No próximo domingo, a Grécia fará sua segunda eleição do ano. A primeira foi vencida pela extrema esquerda, que não conseguiu maioria para governar e por isso foram convocadas as novas eleições do dia 17. O que está em jogo na Grécia é o futuro da estrutura neoliberal, imposta pelo mercado financeiro sobre os governos dos países mais desenvolvidos do mundo - e, por tabela, nos que estão se desenvolvendo -, com ou sem o consentimento desses governos.
O predomínio do mercado financeiro a partir de 1981 deu-se como resposta à crise do petróleo, que desde 1973 afetara o equilíbrio do chamado capitalismo de bem-estar social (ou reformado). Tal modelo foi a alternativa que parte das elites mundiais se propôs a adotar contra a crise que se abateu sobre a Europa com o final da Primeira Guerra, e sobre os EUA, em 1929. Foi, também, o que os salvou da bancarrota na década de 1930.
Quando a Segunda Guerra Mundial terminou e a União Soviética apareceu como sua grande antagonista, os países capitalistas mais avançados passaram a ser geridos pelo capitalismo de bem estar social, ou pela social democracia, ou até por governos socialistas democratas que garantiram, em maior ou menor grau, o bem estar social, a inclusão e a participação do povo no emaranhado jogo do poder.
Já nos anos 1980, como moeda de troca pelo fim da promoção do bem estar social pelos governos, o mercado financeiro, os investidores e a direita política ofereceram o sonho da globalização econômica e tecnológica. Juraram que ambas levariam, mesmo que vagarosamente, a uma globalização dos padrões social. Como a crise de 2008 e o naufrágio da Europa provaram, o neoliberalismo trouxe a exclusão social e o empobrecimento, também para os países ricos e desenvolvidos. O que o FMI, a direita e a classe dos banqueiros europeus querem é disseminar a ideia de que o modelo neoliberal é o único possível. A Grécia funcionará como o tubo de ensaio para as especulações futuras da ínfima classe que governa o mundo, manda nos governos e decide o rumo dos povos. Os partidos conservadores gregos dizem que se o povo não votar neles para que eles aprovem tudo o que o FMI quer, o país entrará em colapso. As pessoas de bons senso e que ainda não foram tomadas pelo desespero pensam, contudo, que "enxugar" mais ainda o Estado falido e a economia da Grécia é que levará o país ao caos.
É compreensível que o conservadorismo seja avesso às transformações. Coloca-se o povo sob uma "ameaça terrível", para que ele vote por medo e não por convicção. Na Grécia, espalham que se a esquerda ganhar novamente, o novo governo vai se rebelar contra o FMI e a União Europeia e as consequência serão trágicas. Mas esse discurso vai perdendo força, quando o cidadão comum percebe que a Grécia já está em uma situação trágica - e por culpa do mercado financeiro, a instituição que decide, efetivamente, o rumo do país. Essa tática de provocar o medo da mudança, da inclusão, da participação popular é muito disseminada e antiga. Vejam o que o nosso imperador dom Pedro I disse, em 1823, para os deputados e senadores sobre a futura constituição do Brasil: "Todas as Constituições, que à maneira de 1791 e 1792 têm estabelecido suas bases, e se têm querido organizar, a experiência nos tem mostrado que são totalmente teóricos e metafísicos, e por isso inexequíveis: assim o prova a França, a Espanha e, ultimamente, Portugal. Elas não tem feito, como deviam, a felicidade geral, mas sim, depois de uma licenciosa liberdade, vemos que em uns países já aparecem, e em outros ainda não tarda a aparecer, o despotismo, depois de ter sido exercido por muitos, sendo consequência necessária ficarem os povos reduzidos à triste situação de presenciarem e sofrerem todos os horrores da anarquia.". D. Pedro disse isso para que os políticos não se deixassem levar pelos "exageros" democráticos da época. Mas a história contrariou os interesses de D. Pedro. Assim como irá contrariar, cedo ou tarde, os do mercado financeiro sobre os governos e os povos.
Luís Paulo Domingues