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Calcinha, fetiche e política

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Era uma tarde agitada na quarta-feira, na Capital Federal, Brasília. A sessão da CPI do Cachoeira estava pegando fogo e o mundo político ansiava por novos capítulos do embate Lula-Gilmar Mendes. Mas um fato abalou as estruturas do Salão Verde da Câmara dos Deputados. Misteriosa calcinha havia sido encontrada no tapete. A peça teria caído do bolso de um deputado quando ele tirou o celular do bolso do paletó. Pelo cheiro, deveria ter sido um membro do "baixo clero", como são denominados os parlamentares sem nenhuma expressão política. O assunto foi tratado com o máximo sigilo. Os seguranças do plenário queriam queimá-la. Mas houve protesto unânime: "Queima de arquivo, não!" Que fosse lacrada em envelope e encaminhada ao Departamento de Achados & Perdidos. Segundo os mais detalhistas, tratava-se de um "calçolão" vitoriano, século XIX. Houve quem preferisse a classificação mais sutil de "tanga de algodão branco e vermelho, tamanho G". Os parlamentares gaúchos torcedores do "colorado" começaram a ser olhados com suspeição. Injusta desconfiança. Existem dezenas de times de futebol com uniformes alvirrubros, inclusive o Noroeste. Todos concordaram com um forte indício: o responsável pela calcinha perdida, com toda certeza, é fã do Wando, aquele cantor que mesmo depois de morto continua recebendo esses presentes-fetiche em seu túmulo. O atual caso da calcinha foi até insignificante diante do que acontece em Brasília em relação a escândalos sexuais. Ainda agora um sex-shop da Capital Federal foi roubado e da loja levaram um vibrador de ouro, avaliado em R$ 8 mil. No Carnaval de 1994, o então presidente Itamar Franco (morreu em julho de 2011) foi fotografado ao lado da cearense Lilian Ramos. A moça havia acabado de desfilar. Tirou a fantasia e colocou uma camiseta, sem nada por baixo. Foi uma festa para os fotógrafos postados ao pé do palanque. A história está cheia de lances picantes envolvendo políticos. Antonio Palocci, ex-ministro todo poderoso acabou desmascarado porque frequentava uma mansão no Lago Sul, em Brasília, ponto de encontro de prostitutas e ladrões do Tesouro. Jeany Mary Córner, conhecida cafetina tinha uma rede de mulheres que prestavam serviços aos congressistas, no mesmo hotel onde os parlamentares recebiam o mensalão. A sua agenda caiu em mãos da Polícia Federal e deve ter sido incluída nos autos a serem julgados pelo Supremo Tribunal Federal ainda este ano - queira ou não o ex-presidente Lula. Renan Calheiros (PMDB-Al), então presidente da Câmara, pagava a pensão da amante Mônica Veloso, com quem teve uma filha, com dinheiro da propina de uma construtora. Agaciel Maia, diretor do Senado, mantinha no Congresso Nacional um apartamento privativo com banheiro, tapete vermelho, sofás, frigobar, som, vídeo, telão, revistas e vídeos eróticos. O sofá tinha manchas suspeitas. Um lubrificante íntimo estava sob a mesa quando a "garçonnière" foi descoberta. A gente sempre se surpreende com o quanto gozam os políticos com o nosso dinheiro. Jantares em Paris com direito a brincadeiras bregas - aquela do guardanapo na cabeça (o pessoal do Ritz Hotel deve ter morrido de vergonha perante os hóspedes). Vinhos de R$ 30 mil a garrafa. Jatinhos pra lá e pra cá. Noites de orgia também acontecem em países culturalmente adiantados. Somos todos concupiscentes, cada um ao seu modo. Na Inglaterra, muitos figurões tiveram que abandonar o poder ao serem flagrados por câmeras ocultas sob lençóis macios, em parcerias estranhas. Berlusconi, na Itália, diverte-se há anos com garotas trajadas apenas com máscaras do Barack Obama e do Ronaldinho. Dois escultores italianos acabam de inaugurar uma estátua à Berlusconi, exposta no centro de Roma. Denominaram-na "O sonho dos Italianos". O ex-chanceler está deitado numa urna de vidro, camisa desabotoada, calça entreaberta com a mão direita ali enfiada, pantufas do Mickey e um sorriso debochado. Trata-se de um convite à reflexão sobre a luxúria dos que têm o dever de levar a sério a vida republicana. O Mickey Mouse dos chinelos é para lembrar os heróis inconsequentes das histórias em quadrinhos. A única diferença entre lá e cá é que eles se divertem com o dinheiro próprio. Aqui, os políticos gozam com o dinheiro do seu imposto.


O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC

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