Sempre, durante palestras ou entrevistas, tenho destacado que, para se fazer uma profunda reforma ortográfica em nosso idioma, todos os entraves etimológicos deverão ser relegados, priorizando-se a sistematização e a fonética culta. As reformas ortográficas, que surgiram no século passado (meia dúzia ao todo), não atingiram o ideal almejado pela maioria dos estudiosos. Foram, quase todas, pífias demais, porque seus autores, professores de linguística histórica e estrutural, defensores da decoreba e mantenedores de conceitos ultrapassados, usaram o falso argumento do valor histórico e etimológico, como se isso fosse fator nobre e inquestionável. Esqueceram eles que nosso código alfabetário foi construído em cima do latim decadente, deteriorado, corrompido pelos soldados romanos e viajantes analfabetos, durante a ocupação da Península Ibérica, e pela miscigenação dos termos usados pelos povos que, nesse território, já existiam quando da ocupação pelos romanos, no terceiro século a.C.
Sabe-se, pela história universal, que sempre os poderosos, para manterem seus poderes, subjugavam seus colonos, serviçais e vassalos, impossibilitando-lhes a alfabetização. Parece-me que esse ranço, de certa maneira, ainda persiste. As reformas ortográficas feitas por uns poucos letrados parecem objetivar a manutenção, na ignorância,da maioria do povo. E estão conseguindo. Nos vestibulares, nas escolas, nos concursos, muitos são reprovados por errarem na ortografia das palavras. É uma pena vermos jovens inteligentes sendo reprovados por um simples erro ortográfico. Não errar nunca seria uma utopia. Todos nós erramos. Atire a primeira pedra quem nunca errou. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, 5.ª edição, editado pela Academia Brasileira de Letras,em 2009, possui 356 mil verbetes. Se somarmos os vocábulos formados pelos tempos e modos dos verbos, muitos advérbios derivados, e também as flexões dos substantivos e adjetivos, que não aparecem no vocabulário oficial, teremos perto de 2 milhões de palavras. Alguém conseguiria saber as grafias de todas essas palavras? Ora! Se não temos essa capacidade monumental, então deveremos aprimorar as pronúncias de cada letra, de tal forma que, pronunciadas, saibamos escrevê-las acertadamente. Mas, antes de aprimorarmos a pronunciação certa, deveremos lutar para que nosso sistema ortográfico se livre das incongruências todas e que cada letra corresponda a uma única pronúncia na formação silábica.
O povo que se lixe. A maior prova disso foi o Acordo Ortográfico de 1990, que manteve o despotismo etimológico. Perderam uma grande oportunidade de simplificar o alfabeto. Dentre outras pérolas de prosódias e ortografias, ainda somos obrigados a escrever palavras com a letra X, possuindo ela cinco sons diferentes . Vejamos: com o som de S (explicar, texto, extremo), como som de CH (enxugar, faixa, peixe), com o som de SS (próximo, auxiliar, máximo), com o som de Z ( exame, êxito, exagerar), com o som de QS (anexo, axila, oxigênio) e sem som algum (excessivo, excêntrico, excitar).
O autor, José Perea Martins, é presidente da ONG Alfabeto Sem Amarras e membro da Academia Bauruense de Letras