessoas que enriquecem a custa dos fieis, muitas vezes até sem formação teológica. Eu estudei teologia e filosofia por anos, fui examinado e passei por um concílio de pastores. Ainda hoje eu estudo para me aperfeiçoar. Mas, infelizmente, a figura do pastor que cuida de suas ovelhas, que chora com os que choram e se alegra com os que se alegram, não é mais vista dessa forma. Hoje existe um evangelicalismo midiático e as pessoas tomam essa forma como sendo o modelo pastoral. Mas não é modelo.
JC - Sempre quis seguir esse caminho?
Pastor Gilson - Na verdade houve um momento especial de descoberta. Conheci Cristo aos 13 anos. Eu nasci em um lar cristão, onde minha mãe e minha avó me incentivaram a ler a Bíblia desde cedo. Mas foi aos 13 anos de idade que eu tive um encontro pessoal com Jesus e isso foi transformador em minha vida. Aos 15 anos eu era professor de adolescentes e senti o chamado de Deus para o ministério pastoral em uma pregação sobre missões. Dessa forma, aos 18 anos eu fui para o seminário.
JC - Antes de ser pastor você pensou em seguir outros caminhos?
Pastor Gilson - Eu já sonhei com outras coisas, sim. Quando adolescente, eu queria ser oficial do Exército porque eu gostava de ver a disciplina, a ordem, as estratégias, o fardamento...E como eu sempre gostei muito de história, dos conflitos, das guerras...Eu pensei em ser um oficial. Mas eu digo que na igreja eu entrei para outro Exército (risos).
JC - Além de ser torcedor do Treze de Campina Grande, você também jogou futebol?
Pastor Gilson - (Risos) Sim, eu jogava bastante. Sempre gostei muito de esportes e acho que ele é muito importante para as pessoas. Eu jogava na rua e me lembro de uma vez que meu pai me deu uma bola e foi aquela alegria na rua. Meu pai era jornalista e narrava jogos em estádios. Eu sempre o acompanhei e entrei com o time no campo. São imagens muito felizes.
JC - Mas foi em Bauru que você encontrou o amor, certo?
Pastor Gilson - Sim. Minha esposa nasceu em São Paulo, mas veio para Bauru aos 3 anos de idade. Eu era professor dela, sou professor da Faculdade Teológica Batista, onde nos conhecemos. O pessoal até brinca que ela tinha algumas vantagens por ser namorada do professor, o que não é verdade porque ela sempre gostou muito de estudar (risos).
JC - E o que a família representa para o senhor?
Pastor Gilson - Eu tenho dois filhos e a família é o centro da sociedade, a base. E para mim é o bem mais importante. Eu seria capaz de fazer qualquer coisa por eles. Se pudesse deixar uma mensagem para as pessoas, eu diria que nós estamos vivendo em um tempo muito bom no País e eu creio que as pessoas jamais devem se esquecer de Deus. As riquezas passam, os bens envelhecem e a verdadeira felicidade, a verdadeira paz, dinheiro nenhum compra, apenas Jesus Cristo pode dar.
JC - Você deu a “Nota 10” para o povo brasileiro. Acha que o brasileiro é um herói?
Pastor Gilson - Nós vivemos em país muito desigual e, apesar da propaganda que vem sendo feita sobre o crescimento atual - e o Brasil pode mesmo estar melhor em alguns aspectos -, as desigualdades ainda continuam muito intensas. A política se mostra cada vez mais viciada. Ainda pagamos muitos impostos. É inadmissível, por exemplo, você pensar que eu vi, no Iraque, um carro que aqui custa R$ 60 mil pela metade do preço em um país que enfrentou uma guerra. A questão é como entender isso. No Brasil a gente paga muito e tem pouco. Em alguns lugares do mundo, as condições que nós temos aqui gerariam um conflito social muito grande. Não há vontade e interesse político em fazer o melhor pelo povo. As instituições parecem estar ligadas a esse vírus da corrupção. Infelizmente há a cultura de querer levar vantagem em tudo. E isso acaba influenciando o povo que se sente desanimado.
JC - E por falar em Iraque, como foi a missão que o senhor participou?
Pastor Gilson - A Igreja Batista está no Brasil há mais de 140 anos e somos conhecidos pelo fervor missionário. E os batistas brasileiros, assim como os americanos, também trabalham com missões no estrangeiro. Em 2010, eu tive a oportunidade de ir para a Síria, Líbano e Iraque com um grupo de pastores. No Iraque estava havendo a retirada das tropas americanas. Então foi uma experiência muito rica essa de conhecer outra cultura, um povo diferente do que muitas vezes a gente tem em mente. É um povo muito amável que sofre com o poder da minoria terrorista.
JC - Quais experiências marcaram essa missão?
Pastor Gilson - O que mais me chamou a atenção foi a forma como eles veem os brasileiros. Bastou mostrar uma camisa do Brasil para abrir um canal de comunicação. Temos um trabalho no norte do Iraque e uma das propostas é fazer uma escola de futebol. Agora, uma coisa triste que eu percebi foi essa influência de grupos islâmicos radicais. Em alguns lugares, os homens-bomba são cultuados como semideuses. Eles têm fotos dessas pessoas em todos os lugares. A gente percebe no ar o clima de tensão. Eles armazenam comida com medo dos conflitos. Entretanto é um povo que tenta manter a rotina e a normalidade em meio a tudo isso.
Perfil
Nome: Gilson Souto Maior Júnior
Idade: 38 anos
Local de Nascimento: Campina Grande/Paraíba
Esposa: Shirlei
Filhos: Nathan e Kaleb
Hobby: Leitura
Livro de cabeceira: Bíblia
Filme preferido: Star Wars
Estilo musical predileto: Rock
Time: São Paulo e Treze de Campina Grande
Para quem dá nota 10: Para o povo brasileiro que vive em um país tão desigual
Para quem dá nota 0: Ao Congresso Nacional
E-mail: gilsonsmjr@hotmail.com