Há leis para tudo e para todos. Porém, os mais iguais ignoram as normas, o direito e o respeito, transformando leis em simples pedaço de papel sem serventia. Enquanto a justiça, morosa e envelhecida, caminha arqueada e frágil, urge questionar: para que servem as leis, os legisladores e as autoridades se a vexatória vista grossa permanece a ofuscar o mérito e o brilho da cidadania? Privilegiados, os mais iguais desdenham das autoridades, levam vantagens por terem salvaguardados seus deslizes, suas infrações e seus procedimentos ilegais, se escondem por entre os nós que atam a cumplicidade e se beneficiam com a impunidade gerada pela troca de favores. Uns denominam tal modus vivendi de protecionismo, outros de "costas quentes", quiçá inocente conluio e assim acobertados, os mais iguais engrossam a cachoeira de crimes sem punição, estufam o engavetamento de documentos importantes e lesam a Pátria com a magia da omissão pertinaz.
Isso tudo nutre e faz crescer o gigantesco pacote financeiro desviado do orçamento público, seguido pela procissão dos vergonhosos direitos existentes para acobertar a escancarada anarquia: direito de não fazer o exame de dosagem alcoólica, direito de indulto por bom comportamento, direito ao auxílio reclusão, direito de matar e usufruir da liberdade, direito de assaltar e aguardar o julgamento com a prática de novos crimes, direito do adolescente infrator ser presenteado com a impunidade, direito ao porte ilegal de arma, sem contar com o vergonhoso direito de ficar calado perante a nação boquiaberta. Maquiavélicos direitos oferecidos aos infratores que emporcalham e deterioram a sociedade. Por onde restam guardados os direitos dos cidadãos, das famílias, das crianças e dos idosos? Em que profundezas dessa profunda escuridão social se encontra o direito de viver com segurança e dignidade? Por onde anda o amor ao próximo, não o falso, demagógico e ilusório, mas o verdadeiro e justo que nasce do coração e respeita as dores da alma? Em que furna fria e escura da Pátria aprisionaram a verdade e o respeito?
A anarquia se intumesce por existir os mais iguais, protegidos que escarnecem dos demais, escórias da sociedade que exibem sorrisos fabricados pela falsidade, enquanto sugam a verdade, engalanados pelas benesses do poder do voto dos crédulos. E tudo ficará como dantes no quartel de Abrantes se os eleitores continuarem a permitir que cargos importantes se aninhem nas mãos dos mais iguais eleitos graças ao vil escambo de favores.
A autora, Valderez de Mello, é advogada, pedagoga, psicopedagoga e autora do livro "Trama e Urdidura"