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Casos de queimaduras crescem 20%

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Com a chegada do frio, das férias escolares e das festas juninas, qualquer descuido pode ser fatal. Nesta época do ano, a associação entre esses três fatores eleva em 20% os casos de queimaduras em Bauru, por conta de acidentes envolvendo rojões, fogueiras, líquidos inflamáveis ou alimentos quentes que são derrubados do fogão.

E, embora os adultos também sejam vulneráveis, as crianças - que acabam ficando mais tempo em casa nesta época do ano - são as principais vítimas deste tipo de ocorrência que pode deixar sequelas irreversíveis. “Por causa do frio, as pessoas tendem a preparar mais alimentos quentes e nem sempre os pais conseguem monitorar os filhos, que estão o tempo todo em casa”, alerta a cirurgiã plástica Cristiane Rocha, coordenadora da Unidade de Tratamento de Queimaduras (UTQ) do Hospital Estadual (HE).

E, quando se fala em acidente doméstico, um segundo de distração pode ser suficiente para ocorrer uma tragédia. Nesses casos, cabos de panela voltados para fora, tampas de forno abertas e toalhas ao alcance dos pequenos são as principais armadilhas da cozinha.

“As crianças acabam batendo no cabo, derrubam a panela e todo o conteúdo em cima delas mesmas. As toalhas de mesa também representam grande perigo. Curiosas, as crianças puxam o tecido para ver o que está em cima da mesa e podem acabar se machucando com líquidos e comida quente que caem sobre elas”, detalha.

Além disso, segundo Cristiane, crianças que ficam muito tempo sem atividades em casa têm tempo para pensar em brincadeiras perigosas. Com a chegada das festas juninas, podem “inventar” de desmontar bombinhas, além de explodir ou atear fogo em outros objetos. “Todas essas brincadeiras podem ter consequências muito sérias. E elas acontecem, e muito”, destaca.

Ela conta que a maioria das crianças que chega à UTQ sofreu queimaduras na face, mãos e tórax, principalmente pela queda de líquidos quentes. Com meninos e meninas mais velhos, o acidente ocorre ao incendiar álcool.

 

Fração de segundo

Somente até maio deste ano, o HE internou 94 pacientes com queimaduras, sendo 24 deles crianças de até 15 anos. “Proporcionalmente, elas são maioria, já que o universo populacional de até 15 anos de idade é muito menor do que a partir desta faixa etária em diante”, frisa a cirurgiã. Em mais de 50% dos casos, ela ressalta, os acidentes acontecem dentro do ambiente doméstico.

E foi em casa, quando passava ao lado de uma churrasqueira, que o pequeno Rafael Barreiros, 9 anos, viu seu corpo ser incendiado. Numa confraternização familiar da qual participava no último dia 25 de maio, o equipamento tombou repentinamente e caiu sobre uma embalagem cheia de álcool, que estava próxima.

A explosão que se seguiu atingiu o menino, que sofreu queimaduras de segundo e terceiro graus nas duas pernas, mão direita e parte no abdômen. “Ver meu filho pegando fogo foi a pior experiência da minha vida. Tudo aconteceu numa fração de segundo. Foi um desespero. Todo mundo correu em cima dele para abafar as chamas”, relata a mãe, a auxiliar de camarim Valeska Pego Barreiros, 40 anos.

Desde então, Rafael está internado no HE e só deve receber alta no final da próxima semana. Com metade do corpo toda enfaixada, ele diz que não sente mais dor, mas relata à mãe que tem medo de ficar feio devido às inúmeras cicatrizes que devem restar do acidente.

 

Campanha

Ontem, data em que se comemora o Dia Nacional de Prevenção de Queimaduras, o Hospital Estadual (HE) de Bauru participou da campanha de prevenção de queimaduras promovida pela diretoria regional da a  Sociedade Brasileira de Queimaduras. Voluntários vestidos como personagens dos quadrinhos distribuíram gibis da Turma da Mônica no HE e nas unidades da rede de Supermercados Confiança.

Os quadrinhos foram criados e ilustrados por Maurício de Sousa especialmente para conscientizar as pessoas sobre a importância de prevenir este tipo de acidente.

 

Vítimas

Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Queimaduras, um milhão de pessoas no Brasil são vítimas de queimaduras a cada ano. Os dados se tornam ainda mais dramáticos se considerarmos que, de cada três pessoas queimadas, duas são crianças, que passam a conviver com as sequelas destes traumas pelo resto da vida.

Em Bauru, no ano passado, o Hospital Estadual recebeu 65 crianças na faixa de 0 a 15 anos que sofreram queimaduras, de um total de 207 internações em sua unidade de tratamento (UTQ). Desses 207 casos, 139 foram vítimas dentro de suas próprias casas e reforçam a estatística de que a maior parte dos acidentes ocorre em ambiente doméstico.

Para 2012, os números já se mostram preocupantes. De janeiro até maio foram 94 internações, sendo 24 crianças de até 15 anos. O ambiente doméstico, com 66 casos, novamente desponta como local onde mais ocorrem queimaduras. A forma mais comum é o escaldo (líquido quente), que vitimou 55 pacientes em 2011 e 24, em 2012.

 

Risco adulto

Mas não são apenas as crianças que sofrem queimaduras com maior frequência nesta época do ano, conforme destaca a coordenadora da UTQ. Anteontem, por exemplo, o microempresário Juliano Gonçalves Casani, 29 anos, acabou sofrendo sérios ferimentos depois de provocar uma explosão ao manusear álcool e fogo.

“Trabalho com mármore e granito. Tinha ido buscar meus funcionários em um serviço, mas, por causa da chuva, as peças estavam molhadas e não dava para concluir o trabalho. Então, fui atear fogo com álcool para secar logo. O vidro de álcool estava próximo e tudo explodiu em cima de mim”, relembra.

Juliano teve queimaduras no rosto, couro cabeludo, braço direito e parte do tronco. Ele conta que trabalha no ramo há 16 anos e nunca cogitou a hipótese de que a estratégia para secar as pedras poderia dar errado.

“A gente nunca acha que vai acontecer com a gente, né? Mas é aquele velho ditado: o apressado come cru. O jeito, agora, é esperar para ver como eu vou ficar”, lamenta ele, que ainda não sabe quando poderá deixar o HE. 

 

Prevenção

Para a cirurgiã plástica Cristiane Rocha, algumas pequenas mudanças podem frear o avanço dos acidentes com queimaduras nessa época do ano. Uma dica, por exemplo, é usar conjuntos americanos no lugar de toalhas, manter a porta do forno fechada, aquecer as panelas nas bocas de trás do fogão e mantê-las com os cabos voltados para o lado de dentro.

“São medidas simples, que não demandam gastos nem intervenções na casa e evitam acidentes gravíssimos”, afirma. Ela recomenda ainda utilizar protetores nas tomadas e não deixar fios elétricos ao alcance das crianças.

Nesta época de festas juninas e julinas, segundo Cristiane, o ideal seria não soltar bombas e rojões. Mas, como a tradição já faz parte da nossa cultura, ela ensina que os pais precisam estar atentos aos rótulos e respeitar a faixa etária indicativa para cada tipo de fogos de artifício.

“Já os adultos devem evitar caminhar sobre brasas de fogueiras e soltar rojões com uma distância mínima da mão e do rosto. Trata-se de uma brincadeira muito arriscada, que pode resultar em amputação de dedos e até mesmo da mão inteira”, observa. 

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