Com o pomposo título de "Consumidor paulista é exemplo de cidadania", o presidente da Apas ? Associação Paulista de Supermercados ? escreveu na página 2 do Jornal da Cidade um artigo autoelogioso à atitude da associação que preside em banir a distribuição de sacolas de plástico nos estabelecimentos do ramo supermercadista. O artigo é falacioso, para dizer o mínimo, a começar do título que deveria ser "Consumidor paulista é exemplo de passividade", já que o que coletivamente estamos demonstrando é nossa inércia, como cidadãos, diante de uma atitude prepotente e lesiva aos nossos interesses, praticada pela Apas. Quando estudei nos Estados Unidos, em 1976, fui surpreendido um dia, no supermercado que eu freqüentava, com um cartaz colocado na prateleira onde estava o café solúvel brasileiro, com frases que diziam aos consumidores para que não comprassem o café do Brasil. Perguntei ao gerente o porquê daquilo e ele me respondeu que uma associação de fabricantes de sapatos, incomodada com o fato de que os sapatos brasileiros estarem sendo vendidos lá a preços menores dos que os fabricados por eles, em represália estavam boicotando o nosso café. Perguntei, então, porque o supermercado não mandava retirar o cartaz e ele então me respondeu que a conseqüência seria o boicote do supermercado inteiro por parte dos clientes, em solidariedade aos prejudicados.
Coisa parecida só vi no Brasil em 1986, quando a carne de boi, que tinha o preço tabelado, sumiu dos açougues ou passou a ser vendida no "mercado negro" por preço muito acima da tabela. As donas de casa passaram a trocar receitas de comidas sem carne e com isto forçaram os açougues a baixarem o preço ao da tabela. Muito embora, de maneira enganosa, o presidente da APAS tenha cumprimentado os consumidores por aparentemente terem aderido à campanha pelo banimento das sacolinhas, a verdade é bem outra. Pesquisas recentes, feitas por organismos sérios, apontam que o descontentamento é geral e que o povo já começa a perceber que foi usado e feito de bobo. Nós pagávamos pelas sacolinhas que eles dizem que distribuíam de graça. Não sou eu que digo isto e sim um dono de supermercado de Santo André-SP e vereador naquela cidade, chamado Gilberto Primavera, que publicou em sua página pessoal, no twitter e no facebook que "é obvio que os supermercados incluem nos preços de seus produtos o custo das sacolas", dizendo ainda que "as embalagens ( todas )são a terceira despesa de um supermercado e as sacolas de plástico devem representar 70% das embalagens utilizadas.
Se fosse verdade que as sacolas eram distribuídas de graça, ao pouparmos os supermercadistas dessa enorme despesa por qual razão eles então não destinam esse dinheiro economizado em investimentos no meio ambiente, demonstrando, assim, genuína preocupação com o nosso planeta ? Por que os supermercadistas não publicam as notas fiscais das sacolas que compram para revender, e as revendam a verdadeiro preço de custo, provando que sua preocupação é com a salvação do meio ambiente e não o engordamento de seus lucros? A Câmara Especializada de Engenharia Química do CREA-SP, presidida por um engenheiro de alimentos, emitiu parecer sobre o assunto, parecer este que foi aprovado em reunião de diretoria e transformado em posição final do CREA-SP, demonstrando que do ponto de vista da saúde pública a não mais distribuição de sacolinhas produziu um mal enorme, chegando a dizer que "o equivocado banimento destas embalagens configura-se em gigantesco passo atrás, pois ao contrário do que imaginavam, esta medida tenderá a ocasionar um impacto sanitário e ambiental negativo, cujas conseqüências se farão sentir já em curto prazo".
Um número cada vez crescente de cidades está tratando de propor leis municipais que obriguem os estabelecimentos supermercadistas a voltarem a distribuir gratuitamente embalagens capacitadas ao transporte de mercadorias por eles vendidas ao consumidor. Guarulhos, com 1,2 milhões de habitantes é uma das que já tem lei em vigor nesse sentido. Franca, Itapeva, Barretos, Mogi Mirim e Lins são outras. Em mais treze cidades há leis tramitando propondo a volta da distribuição gratuita de sacolinhas. Em Bauru, projeto de lei proposto por mim e pelo vereador Luiz Barbosa está na Comissão de Justiça e brevemente estará sendo discutido e votado em plenário. Sugiro que os cidadãos bauruenses inconformados com essa atitude demagógica e prepotente da APAS, fiquem atentos e acompanhem essa votação, prestando atenção nos pronunciamentos e nos votos daqueles que os representam e mais, observem a decisão que o alcaide local irá tomar pois em todas essas cidades citadas, inclusive Guarujá e São José do Rio Preto, os prefeitos sancionaram as leis aprovadas pelas respectivas Câmaras.
O autor, José Roberto Martins Segalla, é vereador em Bauru