Um salto qualitativo na Política Nacional de Promoção da Saúde é o que propõe pesquisas desenvolvidas pelo grupo do Departamento de Educação Física, da Faculdade de Ciências (FC) da Unesp em Bauru. O conceito é economizar com procedimentos médicos tirando o paciente da condição sedentária – facilitadora para doenças crônicas e degenerativas como diabetes e a hipertensão arterial –, com adoção de rotina de exercícios físicos, acompanhada por profissional de educação física contratado pelo Serviço Único de Saúde (SUS). Dados do Ministério da Saúde (MS) mostram que 78% dos habitantes de Bauru são usuários do SUS. Uma população de 20.217 hipertensos recebe acompanhamento ambulatorial nas unidades básicas de saúde.
O professor Henrique Luiz Monteiro, coordenador de vários projetos na Educação Física da Unesp em Bauru, tem como estratégia mostrar de maneira prática que a economia feita com pessoas ativas pode ser reinvestida na contratação de um educador físico para atuar nas unidades básicas. Em uma das pesquisas, ele orienta a aluna de pós-graduação, nível de doutoramento, Jamile Sanches Codogno no monitoramento de 963 pacientes atendidos em cinco UBS distribuídas por todas as regiões de Bauru.
Os resultados já obtidos por Jamile revelam economia de gastos no atendimento ambulatorial. Por consequência, ao transformar um sedentário em ativo evita-se a necessidade de tratamento com consultas médicas, exames complexos, diárias de internação e, mesmo, com cirurgias em decorrência de complicações na saúde.
A pesquisa Influência da Prática Continuada de Atividades Físicas sobre o Gasto com Tratamento Ambulatorial via SUS da aluna de doutorado mostra que os pacientes sedentários representam um gasto anual para o sistema SUS de R$ 132,00, enquanto que os ativos somente R$ 120,00, no atendimento nas UBS.
A economia de R$ 10,00 parece insignificante tomada em um contexto de um indivíduo. A mesma situação colocada em escala com 237 usuários sedentários e a mesma quantidade de ativos, analisados na pesquisa, demonstra a viabilidade do reinvestimento dos recursos públicos com a intervenção de um profissional de educação física, além da melhora da qualidade de vida do ser humano. O sistema de atendimento ambulatorial gasta com o grupo de sedentários R$ 43.600,00 no ano, enquanto que os ativos consomem R$ 35.000,00.
Os 963 pesquisados têm idade média de 65 anos, com pessoas de 50 anos a 96 anos de idade. As pessoas foram monitoradas por questionário respondendo sobre seu estilo de vida, como se é praticante de atividade física, se caminha para ir ao trabalho, se carrega peso enquanto exerce atividade profissional entre outras situações. Três grupos foram individualizados entre ativos, moderadamente ativos e sedentários.
Em outro trabalho, para o mestrado, Jamile estudou a Prática de atividades físicas e custo do tratamento ambulatorial de diabéticos tipo 2 atendidos em unidade básica de saúde, também sob orientação de Henrique Luiz Monteiro.
Estudo
Em outro estudo, também para o doutoramento, a aluna Arina Hansen pesquisa pacientes de um convênio médico particular ligados a uma cooperativa médica, no município de Americana e com abrangência nacional. Outra novidade implementada na coleta das informações com conveniados é o uso da entrevista telefônica, nos moldes do inquérito telefônico Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas (Vigitel), aplicado anualmente pelo MS.
A pesquisa de Arina parte da constatação de que a taxa de sedentarismo na população adulta, no Brasil e mundial, é elevada. O sedentarismo representa um risco pessoal de enfermidades – como as crônicas –, tem um custo econômico para família, para sociedade e para o próprio indivíduo. O estudo explora possíveis associações entre a prática de atividades físicas ao longo da vida com indicadores de morbidade e custos para uma cooperativa de saúde. A pesquisa avaliará 1.200 pessoas escolhidas por sorteio entre 20 mil usuários do plano particular , na faixa etária entre 50 e 80 anos de idade. Até a última quarta-feira, Arina já havia entrevistado 500 pessoas conveniadas, pretendendo finalizar a etapa de entrevistas em 20 dias. O estudo avaliará o custo com o tratamento através de registros dos prontuários médicos, computando o gasto com cada paciente no decorrer de um ano com consultas, exames e medicamentos fornecidos.
O trabalho de pesquisa de Arina, além de inovar com a utilização do inquérito telefônico da Vigitel, também abre um flanco para que uma importante cooperativa médica com planos particulares implemente a atividade física para seus pacientes derrubando custos e melhorando a qualidade de vida.
Exercício reduz mortalidade
O hábito de exercitar-se regularmente melhora o humor, aumenta a disposição, promove a interação social, evitando os efeitos do isolamento, e evita a morte por infarto e derrame. Em 10 anos de intervenção junto a pessoas hipertensas de Bauru, o Projeto Hipertensão não teve óbito entre as centenas de hipertensos atendidas e que frequentaram as atividades físicas monitoradas.
O trabalho é coordenado pelos professores Henrique Luiz Monteiro, Sandra Lia do Amaral Cardoso e Anderson Saranz Zago professores do Departamento de Educação Física, da Faculdade de Ciências (FC) da Unesp em Bauru. Sandra Cardoso relembra somente de um óbito, porém de uma pessoa que não tinha frequência regular no Programa. Os professores orientam diversas pesquisas com alunos da pós-graduação e também da graduação. Com a experiência de quem iniciou o projeto, Monteiro comenta que no ano passado uma das pesquisas ratificou o que o Hipertensão já vem demonstrando há uma década. Com base em prontuários médicos de pacientes hipertensos atendidos na Unidade Básica de Saúde do Octávio Rasi, unidade referência de atendimento do Hipertensão, a equipe retrocedeu 10 anos para avaliar a condição médica de pessoas com as mesmas características que fizeram exercícios e as sedentárias. Monteiro comenta que o resultado foi de cinco óbitos entre os que não praticam exercício regularmente e nenhuma entre os ativos. Zago acrescenta que aqueles que não morreram apresentaram outras enfermidades relacionadas ao problema da hipertensão arterial - situada no rol de doenças crônicas e degenerativas.
Chuva, frio e a eventual falta com a desculpa de ser véspera de feriado não intimidaram os hipertensos do Hipertensão que aproveitaram a manhã da última quarta-feira para se exercitar. Atualmente, cerca de 50 pessoas, com idade entre 40 e 80 anos frequentam o Projeto Hipertensão, que completou 10 anos no mês passado. Nas próximas semanas, os usuários, a coordenação e alunos de pós e graduação irão se confraternizar em um almoço comemorativo pelos 10 anos.