Tribuna do Leitor

Padre, não fique calado!


| Tempo de leitura: 3 min

Havia numa cidade do interior em grande desenvolvimento, um padre conhecido por sua enorme capacidade intelectual: homem inteligente, preparado, culto, consciente da influência que poderia exercer sobre as massas que se reuniam para assistir missas por ele presididas e que o seguiam sempre que era transferido de uma igreja para outra. Essas transferências aconteceram várias vezes. O padre incomodava porque era polêmico, atuante, não se furtava a trazer à tona assuntos de interesse da coletividade. Através de suas pregações, sempre baseadas nas ricas palavras do Evangelho, procurava conscientizar a assembléia a enxergar o que estava errado.

Extremamente corajoso, destemido, defendia com ardor idéias que pudessem levar benefício à coletividade. Profundo conhecedor de Teologia, sabia como ninguém transportar os maravilhosos ensinamentos contidos nos Evangelhos para os dias atuais, para que efetivamente fossem colocados na vida. Na saída das missas desse padre incomum o que mais se ouvia eram os comentários de que suas palavras levavam os fiéis a refletir sobre o comportamento no dia a dia, o que gradualmente os transformava em pessoas melhores.

Como todo ser humano que, de alguma forma, se destaca, sai do lugar comum, o tal padre recebeu muitas críticas, foi alvo de calúnias, de injustiças, mas nunca se deixou abater. Dizia que se alguém está convicto daquilo em que acredita, para o bem, nada pode nem deve abalar essa convicção. O padre continuou firme em sua maneira de ser. Por mais que fosse substituído ou transferido, centenas lhe permaneceram fiéis.

Num país de povo acomodado, onde a esmagadora maioria se cala e aceita passivamente o que lhes é imposto, alguém precisa ter a bravura de soltar a voz para tentar transformar pensamentos, abrir mentes submissas. Sabemos que Jesus, em sua infinita bondade, fez de sua curta permanência na Terra um apostolado em favor dos menos favorecidos; criticou as classes dominantes, enfrentou os que oprimiam o povo; em suas palavras, sempre contundentes, buscou orientar para que houvesse igualdade de direitos, para que o amor imperasse em todos os relacionamentos. Exemplo a ser cultuado e copiado.

Acontece que esse padre mais uma vez foi criticado, alegando-se que veio em defesa de suposto acusado de cometer crime de assédio sexual contra crianças da própria família. Mais uma vez injustiça foi feita contra ele. Quem estava presente sabe que não foi assim. O tal padre apenas se colocou contra o posicionamento do pré-julgamento, situação em que uma pessoa é execrada antes mesmo de ter a chance de passar pelo crivo da Justiça, ou seja, pelos procedimentos habituais de um julgamento justo, que é direito de todos. É bem diferente de dizer que o padre julgou improcedente a acusação.

Mas o ser humano muitas vezes é pródigo em distorcer pronunciamentos. A verdade é que poucos conseguem ser unanimidade. Então, o padre prosseguiu com sua vida de pregações, agradando a uns, desagradando a outros, mas com a consciência tranqüila, levando com ele, onde quer que fosse, muita gente que sempre apreciou sua maneira de fazer homilias: transparente, inteligente, objetiva e profundamente evangelizadora.

E, enquanto aquele padre da cidade do interior dava continuidade ao seu sacerdócio, vozes vibrantes, entusiasmadas e agradecidas foram ouvidas: "Padre, não desista, continue, não fique calado!"

Jairo S. Silva e Luci N.C.M. Silva

Comentários

Comentários