O assassinato de um rico empresário, dono de uma conhecida indústria de alimentos, é esquartejado pela mídia, que se compraz em entrar nas minúcias e conjecturas. Com o perdão pelo trocadilho mórbido, essa atitude da imprensa é compreensível num momento em que não nos chocam mais os crimes resultados de assaltos desastrosos ou em decorrência de confrontos policiais. Os leitores querem outras formas mais criativas ou elaboradas. O homem matar, estuprar e esquartejar é até notícia comum. Acontecem a cada cinco minutos no Brasil. Os crimes praticados contra a mulher são vistos como parte das exigências morais e sociais de ser homem. Quando os fatos se invertem em desafio à ordem patriarcal, um grito de horror congela no ar. A indignação seletiva é travestida de explicações científicas sobre as causas da psicopatia, do desequilíbrio emocional e da frieza inumana. Freud (1913) discute as proibições de matar o "animal totêmico", o chefe de família. Também é estigmatizado o ato de copular com pessoas do sexo oposto pertencentes ao mesmo totem-família. Essa maldição funciona como defesa contra nossas tendências criminosas inconscientes. Freud afirma que a culpa preexiste ao crime, e que ela não é o seu resultado, mas o seu motivo. O ato criminoso pode surgir como solução para forte tensão conflituosa decorrente de um superego exigente. Há quem não concorde. Há mulheres que são Amélias. Outras são Medéias, capazes das vinganças mais cruéis contra o companheiro, como a de matar os filhos, frutos do amor que ela não quer perder. A alma humana é repleta de recônditos abjetos, dizia Nelson Rodrigues que se dedicou em mergulhar no negrume da psique. Todos nós achamos inconcebível que uma pessoa diga a outra que a ama e ao mesmo tempo possa planejar e executar o assassinato do seu "objeto do amor". Ainda mais com a violação do corpo. A traição é uma das experiências humanas mais contraditórias. De um lado temos alguém que amamos, com quem compartilhamos nossa existência, sonhos e expectativas. De outro lado temos o "outro" que parece justamente ter desprezado o que somos e os sacrifícios a que nos submetemos para manter a "velha chama". Amor e ódio têm fronteiras tênues. Inspiram carinho e decepção, em fração de segundos. É possível perdoar, assim como é possível nunca superar uma traição. Quando a avalanche de sentimentos passa o limite, as consequências são imprevisíveis. Quem está nesse furacão entre o amor e o ódio, pode não aguentar. A atitude insana é uma tentativa de se livrar desse estado de loucura: ou mata ou morre. Essa teoria dos instintos está sendo questionada. Ninguém nega a existência da agressão ou defende o agressor. O que não se sabe é se ela se origina de dentro, e desde o início como um impulso inato, ou se ela é somente uma reação a alguma coisa. Somos todos nascidos bons, como Rousseau postula, e somos corrompidos pela civilização... Ou, nascemos cheios de pecados e ruindades, somos assassinos, incestuosos, canibais e conquistamos a civilização pela renúncia instintiva, como queria Freud. Quando o homem preferiu se desabafar diante do desafeto com xingos, a jogar flechas, criou a civilização. O pai da psicanálise garantia que um dos motivos inconscientes do crime é que a morte pode equivaler à união sexual final. O esquartejar seria a partilha do corpo, como a hóstia consagrada, forma de espiação. A verdade é que sabemos pouco sobre as motivações profundas da alma humana. E muitas das explicações existentes podem soar insatisfatórias. Baseiam-se em extratos superficiais da mente. Cada vez que procuramos nos aprofundar, mergulhamos mais nas trevas.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC