Bairros

Um pedacinho do Japão vive aqui

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 8 min

Na batida do taikô

Quem já participou de tradicionais eventos japoneses ou pelo menos assistiu a parte deles pela televisão, certamente já ouviu um pouco do taiko, a milenar arte de percussão japonesa.

Em Bauru, o responsável por divulgar a modalidade é Shozo Nakamine, coordenador do grupo Muguenkyo, que, em português, significa ressonância infinita.

Natural da província de Wakayama, ele veio para Bauru quando tinha 10 anos, mas só aprendeu a tocar taikô em 2003, ano em que o governo japonês enviou um professor diretamente do Japão para ensinar a técnica aos bauruenses.

“No taikô não existe partitura nem sequência de notas musicais. Ele é uma combinação de sons que derivam da batida de diversos tambores. No começo era utilizado como forma de comunicação em guerras. Atualmente, está presente em celebrações religiosas, festividades e em academias de artes marciais”, explica Shozo.

De acordo com ele, os japoneses acreditam que a batida do taikô é capaz de espantar os maus espíritos e trazer boa sorte. Além disso, a técnica é capaz de ativar neurônios pouco utilizados e melhorar a coordenação motora.

“A pessoa fica mais inteligente”, pontua Shozo, que diz que o objetivo do grupo é promover a amizade, a solidariedade e a quebra de barreiras por meio da música.

 


'Bauruponês'

Há algumas décadas, a família Yanaba deixou sua terra natal, do outro lado do mundo, no Japão, e navegou pelos sete mares até chegar a Bauru, no Coração de São Paulo. Reprimidos pela guerra que assolara o país, esperavam encontrar por aqui melhores condições de vida.

O patriarca da família trouxe na mala a esperança de enriquecer e, um dia, retornar com a mulher e os filhos para o Japão. Por isso, fez questão de manter os costumes e ensinar aos filhos o idioma nipônico.

Contudo, chegando aqui, a família Yanaba notou que a realidade era bem diferente da prometida. Com seus membros trabalhando na lavoura, a família Yanaba levou tempo para conquistar sua independência. Tanto tempo que o patriarca não teve chances de realizar seu sonho de voltar a morar no Japão com a família.

Kazuo Yanaba, 62 anos, viveu tudo isso. Era filho do imigrante sonhador e, 54 anos após seu nascimento, trilhou o caminho inverso dos pais: mudou-se com a família para o Japão para na província de Shizuoka, em busca de melhores condições de vida.

“Faz oito anos que moro aqui e fui muito bem acolhido por todos. Atualmente, trabalho em uma fábrica de autopeças. Sou o único brasileiro do grupo. Já me acostumei com as diferenças, mas quero muito voltar a morar no Brasil novamente”, afirma Kazuo Yanaba.

De acordo com ele, as principais dificuldades de adaptação estão relacionadas ao trabalho intenso e exaustivo e à falta de espaço.

“No Brasil tem muita festa, alegria. Aqui, a vida se resume a trabalho”, reclama.

Sobre como os japoneses enxergam nosso País, Kazuo é categórico: “Eles têm muita curiosidade, me fazem muitas perguntas. Contudo, infelizmente, a maioria tem medo da tal violência mostrada na TV”, lamenta.

 

Sabor do Japão

Em um passado muito distante, a guerra e a falta de espaço para a agricultura e pecuária impuseram aos japoneses duras condições de sobrevivência. Com alimentos racionados, eles precisavam tirar do mar seu sustento. Consumir peixes e algas crus, que hoje caracterizam a gastronomia oriental, foi, durante muito tempo, a única opção dos nipônicos.

Com o passar dos anos, o paladar dos japoneses se adaptou a essa exigência e, aos poucos, sua culinária peculiar caiu no gosto popular. Tanto que, em Bauru, não param de surgir restaurantes dedicados à gastronomia japonesa.

Neste cenário, um dos mais inovadores é o restaurante Tokyo, localizado no Centro de Bauru e que serve comida japonesa por quilo.

“Notei que a procura pela gastronomia japonesa está em constante crescimento na cidade. Contudo, não havia nenhum restaurante do tipo com sistema self-service, que permite que a pessoa prove de tudo um pouco, combinando variedade e agilidade”, explica Milton Takeuti, 36 anos, proprietário do restaurante, que funciona há três anos.

Ele e a esposa são os responsáveis por preparar pela primeira vez cada prato que integra o menu do restaurante. São eles que têm a incumbência de adequar a gastronomia oriental ao paladar do bauruense. Depois de aprovado, o preparo do prato fica a cargo de uma chef e de um sushiman.

“Sempre criamos pratos novos, mas todos adaptados ao paladar do povo brasileiro. O japonês tem uma culinária muito adocicada, já os ocidentais não gostam muito disso, por isso, procuramos tirar boa parte do açúcar dos alimentos”, exemplifica ele, que aponta que os brasileiros são 90% da clientela de seu restaurante. 

 

Igreja Tenrikyo

Não há como negar: o templo da Igreja Tenrikyo, situado na Vila Independência, é o símbolo do Japão em Bauru. Construída nos moldes orientais, com o telhado bastante abaulado, a fachada rica em detalhes e um interior forrado por um trançado de madeiras, a igreja

atrai a atenção e aguça a curiosidade de bauruenses e visitantes, especialmente os que não são adeptos da seita praticada no templo.

Inaugurada em 1951, a construção é a evolução arquitetônica da primeira igreja que difundiu a religião xintoísta na cidade, fundada em 1936 pelo líder espiritual primaz Chujiro Otake. O prédio, que em 2003 foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac) de Bauru como patrimônio histórico e cultural da cidade, pode ser observada de várias partes do município, especialmente do viaduto Antônio Eufrásio de Toledo, e ocupa três quarteirões.

No mesmo ano de 1951, a Tenrikyo de Bauru também foi escolhida para ser sede da religião da América Latina, devido a fatores de localização geográfica do município. Por conta disso, abriga em suas dependências, além do templo, toda a infraestrutura necessária para acolher visitantes, como dormitórios, quadra poliesportiva e refeitório.

O complexo oferece aos bauruenses cursos de origem japonesa, como o que ensina a língua japonesa, o taikô (música tocada com tradicionais percussões), o koteki (banda) e o intercâmbio com uma universidade do Japão. (WF)

 

Praças do sol nascente

Dar a praças e ruas o nome de pessoas importantes na história de um município é um costume muito comum entre os bauruenses. Tendo por base este critério, podemos afirmar que a presença dos imigrantes japoneses é, para quem vive na cidade Coração de São Paulo, algo de muito valor. Prova disso são as quatro praças espalhadas por diversos bairros da cidade que homenageiam a povo da terra do sol nascente.

A primeira a inaugurar a série de complexos de lazer em agradecimento à colaboração dos nipônicos para com a cidade foi a praça das Cerejeiras, localizada aos fundos da Prefeitura Municipal. Criada de acordo com o decreto número 1.236, de 14 de janeiro de 1969, a praça das Cerejeiras está localizada entre as ruas Agenor Meira, Rio Branco, Aviador Gomes Ribeiro e Padre João. O nome foi dado em referência à árvore de cerejeiras, flor nacional do Japão, que representa a felicidade.

Alguns anos depois, em 1982, uma nova homenagem: a inauguração da praça Seicho-No-Iê, situada na avenida Elias Miguel Maluf. O nome foi dado em referência à seita oriental, introduzida na cidade por Nobuji Nagasawa, na época proprietário das massas Mezzani.

Doze anos depois, em 1994, a rotatória que liga o Centro da cidade à Vila Independência recebeu a praça Primaz Chujiro Otake, também conhecida por ter um relógio monumental que marca as horas de acordo com a posição do sol. Desta vez, a homenagem foi à Igreja Tenrikyo, criada na cidade por Chujiro Otake, em 1936.

No final de 2008, às vésperas do centenário da imigração japonesa, o Jardim Eugênia foi presenteado com a inauguração da praça Kasato Maru, nome dado em referência ao navio que em 1908 atracou no porto de Santos, trazendo para o Brasil os primeiros imigrantes do país mais oriental do globo terrestre.

 

Associação Nipo-Brasileira

Criada em 1936, a Associação Nipo-Brasileira foi, desde o momento de sua fundação, o porto-seguro dos japoneses em Bauru. No início, o principal objetivo do clube era alfabetizar os filhos dos imigrantes nipônicos no idioma japonês, já que muitos deles tinham planos de, em breve, retornar à terra natal.

“Todas as pequenas cidades tinham clubes japoneses onde era ensinado o idioma japonês aos nisseis. Além disso, estes clubes serviam como ponto para encontro e comemorações festivas da colônia”, explica Massaru Ogino, conselheiro do Nipo.

Porém, com poucos anos de funcionamento, o Nipo teve de baixar as portas por conta da Segunda Guerra Mundial, frustrando mais uma vez os planos da colônia.

“Foi uma época muito confusa. O Brasil era inimigo do Japão na guerra e praticar nossa cultura, inclusive falar e ensinar o idioma japonês, era proibido. Por isso, o Nipo foi encampado pelo governo”, explica Massaru, que se lembra que muitos japoneses custaram a aceitar a rendição do Japão e entraram em conflito com seus próprios conterrâneos.

As atividades só foram retomadas em 1958, mais de 10 anos após o término da guerra, quando as esperanças de retornar à terra natal já haviam sido dissipadas. Foi a partir deste momento que o Nipo assumiu o caráter recreativo que tem atualmente.

“Hoje, estamos de portas abertas para toda a comunidade bauruense”, ressalta Massaru, que destaca o departamento de esportes, as festas comemorativas, como o Bon Odori, a ikebana, o karaokê e as atividades voltadas à terceira idade como as atividades mais procuradas. 

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