Tribuna do Leitor

Dr. Felisdeu Leão


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Eu o conheci em 1965. Trabalhávamos na Delegacia de Saúde de Bauru, no vetusto casarão na esquina da Agenor com a Cussy Jr. Ele, dentista. Eu, encarregado pelo setor de transportes. Depois, em 1969, a Divisão Regional de Saúde de Bauru foi instalada na rua Quintino, 5-45. Lá estivemos labutando. Era pessoa afável, inteligente, praticava a política da boa vizinhança, sempre pronto a servir. Era pescador entusiasta nos baranqueiros do Araguaia, onde impreterivelmente ia em todas suas férias. Escreveu dois livros sobre suas an-danças pelo centro geográfico do Brasil. Baseados em fatos reais, vividos por ele. João Preto era o guia dos pescadores. Morava numa palhoça às margens do Araguaia, com esposa e 3 filhos. Felisdeu tornou-se seu amigo, com uma convivência de mais de 15 anos. Com ele Felisdeu aprendeu os macetes para uma frutífera pescaria. Um dia, João Preto espetara um estrepe de aroeira no pé esquerdo. Seria algo comum.

Só que o dr. Eduardo, médico e companheiro de pescaria, constatou que ele não tinha mais sensibilidade à dor. Estava com lepra. O mundo desabou. Os amigos se afastaram. Os comerciantes não queriam pegar dinheiro das mãos dele. Todos começaram a evitar João Preto. Ele foi execrado socialmente. A doença vai deformando o nariz, as extremidades do corpo. O rosto ficando com aspecto leonino. Não mais pescava: ninguém queria comprar seus peixes "contaminados". Dedicou-se à caça de onças para sobreviver junto com a família. Toda vez que Felisdeu ia ao Araguaia não esquecia do amigo, agora em situação de penúria, de desprezo por até antigos amigos de pescaria. João Preto se recusara a tratamento em hospital, para não deixar a família à míngua. A última vez foi encontrálo isolado, numa canoa pescando para seu consumo próprio.

Ele então fugia de Felisdeu, escondia-se no mato. Tinha vergonha de se mostrar ao amigo naquele estado terminal. Felisdeu não desistia. Ficava ao seu lado, sem luz de lanterna, no escuro respeitando a dor do amigo. Jamais abandonou João Preto, seu amigo de muitas pescarias. Escutava os lamentos dele, com espírito de fraternidade cristã. Nesta derradeira vez, João Preto, não aguentando mais tanto sofrimento, pegou seu barquinho e sem dizer adeus foi em direção às correntezas, sem olhar para trás. Felisdeu nunca mais o viu. Milton Nascimento: "Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração"... Felisdeu faleceu em 28/5/2012. Descanse em paz!

Gilberto Sidney Vieira

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