Cairo - A palavra que mais se ouve nas ruas do Cairo para definir a angústia e a atmosfera de incerteza que dominam o país nos últimos dias é “fawda” - o termo em árabe que significa caos.
O adiamento do resultado oficial da eleição presidencial e notícias desencontradas sobre a saúde do ex-ditador Hosni Mubarak intensificaram a instabilidade e os temores de uma implosão.
Segundo a mídia egípcia, o Exército reforçou a segurança e tanques foram deslocados para a periferia do Cairo, na expectativa de protestos contra a Junta Militar que governa o país desde a renúncia do ex-ditador, em fevereiro de 2011.
Na noite de anteontem, Mubarak, 84 anos, havia sido declarado “clinicamente morto” pela agência de notícias oficial, ao ser transferido da cela em que cumpre prisão perpétua para um hospital.
Ontem, a notícia foi negada por seu advogado. Segundo ele, Mubarak precisou de cuidados médicos após sofrer uma queda. Mas as exatas condições de saúde do ex-ditador continuam a ser um mistério e a alimentar teorias conspiratórias.
Previsto para hoje, o anúncio dos resultados foi adiado sem data marcada pela comissão eleitoral, que alegou necessitar de mais tempo para apurar as denúncias de irregularidades. O adiamento aumenta a polarização política no país e o risco de confronto entre os militares e a Irmandade Muçulmana, cujo candidato, Mohamed Mursi, afirma ter vencido a eleição presidencial com 52% dos votos.
Indiferente à celebração dos islamitas, o adversário de Mursi, Ahmed Shafiq, afirma que ganhou a eleição com 51,5% da votação.
Ex-comandante da força aérea e último premiê de Mubarak, Shafiq é visto como o candidato preferido da Junta Militar, e a demora do resultado oficial despertou suspeitas de manipulação para favorecê-lo.
Depois que os militares baixaram decretos dissolvendo o Parlamento e ampliando seus poderes, “seria mais um golpe inaceitável” e de consequências imprevisíveis, disse à Folha de S.Paulo Amr Darrag, dirigente da Irmandade.
Prevendo confrontos, o Exército prepara um plano de segurança para conter “uma grande onda de desordem e instabilidade incitada pela Irmandade Muçulmana depois que Shafiq for anunciado presidente”, disse uma fonte do Exército citada pelo jornal estatal “Al Ahram”.
Num prenúncio de mais instabilidade, os protestos continuaram na praça Tahrir.
Liderados por parlamentares da Irmandade Muçulmana, os manifestantes prometeram manter a pressão até que os poderes cassados por decreto sejam restituídos.