Morreu ontem, às 7h45 da manhã, o arcebispo emérito de Botucatu dom Aloysio José Leal Penna, aos 79 anos, em decorrência da falência múltipla de órgãos. Ele estava internado na UTI do Hospital Madre Teresa, em Belo Horizonte (MG), desde o início do mês. Foi o 3.º bispo diocesano de Bauru, entre os anos 1990 e 2000.
Na manhã desta quarta-feira (20), as missas foram realizadas de duas em duas horas no salão anexo à à Catedral da Arquidiocese de Botucatu, onde o corpo está sendo velado. Dezenas de fiéis se reuniram para a despedida de Dom Aloysio.
A Santa Missa de Exéquias será celebrada nesta quinta-feira (21), às 10h, e será presidida pelo bispo Dom Maurício Groto de Camargo, quem sucedeu Dom Aloysio.
Em relação ao legado do bispo solidário, Dom Maurício se emociona. "Foi um avanço substancial para a pastoral. Era uma pessoa de cabeça aberta, alma magnífica e muita sensibilidade. Era inquieto e tinha pressa em atender as necessidades do mundo moderno por meio da evangelização", explica.
Após a missa, o corpo de dom Aloysio será levado para o Rio de Janeiro, onde será velado na Igreja Santo Inácio do Colégio dos Jesuítas, em Botafogo. O sepultamento será na sexta-feira, às 16h, no Cemitério São João Batista de Botafogo, no Rio, junto a seus confrades.
No dia 10 de janeiro de 2009, dom Aloysio sofreu uma queda quando celebrava missa na Catedral Metropolitana de Botucatu, o que ocasionou uma hemorragia interna no crânio. Desde então, o bispo vinha passando por diversos tratamentos e apresentava melhora, mas seu quadro clínico piorou no início deste mês, quando precisou ser internado na UTI com pneumonia.
Trajetória
Dom Aloysio José Leal Penna nasceu na cidade paulista de Piquete (município de Lorena), no dia 7 de fevereiro de 1933. Criado no seio de uma família católica e de sólidos princípios religiosos, desde pequeno sentiu o desejo pelo sacerdócio. Fez os primeiros votos no Noviciado, em 1952, na cidade de Itaici (SP), com o acompanhamento do padre Armando Cardoso.
Desde jovem, em todas as etapas de seus estudos, formação e ministérios, sempre se caracterizou pelo seu temperamento extrovertido, alegre e empreendedor. O arcebispo também sempre foi citado por sua capacidade de relacionamento e comunicação.
Amigo
Dom Aloysio José Leal Penna era bispo da Diocese de Paulo Afonso quando foi nomeado bispo coadjutor da Diocese de Bauru com direito à sucessão, em 1988, pelo Papa João Paulo II. Tomou posse como 3º bispo da Diocese local no dia 5 de setembro de 1990. Em maio de 2000 foi nomeado arcebispo da Província Eclesiástica de Botucatu, onde permaneceu até 2009, passando assim para arcebispo emérito.
“Muitas vezes tivemos o privilégio de entrevistar o então bispo diocesano de Bauru, dom Aloysio Penna. Foram conversas agradáveis. Um homem culto, inteligente e ponderado. Nunca omitiu seus pensamentos sobre qualquer assunto que abordávamos. Tenho saudade das nossas conversas. É um homem marcante e intelectual que me traz recordações extraordinárias”, diz Samuel Ferro, jornalista e diretor da TV Preve.
O adeus dos amigos
Fiel às amizades, dom Aloysio José Leal Penna fez-se presente em todos os momentos de alegria e de dor de seus amigos com uma palavra de carinho. O imenso campo de ministérios e relacionamentos não lhe permitia parar.
“Quando Cristo quis privilegiar os discípulos, chamou-os de ‘amigos’. Foi o melhor título que usou para lhes significar o quanto lhe eram raros. Sua presença é viva no coração de todos os que o conheceram e com ele tiveram a oportunidade de trabalhar pela causa de Deus”, diz padre Enedir Gonçalves Moreira, amigo de dom Aloysio.
“Na medida em que as notícias deram conta da gravidade do estado de saúde de meu irmão querido, do pastor humano, misericordioso, alegre e entusiasta, o meu coração se comoveu. Dom Aloysio não foi apenas o bispo diocesano que tomou posse na Diocese de Bauru. Ele tomou posse dos corações de suas ovelhas porque abraçou Bauru com suas virtudes e suas penas. Presente na vida dos cristãos que lhe foram confiados, acompanhou-os, não só na ação pastoral, mas na intensa vida da comunidade, das famílias, do mundo cultural acadêmico, das preocupações sociais de todos”, ressalta a irmã Jacinta Turolo Garcia.
O zelo e o carisma sacerdotal e religioso de dom Aloysio ganharam um brilho todo especial pela capacidade de organização e de fazer com que as pessoas se envolvessem na cumplicidade pastoral, independentemente da classe social.
“Dom Aloysio era uma pessoa cordial, fraterna e, acima de tudo, um grande amigo. Neste momento difícil, estamos em comunhão com toda a Igreja presente em Bauru. Que ele esteja confortado espiritualmente e amparado pelas mãos de Nossa Senhora”, diz dom frei Caetano Ferrari.
Familiares de dom Aloysio afirmam que ele sempre foi uma pessoa convicta, com personalidade marcante, bondoso e humilde. “Agradecemos a Deus o privilégio de tê-lo como irmão”. A família agradece, sensibilizada, todas as homenagens a ele prestadas.
Bispo teve atuação marcante à frente da Diocese de Bauru
Em Bauru, dom Aloysio reabriu o Seminário Diocesano e trabalhou muito pelas vocações sacerdotais, ordenando ao menos 14 presbíteros que ainda atuam na Diocese. “Se há uma coisa que devemos deixar sólida para uma diocese são os futuros padres”, disse em entrevista no ano de 2004, quando a Diocese de Bauru comemorava 40 anos de sua criação.
No plano pastoral, esteve à frente do Projeto Comunhão e Participação (Procompar), que com o apoio da Universidade Sagrado Coração (USC) e outras instituições, fez um diagnóstico da Diocese de Bauru e de suas principais necessidades. O resultado foi o 6º Plano Diocesano de Pastoral, que destacava como prioridade a juventude e a ação social.
O bispo também criou a Paróquia Universitária do Sagrado Coração de Jesus em 1991. Nos 10 anos em que governou a Diocese local, dom Aloysio criou 14 novas paróquias, do total de 41 existentes hoje.
Padre Enedir Gonçalves Moreira, assessor da PasCom e reitor do Santuário Diocesano de Bauru, era muito próximo do arcebispo.
“Dom Aloysio viveu seu sacerdócio 24 horas por dia. Não vivia para si, mas fazendo o bem a quem precisava. Grande incentivador dos ideais apostólicos, não se intimidava diante do mundo tão competitivo. Tinha uma liderança autêntica, reta, e sempre acreditou na Igreja e na transformação social em favor do ser humano e de sua felicidade, conforme o projeto de Jesus Cristo”, diz o amigo.
Enquanto bispo diocesano de Bauru, teve forte atuação na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), coordenou nacionalmente as pastorais da Família, da Educação e da Juventude; foi presidente do Conselho Nacional da Pastoral da Criança e um dos fundadores da Pastoral da Pessoa Idosa.
“Tive um relacionamento muito agradável com dom Aloysio. Foi uma relação de afinidade e de amizade; isso também por conta de nossa vocação como religiosos. Atuamos em trabalhos da Pastoral da Educação na CNBB, próprios de nossa missão religiosa”, lembra dom frei Caetano Ferrari, bispo diocesano de Bauru.