Bairros

Meio ambiente: Bauru avança lentamente

Tisa Moraes com redação
| Tempo de leitura: 9 min

Há algum tempo, a preservação do meio ambiente deixou de ser assunto restrito aos chamados “ecochatos” e se tornou um debate de interesse mundial como única forma de garantir a sobrevivência humana no futuro. Mas relações conflituosas de interesses sobre o tema e entraves financeiros nem sempre permitem que os avanços sejam significativos num curto espaço de tempo.

Em Bauru, esta dinâmica não é diferente. Hoje, na data em que se comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente e da Ecologia, o JC consultou autoridades políticas e defensores da causa para avaliar os principais avanços e desafios ainda a serem enfrentados na área.

Todos apontam que o grande problema a ser superado é a falta de tratamento de esgoto na cidade e a maioria concorda que as conquistas ecológicas têm ocorrido num ritmo mais lento do que o desejado.

“Nos últimos 20 anos, os avanços ambientais foram poucos na cidade. O grande fator de avanço e de desafio ainda é o mesmo: o tratamento de esgoto”, pontua o ambientalista Clodoaldo Gazzetta.

Compartilha da mesma opinião o economista Ricardo Carrijo, membro do conselho deliberativo do Instituto Vidágua, que acrescenta ainda a necessidade de soluções de longo prazo para a destinação do lixo produzido pela cidade. “A capacidade do aterro sanitário está se esgotando e ninguém ainda apontou uma alternativa para isso”, frisa.

O prefeito Rodrigo Agostinho destaca que a cidade está mais sensível à importância de conservar o cerrado e destaca as ações do poder público neste sentido. “A prefeitura comprou algumas glebas de cerrado para fins de preservação e tem discutido um projeto junto com o governo do Estado para a criação de áreas de conservação”, assinala ele, que representará os prefeitos de todo o mundo no evento oficial de chefes de Estado da Rio +20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável que será realizada neste mês no Rio de Janeiro, 20 anos depois da Eco 92.

Amilton Marques Sobreira, presidente da organização não-governamental SOS Cerrado, também destaca que a opinião pública está cada vez mais consciente sobre os temas que envolvem a ecologia. Mas, para ele, o município não tem se empenhado como deveria para preservar o cerrado bauruense.

“Há muito discurso, mas, na prática, por exemplo, estão querendo fazer loteamentos em APAS (áreas de proteção ambiental), como a de Vargem Limpa. É algo proibido por lei e que não deveria nem mesmo ser cogitado”, observa.

As pessoas consultadas pelo JC também apontaram como conquistas de Bauru para o meio ambiente a ampliação dos serviços de coleta seletiva e o investimento em ciclovias e arborização urbana. Além da falta de tratamento de esgoto, outro grande entrave destacado é a falta de iniciativas eficazes para aprimorar o sistema de transporte coletivo na cidade.

 

Semana terá programação extensa

Foi aberta oficialmente ontem, em Bauru, a 13ª Semana Integrada do Meio Ambiente de Bauru (Simab), que segue até amanhã com diversas atividades voltadas à temática ecológica, como palestras, exposições, workshops e mutirão do lixo eletrônico.

Sob o tema “Economia Verde: Ela te Inclui?”, o evento terá programação na zona rural para abordar o tratamento de esgoto e ações ambientais, além da importância da manutenção da limpeza das feiras livres.

Entre as inúmeras atividades previstas para hoje, está o plantio de mudas de árvores frutíferas por estudantes da Faculdade de Tecnologia (Fatec) de Bauru, que também poderão participar de palestras que ocorrem ao longo de todo o dia. Alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Ivan Engler, localizada no Parque dos Sabiás, irão plantar sementes de girassol e, a partir das 13h, haverá apresentação da peça “O direito das crianças” e de coral. 

Também hoje,  mais de 300 alunos do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) de Bauru devem participar do movimento Pegada Ecológica, que pretende conscientizar sobre sustentabilidade. Amanhã, será aberta a exposição “Viva o Cerrado!”, na área externa do Senac e realizada a palestra “Logística Reversa - um novo desafio para as empresas”, com Ricardo Carrijo.

Os interessados em participar das palestras e atividades devem enviar o nome, RG e nome da palestra de interesse para o email simab2012@bol.com.br. As vagas são limitadas e todas as atividades terão certificados. A programação completa também pode ser acessada no site da prefeitura (www.bauru.sp.gov.br) ou no hotsite bauru.sp.gov.br/simab. 

 

‘Economia verde é caminho sem volta’, defende Arnaldo Jardim

Em meio ao aquecimento econômico que o país vivencia, alcançar o equilíbrio entre o aumento do consumo e a preservação dos recursos naturais se tornou uma questão de sobrevivência para as próximas gerações. Em visita a Bauru, ontem, o deputado federal Arnaldo Jardim ministrou palestra na Universidade Sagrado Coração (USC) sobre “economia verde”, tema que debate justamente os desafios deste dilema atual.

Antes, ele esteve no Espaço Café com Política do JC e destacou que a expressão, embora desconhecida da maioria da população, terá de nortear os negócios empresarias e as atividades cotidianas num futuro não muito distante. “Trata-se de um caminho sem volta, a única alternativa que temos para reduzir riscos ambientais, ao mesmo tempo, gerar emprego e distribuição de renda”, assinala ele, que membro da Frente Parlamentar Ambientalista da Camara dos Deputados e autor do projeto que originou a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

De acordo com o deputado, a chamada economia verde já emprega quase 3 milhões de brasileiros, o que representa 7% da mão de obra nacional. “Somente no setor de reciclagem, são um milhão de pessoas trabalhando, sendo que 330 mil – quase uma Bauru – sobrevivem exclusivamente com o reaproveitamento de latinhas alumínio”, observa.

Ele cita que a discussão sobre economia verde ganha relevância neste momento com a proximidade da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio +20, que será realizada entre 13 e 22 de junho, no Rio de Janeiro. São esperados mais de 150 chefes de Estado e organizações não-governamentais para discutir e estabelecer diretrizes para conservar o meio ambiente.

O Brasil, segundo ele, terá duas principais bandeiras: a ampliação de fontes de energias renováveis em todo o globo e a redução de emissões devido ao desflorestamento (REDD). “Queremos que haja um reconhecimento internacional pelo esforço que tem sido feito para preservar florestas, muitas vezes até com a limitação de algumas atividades econômicas”, diz o deputado, que defende a instituição de uma compensação financeira, por exemplo, a proprietários rurais obrigados por lei a manter intactas Áreas de Preservação Permanente e Reservas legais.

O segmento de energia renovável, como a produção de etanol, já emprega mais de 2,6 milhões de trabalhadores e, na avaliação de Jardim, tende a continuar crescendo, em detrimento das fontes fósseis de energia, que são limitadas e mais poluentes. “A Alemanha tomou uma decisão corajosa de parar suas usinas nucleares, que abasteciam 40% do país. E, hoje, o setor mais dinâmico da economia alemã é o de energias renováveis. É algo extraordinário”, exemplifica.

Mas o conceito de economia verde vai além desta readequação pontual. Ele passa pela criação de novos padrões de consumo, novos métodos para a exploração da agricultura, formas alternativas de deslocamento e utilização racional dos recursos hídricos, entre outros quesitos.

A mudança de parâmetros, ressalta Jardim, demandará sacrifícios e irá enfrentar resistência em alguns setores da economia. Mas, até mesmo diante da pressão da opinião pública e do exemplo dado pelos países desenvolvidos, será uma realidade inevitável também para os brasileiros. “Já percebemos um crescimento significativo no nível de consciência ambiental no país. No setor de energia, transporte e planejamento urbano, acredito que o momento é propício também para criar uma referência mundial em economia verde.” 

 

Qual o principal avanço e o principal desafio de Bauru quanto à conservação do meio ambiente?

“Bauru amadureceu muito quanto à necessidade de conservação do cerrado, apesar de ser ainda uma relação bastante conflituosa, principalmente nas regiões Leste e Sudeste, onde estão os fragmentos maiores. Hoje, a prefeitura comprou algumas glebas de cerrado para fins de preservação e discute um projeto junto com o governo do Estado para a criação de áreas de conservação. Mas o grande desafio da cidade ainda é o tratamento de esgoto. Cerca de 80% dos córregos de Bauru estão despoluídos, mas todo o esgoto ainda é lançado no rio Bauru. Esperamos conseguir, ainda neste ano, a liberação de recursos do governo federal para poder concluir a ETA (Estação de Tratamento de Esgoto)”, Rodrigo Agostinho, ambientalista e prefeito de Bauru

“Nos últimos 20 anos, os avanços ambientais foram poucos na cidade. O grande fator de avanço e de desafio é o mesmo. Somos o primeiro município que tem uma autarquia própria de tratamento de água a apontar o caminho para o problema da falta de tratamento do esgoto. Na gestão do Tuga Angerami, a lei do Fundo de Tratamento de Esgoto determinou a cobrança de uma taxa na conta de água para custear a construção de uma estação de tratamento. É um recurso que, se não for desviado, está assegurado para tratar esse esgoto nos próximos quatro anos. E o desafio é exatamente este: conseguir tratar o esgoto com este recurso, sem depender de governos do Estado ou federal”, Clodoaldo Gazzetta, ambientalista e pré-candidato à Prefeitura de Bauru pelo PV

“Não tivemos muitos avanços em termos ambientais nos últimos anos, mas vejo que as pessoas estão mais conscientes quanto à importância de defender o meio ambiente. A opinião pública se manifestou contra a instalação de indústrias em áreas de cerrado, na Câmara de Vereadores de Bauru. Promotores, juízes e a população em geral estão entendendo que a preservação é necessária para a nossa própria sobrevivência. Mas, por outro lado, o poder público não está cumprindo a parte dele. Há muito discurso, mas, na prática, por exemplo, estão querendo fazer loteamentos em APAS (áreas de proteção ambiental), como a de Vargem Limpa. É algo proibido por lei e que não deveria nem ser cogitado”, Amilton Marques Sobreira, presidente da organização não-governamental SOS Cerrado

“Estamos diante de desafios enormes, que não podem ser enfrentados separadamente. Mas o principal deles é o tratamento de esgoto. A cidade continua crescendo, sem que esta questão seja equacionada. Muitos municípios menores, como Iacanga, já estão fazendo a lição de casa. E, embora Bauru também esteja buscando esse caminho, o ritmo está aquém do que deveria. Mas vejo que o avanço é a prefeitura já ter, ao menos, um plano para tratar o esgoto da cidade. Com relação ao lixo, o desafio é ainda maior, porque a capacidade do aterro sanitário está se esgotando e ninguém apontou uma alternativa para a destinação desses resíduos sólidos”, economista e administrador Ricardo Carrijo, membro do conselho deliberativo do Instituto Vidágua

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