São exatamente 1.014 crianças. O número seria suficiente para lotar a arquibancada de um circo, preencher as carteiras de 30 salas de aula ou as poltronas de três salas de cinema. Mas estas crianças não estão se divertindo, nem aprendendo, nem tendo acesso à cultura.
Todas são moradoras de Bauru, têm entre 10 e 14 anos de idade e já estão trabalhando, segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número corresponde a 4% do total de pessoas da cidade nesta faixa etária, que, por serem muito novas, atuam sem amparo legal. A porcentagem é a mesma registrada pelo Censo no ano de 2000, o que indica que, apesar dos esforços do poder público, ainda há muito a ser feito para superar este grave problema social.
Ontem, quando foi comemorado o Dia Mundial de Enfrentamento e Erradicação do Trabalho Infantil, a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), em parceria com a Comissão Municipal de Erradicação do Trabalho Infantil (Cometi) e várias entidades assistenciais, realizou uma passeata no Calçadão da Batista de Carvalho para mobilizar e orientar a população sobre o assunto.
“Primeiramente, as pessoas precisam entender que, ao dar esmolas, elas não estão ajudando as crianças, mas sim as estimulando para que continuem nas ruas”, ressalta a titular da Sebes, Darlene Tendolo, lembrando que, em não raras ocasiões, o dinheiro arrecadado costuma ser destinado para a aquisição de bebidas alcoólicas e drogas pelos pais ou responsáveis. De acordo com ela, quem quiser colaborar com a erradicação do trabalho infantil deve direcionar suas doações a instituições que trabalham pela causa.
Atualmente, a secretaria acompanha 123 crianças e adolescentes que foram encontradas pedindo esmola, recolhendo lixo reciclável, vendendo doces, guardando carros ou demonstrando sua habilidade com malabares nos semáforos. Destes, 44 ainda permanecem trabalhando nas ruas.
A estimativa, entretanto, é de que o número seja bem maior do que os dados oficiais, já que é bastante difícil para a secretaria identificar o trabalho infantil oculto, aquele realizado dentro de casa. Nesta modalidade, a criança é responsável, por exemplo, pelos afazeres domésticos e por cuidar dos irmãos mais novos.
“Esta criança assume o papel de adulto precocemente, sem estar preparada psicologicamente e fisicamente para isso. Com o tempo, deixa de ir à escola e compromete toda sua vida adulta”, detalha a secretária.
Passeata
Ontem, cerca de 100 crianças atendidas por entidades vinculadas à Sebes participaram da passeata promovida pela pasta. A caminhada, que seguiu da Praça Machado de Melo até a Praça Rui Barbosa ao ritmo da bateria do Projeto Ouro Verde 100% Arte, também foi acompanhada por dezenas de jovens engajados no combate ao trabalho infantil.
Um deles, o estudante Wander Florêncio, 31 anos, lamentava o fato de Bauru, candidata a abrigar um dos Centros de Treinamento de Seleções (CTS) da Copa do Mundo, ainda ter de lutar para manter suas crianças longe das ruas.
“É inadmissível a gente querer receber uma seleção e imaginar que esses atletas vão se deparar com crianças pedindo dinheiro no semáforo”, lamenta.
Já as promotoras de venda Isabele Maran, 17 anos, e Beatriz Regalo, 16 anos, estavam trabalhando no Calçadão e decidiram aderir ao movimento, seguindo a passeata até a Praça Rui Barbosa. “O pessoal explicou para a gente que não é correto dar esmolas e eu concordo. A obrigação de ganhar dinheiro para sustentar a família tem que ser do adulto”, ressalta Isabele.
Funcionária de uma das entidades que participaram da caminhada, Juliana Paratella, 24 anos, defende que o município, hoje, tem condições de oferecer oportunidades às crianças para que possam abandonar o trabalho infantil. O que falta, na opinião dela, é a conscientização dos pais que, muitas vezes, não entendem a prática como uma ilegalidade.
“Até pessoas mais esclarecidas acham que é melhor a criança trabalhar, imaginando que, do contrário, ela vai se tornar um marginal. Mas isso não é verdade. Criança precisa brincar e ir à escola para ter alguma perspectiva de futuro”, avalia.
Programação
A passeata realizada ontem no Calçadão da Batista de Carvalho integra a Campanha de Erradicação do Trabalho Infantil, que será desenvolvida pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) até o fim de junho. No próximo dia 21, às 9h, haverá palestra temática para os profissionais da rede socioassistencial, na sala do júri da Instituição Toledo de Ensino (ITE).
O encontro debaterá os aspectos legais e as formas de combate ao trabalho infantil e contará com a participação de representantes do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e do Ministério Público do Trabalho (MPT). No dia 28, a partir das 13h30, será promovida uma tarde cultural no Teatro Municipal com diversas apresentações que terão como temática o trabalho infantil.
A quem denunciar
Disque-denúncia: 100
Conselho Tutelar: 3227-3339
Plantão Bauru: 9651-4441
Creas: 3234-8705