Regional

Bocaina tem casas com ?eira e beira?

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 2 min

Na cidade de Bocaina, os casarões mais antigos estão localizados na área central da cidade, onde tudo começou.  São construções do século 20 com fachadas semelhantes, todas feitas pelos frentistas, especialistas que visitavam as cidades de tempos em tempos. Outro detalhe que salta aos olhos é a presença da “eira” e “beira” nos casarões.


A expressão que popularmente usamos para “eira” e “beira” tem origem portuguesa e significa não possuir alguma coisa. Mas na construção,  a “eira” é o quintal, o espaço livre, enquanto a “beira”, o beiral da casa. Na época, quem tinha casa com eira e beira eram pessoas de “posses”. Quem não tinha eira e nem beira eram aqueles que não tinham nem terra e nem casa.


O diretor de Educação e Cultura da cidade, João Batista Gabriel, explica que a maioria das construções da área central da cidade tinha eira e beira. “O que determinava eram as posses da pessoa. Eira e beira escondendo o telhado eram casas dos ricos e aquelas que tinham o telhado aparecendo em frente á casa, eram os pobres.”


No centro de Bocaina, todas as casas têm eira e beira, o que sinaliza que naquele tempo, no auge do café, muitos eram ricos. “Aqui havia muito café e os fazendeiros tinham casarões com eira e beira. A fachada também é peculiar, todas semelhantes.”


A semelhança ficou por conta dos frentistas, comenta o diretor. “Eles faziam a frente das casas. Quando um desses especialistas chegava à cidade, fazia duas ou três fachadas antes de voltar ao destino de origem. Isso fez com que muitas delas tivessem a fachada no mesmo estilo, ou seja, no estilo daquele que a executou.”


Os especialistas eram brasileiros, porém moravam fora de Bocaina. Eles desenvolviam somente a frente da casa. “Se observarmos bem, vamos perceber que eles misturavam uma coluna grega em alguns casos, eram criações deles.”


Mais de 50% dos casarões estão preservados pelos próprios moradores. Na cidade não há nenhum tombado, segundo a assessoria de imprensa da prefeitura. “Os casarões conservam a arquitetura. A maioria deles está ocupado e os próprios moradores preservam.”


Segundo o diretor de cultura, não há tombamento porque não há estilos definidos. “Eles não têm um estilo único. Foram construídos por anônimos. Verdadeiros artistas, porém que não ficaram marcados na história.”



Outros prédios


O prédio que um dia foi o primeiro hotel da cidade está em ruinas. “Esse imóvel é um dos mais antigos e não está preservado. A fachada está em ruinas.”  Já o Cine Jequitibá é uma construção da primeira metade do século 20 e referência até hoje para estudantes de arquitetura. “Para a época, era uma construção ousada. Possuía o maior vão livre de uma obra. Até hoje é visitada por estudantes.”


Outra construção que merece destaque na opinião de Gabriel é a igreja de São João Batista. “Benedito Calixto fazia as telas os pedreiros executavam colunas na construção. O prédio da Câmara Municipal tem uma mitra (chapéu de papa) atrás dele. É uma obra centenária.”

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