zNo dia nove, nesta coluna, Delfim Neto, sob o título "Muito papo, pouco verde", focalizando a movimentação ambientalista provocada pela conferência Rio+20, considerou pífios os resultados práticos obtidos depois de tantas conferências realizadas pela ONU, em consequência da Eco-92. Luiz Filipe Pondé, na Folha do dia 17, pedindo cuidado com os burocratas verdes, a certa altura diz: "Quanto à humanização (tema recorrente neste parque temático da ONU), ainda penso que a família e escola são as melhores formas de aprendê-la. Um estímulo para ter animais e jardins em casa, nas escolas e nas ruas vale mais como humanização do que 50 conferências gigantescas nas quais se discutem siglas, vírgulas e ponto e vírgula". É difícil não reconhecer o mérito de um acontecimento que atraiu mais de 180 países e 50 mil pessoas, interessadas em discutir o destino do nosso planeta. Palestras e discussões em vários grupos temáticos e manifestações populares ruidosas, divulgadas nos quatro cantos do mundo, com certeza chamaram a atenção e despertaram a consciência para a necessidade de conter o uso predatório dos recursos naturais e a degradação do meio ambiente. Aqui mesmo tivemos um fim de semana muito instrutivo com o Festieco e a Fimab, no Recinto Mello Moraes. As duas manifestações citadas não negam a importância desses eventos, mas mostram a necessidade de medidas práticas, das quais todos procuram tirar o corpo, cada um esperando que o outro faça. A "menina que calou o mundo" na Eco-92, a hoje senhora Severn Cullis-Suzuki, voltou e também achou que há muita fala e pouca ação.
Diz uma inteligência superior, que: "Sentimentos inspiram ideias; ideias suscitam palavras; palavras estabelecem ações e ações criam destinos". É forte, entre as pessoas que valorizam a importância, para a vida, dos recursos que Deus nos emprestou, o sentimento de que, a continuar como o fez até agora, a humanidade vai tornar a Terra inabitável. Esse sentimento inspira ideias do que fazer para economizar energia, não poluir o ambiente, proteger as florestas, os rios e os animais, restaurar o que já foi degradado, tornar menos agressiva a exploração econômica dos recursos naturais, enfim, todas essas ideias que suscitaram as palavras que vêm sendo escritas nos documentos, pronunciadas nos discursos das conferências e gritadas nas manifestações populares. Mas essas palavras ainda não conseguiram estabelecer ações suficientes para criar o destino de ambiente sustentável que precisamos, até que a Terra cumpra o seu destino cósmico e a vida aqui não seja mais possível.
Nossa cidade, que conta com reconhecidos ecologistas e ambientalistas, ainda é um ponto indistinguível nessa fotografia. Quando assumimos a Secretaria Municipal de Administração, em 1989, fizemos a reestruturação da Prefeitura e, na reorganização dos serviços, transformamos a Divisão de Limpeza Pública, subordinada à Secretaria de Obras, em Secretaria do Meio Ambiente. Esse tipo de secretaria ainda era uma novidade, não se falava tanto em meio ambiente como hoje. Com esse redimensionamento esperávamos uma melhoria sensível na limpeza de ruas e praças, na coleta de lixo, com separação do reciclável, no ajardinamento das praças e na arborização da cidade. Vinte e três anos depois essa secretaria continua trabalhando, tem trazido algumas contribuições para a cidade, mas não se desenvolveu, não criou nenhum projeto notável, que se consolidasse. Nossas praças inspiram sentimento de tristeza, a começar pela Praça das Cerejeiras, onde está a sede do poder municipal. A arborização até hoje continua sem planejamento. Salva-se apenas o Zoológico. O DAE, o maior responsável pelo saneamento básico, era um modelo de serviço, a ponto de motivar a rejeição da entrada da Sabesp na cidade. Hoje, como o noticiário vem mostrando diariamente, a situação do abastecimento de água está com muitas falhas e o tratamento do esgoto vai se arrastando. E não foi por falta de escritos e discursos sobre meio ambiente e sustentabilidade que a cidade não avançou nesse aspecto. Como disse McLuhan: "Quando tudo estiver dito e feito, muito mais terá sido dito do que feito."
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras