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?Bomba relógio? no meio da cidade

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Por um fio. Assim está a situação de quem circula e mora nas proximidades das três ferrovias (antigas Paulista, Sorocabana e Noroeste) que cortam os quatro cantos da cidade. Esse é o diagnóstico não apenas da população, que convive diariamente com riscos de assaltos ou acidentes, como os verificados nos últimos meses, mas das forças públicas de segurança, promotoria e entidades civis.

Polícias Civil, Militar, Defesa Civil e Ministério Público Federal (MPF) estão engajados, cada um com os instrumentos disponíveis, para eliminar ou ao menos minimizar os riscos trazidos pela situação de abandono da malha ferroviária, composições que apodrecem em plena região central da cidade e imóveis com alto valor histórico mas deixados à mercê do tempo e esquecimento.

Para todas as entidades, enquanto as vias férreas e patrimônio ao redor estiverem fora dos trilhos da conservação, o único (e assustador) diagnóstico: tragédia anunciada.

“Já tivemos alguns acidentes e não é exagero afirmar que teremos uma tragédia caso nada seja feito”, anuncia Álvaro de Britto, coordenador da Defesa Civil em Bauru.

Entre acidentes recentes, há duas semanas, houve derramamento de 10 mil litros de etanol próximo à av. Rodrigues Alves, porém sem feridos, mas deixou o alerta às autoridades que o perigo existe.

A previsão, mesmo que os representantes da entidades civis não queiram soar catastróficos ou alarmistas, é embasada nos recentes acidentes envolvendo composições que cortam as três ferrovias que fazem intercessão na cidade e atualmente administradas pela América Latina Logística (ALL).

Apenas nas últimas semanas, duas ocorrências envolvendo vagões carregados por combustíveis deixaram as autoridades e população alerta. Os acidentes, que não resultaram em feridos, aconteceram em áreas densamente habitadas.

Ano passado, após o tombamento de vagões com gasolina na região do Horto de Aimorés o saldo não foi semelhante. Quatro pessoas se feriram gravemente e hoje buscam, além de reabilitação física, ressarcimento na Justiça junto à empresa administradora das ferrovias.

Inquérito conduzido pela Polícia Civil e ações ajuizadas pelo Ministério Público Federal (MPF) engrossam o caldo na panela de pressão das entidades públicas que exigem os devidos reparos na malha ferroviária que, deteriorada, seria palco de ocorrências seguidas não por simples “coincidência”.

Os cerca de 100 quilômetros de malha férrea que cortam a cidade pelos quatro cantos do mapa, calculam antigos ferroviários, em boa parte estão próximos a áreas muito habitadas, legal ou ilegalmente.

Um exemplo da convivência incômoda entre ferrovia e moradores está na região do Parque das Nações e Jardim América, especialmente na favela existente na área, fruto de uma ocupação irregular existente há décadas no local.

Além do risco de atropelamento ou colisões entre veículos e composições ocasionados pela ausência de cancelas (fato também observado em toda a cidade nas passagens de nível oficiais), essa região periférica também é cortada por cruzamentos clandestinos, alguns sinalizados apesar da inexistência no mapa.

Ao todo, enumera a Defesa Civil, existem mais de 50 ruas cortadas pela malha férrea. Passagens abertas sem a chancela da prefeitura ou administradora da ferrovia não entram nessa contagem

Um recente trabalho entre prefeitura e Polícia Militar reduziu a quantidade de usuários de entorpecentes na área, garante o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do quarto Batalhão da Polícia Militar do Interior.

Contudo, a deterioração permanente das instalações segue como chamariz para drogados e criminosos. “Se a área fosse limpa e iluminada não daria condições para o tráfico”, acredita o oficial. “Vagões e moradias abandonadas potencializam as possibilidades de esconderijos”, acentua o policial.

Em frente à estação da antiga Sorocabana, na rua Júlio Prestes – área conhecida por abrigar a Feira do Rolo aos domingos – e toda a região do quadrilátero ainda compreendido pelas ruas  Ezequiel Ramos, Presidente Kennedy até a avenida Nações Unidas nas proximidades do Terminal Rodoviário, o abandono também preocupam.

A área, comenta o major Major Flávio Jun Kitazume, subcomandante do quarto batalhão, deve ser evitada após as 19h. “Desse horário em diante aumentam os riscos de abordagens criminosas. A partir da noite o problema cresce”, avalia o policial.

 

Na linha de risco

Além dos riscos indiretos pela falta de zelo com relação aos trilhos, composições e imóveis que cercam a via férrea, outros perigos apesar de bem visíveis acabam despercebidos pela maioria que cruza a ferrovia na pressa de todos os dias. Dormentes podres, trilhos visivelmente tortos mas que suportam toneladas de vagões carregados de combustível sobre rodas metálicas que soltam faíscas, ribanceiras ao lado da linha sem qualquer tipo de proteção, casas embaixo dos barrancos, rios desprotegidos de eventuais vazamentos em acidentes...

Esses foram algumas das observações que a reportagem anotou em apenas um dia percorrendo trechos da malha ferroviária urbana em Bauru. Especialmente na ocupação do Parque das Nações, uma coleção de problemas coloca em risco a segurança de moradores.

O lixo espalhado ao lado da via férrea completa o cenário de abandono. Moradores das casas a poucos metros de onde passam os trens pesados sobre os trilhos irregulares se dizem cientes do risco, mas alegam não ter alternativas. “Nunca aconteceu nada, mas se acontecer não sei o que faria. A gente não tem para onde correr”, alega a moradora Andréia de Melo, 30 anos.

O local, segundo a Defesa Civil, tem 84 barracos em situação de risco. O local faz parte de um plano de reurbanização da prefeitura, que pretende realocar as famílias retiradas das áreas de favelamento mais crítico.

Na rua São Sebastião, descendo após cruzamento com a Campos Sales em direção à Vila São Manoel, a linha está rente à via urbana, separada por um curto barranco e mato alto. Caixa de brita, que minimiza riscos, também não existe em muitos pontos percorridos pela equipe de reportagem e Defesa Civil.

Dona Clotilde Cruz Brito, de 79 anos, tem os trilhos como vizinhos há pelo menos três décadas. Foi a poucos metros da porta da casa dela que um vagão descarrilhou recentemente. A composição, carregada de etanol, tombou em lado oposto à moradia. “Foi do outro lado. Do contrário não sei como seria”, indaga.

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