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Você desceria?

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Segundo a Folha de São Paulo (21/05), os passageiros dos ônibus circulares de Ribeirão Preto estão sendo obrigados a descer quando não têm dinheiro trocado. Obviamente, a culpa dessa situação não é do motorista - que além de dirigir, é obrigado a cobrar os passageiros para que a empresa não tenha que contratar cobradores. O problema do transporte público é antigo. Segundo o site da Wikipedia, em 1662, o poderoso Luís XIV, rei da França, concedeu uma licença para Blaise Pascal (aquele mesmo da matemática e da física) explorar cinco rotas de carruagens em Paris e assim definir um primeiro esboço do que seria o transporte público coletivo. O serviço deveria cumprir os seguintes critérios: 1) Os carros iriam seguir o mesmo trajeto de um ponto a outro; 2) As saídas obedeceriam horários regulares, mesmo sem passageiros; 3) Cada ocupante iria pagar apenas por seu lugar, independentemente de quanto lugares ocupados nos carros; 4) A rota ao redor de Paris seria dividida em cinco setores. A tarifa de cinco centavos permitiria cruzar apenas para mais um setor. Além disso, deveria ser paga uma nova tarifa. (já havia o passe integração); 5) Não seria aceito ouro como pagamento, para evitar atrasos. A experiência, ainda segundo o site, durou até 1677, pois depois de um tempo o governo resolveu que o transporte só poderia ser usado por pessoas de "condições", termo que naquela época significava ter poder, prestígio e nome, muito mais do que os cinco centavos para pagar a passagem. Se o transporte era público deveria ser para todos, não é mesmo? Mas estávamos ainda no absolutismo do Rei Sol e não dava para entender o que era público ou privado em um país que pertencia a uma pessoa - "O Estado sou eu", teria dito Luís XIV. Voltando aos tempos de hoje, penso que uma sociedade ideal deveria ter transporte público gratuito, pois as pessoas se deslocam, principalmente, para trabalhar. Como estamos muito distantes de tal sociedade, pelo menos o transporte público deveria ser barato, o que não é. Então, o que sobra para os pobres usuários é imaginar que, no mínimo dos mínimos, as empresas que exploram o transporte público deveriam ter troco para dar aos passageiros. A repórter da Folha de São Paulo que fez a matéria em Ribeirão teve que descer do ônibus por não ter troco e testemunhou outra pessoa sendo obrigada a fazer o mesmo. Também acho que em uma sociedade ideal, os passageiros se negariam a desembarcar por falta de troco - por maior que fosse o quiprocó que isso causaria. Na verdade, nem precisamos ir muito longe para imaginar algo melhor. É claro que a Argentina não tem uma sociedade ideal, mas se as empresas de ônibus de Buenos Aires resolvessem adotar tal conduta, a resposta popular seria outra. No Brasil a gente comenta, fica indignado, mas só. Tomemos os gregos como outro exemplo. Depois da farra que os bancos causaram na Grécia, o povo elegeu a extrema esquerda para governar o país e ainda colocou vários deputados neonazistas (a "Aurora Dourada"; só o nome já dá medo) no Parlamento. Isso é perigoso, radical, trágico, mas os dirigentes europeus (banqueiros e políticos) prendem a respiração nessas horas, porque fica claro que não dá para eles fazerem tudo o que querem. Nem tudo o povo aceita. (O novo governo, contudo, não conseguiu formar maioria e haverá outra eleição). Pelo mesmo motivo, os franceses votaram em um socialista e mandaram o emblemático e (de certa forma) maligno Sarkozy para casa. Em Ribeirão, por enquanto, o pessoal está descendo dos ônibus, quando deveria ficar e protestar. Sim, eu confesso que, dependendo de um compromisso importante, também desceria e tentaria trocar o dinheiro. Mas o certo seria que todos ficassem e exigissem o troco. A vida corrida e os compromissos acabam impedindo que as pessoas exijam seus direitos cumpridos. Os brasileiros têm, portanto, bastante a aprender com o exemplo de outros povos, que costumam mobilizar-se sempre e pressionar as autoridades para que esses direitos sejam assegurados.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história e colaborador de Opinião

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