Articulistas

Nos tempos do impeachment

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Há vinte anos, quando entrei na Universidade Federal do Rio Grande para fazer o curso de História, conheci pessoas extremamente politizadas. A minha turma do primeiro ano era oficialmente de esquerda. Dos alunos aos professores, quase todos eram membros de alguma sigla política de esquerda. Tinha os trotskistas, os stalinistas, o pessoal da Convergência sei lá o quê, que era uma ala de extrema esquerda do PT, o povo do PC do B... era bem efervescente. E foi uma experiência muito rica para mim. O problema é que eles brigavam todo santo dia. Não estou exagerando, todos os dias o pau quebrava entre eles. Só não vi agressão física. Os não politizados formavam uma minúscula ilha ao fundo de um grande anfiteatro, onde as aulas aconteciam. Éramos eu, a Isabel (absurdamente linda), o Osório (apelido de um vendedor de seguro de saúde da cidade de Osório) e o Marcelo (cujo pai era diretor do Iate Clube de Rio Grande). No começo, se não fosse a beleza extrema de nossa colega, seríamos excluídos por completo de tudo o que acontecia no nosso curso. Até das conversas de corredor. Mas eu fui muito bem nas provas, os outros não politizados acabaram mostrando que de burros não tinham nada e nos integramos ao todo. Até nas brigas. Depois entrou um anarquista na turma. Ele deixou o curso de medicina da FURG para fazer História. A classe inteira aplaudiu seu gesto na frente da professora de sociologia, que o apresentou no dia em que ele começou a frequentar as aulas. Mas foi uma manifestação meio "oficiosa", pois no fundo o pessoal pensava o trivial, mesmo: "Burro! Largou medicina em uma universidade federal para fazer história!" Foi o único da turma a ficar realmente isolado.

Quando o processo de impeachment do Collor estava para ser votado, fizemos o que o país inteiro fez. Fomos até o centro de Rio Grande e participamos da passeata "Fora Collor". Lembro que uma uruguaia doida do quarto ano entrou na classe praticamente intimando a turma a ir, já com a cara pintada, berrando com aquele sotaque uruguaio que ficava terrível quando saía da boca dela. A universidade providenciou os ônibus para levar os alunos ao centro e eu fiquei pensando comigo: "a universidade é sustentada pelo dinheiro do governo federal e dá os ônibus para que a gente derrube o governante?" Recusei-me a pintar a cara. É claro que queria o impeachment, mas eu enxergava aquele movimento como um teatro. Parecia que as pessoas estavam mais se divertindo do que protestando. Não tinha perigo, como nos anos da ditadura militar. A polícia fechava a rua para a passeata passar, o prefeito aparecia, fazia discurso... Aquilo já fazia parte, eu descobri depois, de um processo de perda de referência ideológica que só se solidificou mesmo depois da eleição do Lula. Aí as referências foram para o espaço, pois o PT, a esquerda, teve que governar escorado pelos partidos da direita.

Quando a passeata saiu, deu vergonha alheia. O povo gritava: "Fernandinho do pó, privatiza a sua vó!". Os não politizados saíram para a calçada - só a Isabel de cara pintada - e deixamos aquele monte de bandeiras vermelhas passarem. Ainda vimos o estudante anarquista no meio da multidão, pulando e agitando histericamente sua única bandeira preta no meio do mar de bandeiras vermelhas. Fomos tomar cerveja no porto histórico de Rio Grande. Semanas depois, faltamos à aula para assistir à votação do processo de impeachment no Congresso. Assistimos no Bar do Alemão, de frente para a Praia do Cassino. Aí foi emocionante, apesar de alguns deputados que iam ao microfone só para falar merda. Eu estava lá no extremo sul do país - a praia do Cassino é aquela tripinha de terra que finaliza o Brasil com o Uruguai -, sentindo o peso daquele momento histórico, e a voz que anunciava os deputados disse: "- Tidei de Lima." "- Sim." "- Tuga Angerami." "- Sim." Vi os dois deputados federais de Bauru na tela, um do lado do outro. Naquele momento, percebi que eu era mais bauruense do que brasileiro.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião

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