Da Rio?92 à Rio+20, estamos percebendo um caminho contrário. Em 92, assim como no Protocolo de Kyoto, ficou claro que o país poluidor é responsável e deveria pagar a conta. Ora, foram os países industrializados os maiores predadores, não há como não responsabilizarmos pelos danos causados.
De tanto falar em livre comércio, corria-se o risco de se pensar que de fato havia liberdade no livre comércio e não uma armadilha para aprisionar a liberdade. Falava-se tanto em gigantismo do Estado que se corria o risco de acreditar que, de fato, o Estado era um gigante que necessitava de ser diminuído. A ordem era a privatização. Em 92, foi possível ir contra tudo isso. Foi possível afirmar que os países ricos são os maiores responsáveis pela destruição da natureza e, portanto, eles é que devem arcar com a maior parte do pagamento pelos danos. É uma lógica simples e clara.
Agora, vivemos outro clima. Foram nos dizendo que os pobres gastam muita energia e os pais obrigaram os filhos a tomar banho frio.
Disseram que as mulheres são poluidoras porque põem fraldas descartáveis em seus bebês, então elas são as culpadas pelos males causados ao meio ambiente. Por outro lado, disseram que a cada estação é preciso mudar o guarda-roupa para não nos sentirmos deslocadas, fora de moda, inaceitáveis. Depois a cada dois meses, o mesmo discurso. Passou-se à obrigação de estar sempre sorrindo e parecermos jovens. Como o tempo é inexorável, as indústrias de cosméticos e cirurgias plásticas tiveram lucros incomensuráveis. E a corrida é tão vertiginosa quanto insustentável. Restam-nos dívidas, desconforto, sentimento de culpa ...
Agora, estamos em crise, as corporações transnacionais ditam as normas e os governos capitulam e fingem que governam. Não se fala que mais de 70% da energia não são gastas pela criança que toma banho com água quente, mas pelas indústrias intensivas que produzem para exportar, ficam com os lucros e deixa pra nós a poluição e suas consequências. Não se fala que mais de 70% da água vai para a irrigação do agronegócio e a nós resta água poluída quando não a falta dela. E as grandes obras, que prometem infra-estrutura para o conforto da população, nada mais fazem que expulsá-la de seus territórios, desempregá-la e culpá-la pelo desemprego.
Nesse clima em que os governos não governam e são forçados a sancionar leis predadórias, o papel dos povos é crucial. Há que buscar bandeiras comuns muito claras e lutar com muita garra para fazer frente ao acelerado processo de exploração dos povos e de seus bens, pelo deus-mercado, agora, pintado de cor verde.
Nesse momento em que voltamos ao século XVI com a reprimarização da economia e a superlativa exploração laboral, é primordial a afirmação dos direitos dos povos e a defesa dos bens comuns: água, terra, ar, alimentos, sementes, serviços públicos. É o que estaremos defendendo no Aterro do Flamengo, onde faremos acontecer a Cúpula dos Povos na Rio+20.
A autora, Iolanda Toshie Ide, é colaboradora de Opinião