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Entrevista da Semana: Irmã Elvira Milani

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Simpatia e disposição são apenas as primeiras impressões do contato com a Irmã Elvira Milani. Aos 80 anos de idade e com saúde para dar e vender, a atual Coordenadora de Projetos Socioculturais da Universidade Sagrado Coração (USC) está a “mil por hora” em projetos sociais aqui e no Haiti.


Em Bauru, hoje, ela coordena o projeto sociocultural “Fazendo Arte: Piano e Voz”, com cerca de 250 crianças carentes de Bauru. Em abril, Irmã Elvira visitou o Haiti. “Eu voltei rejuvenescida porque vi que ainda posso fazer muito pelas pessoas. “Adotamos” as pessoas do bairro de Santo Nove, em Porto Príncipe, principalmente nas questões da área da saúde e educação. Minha missão agora é arrecadar fundos para mandar ao Haiti”, diz.


A menina que nasceu no Interior do Paraná conta que suas principais lembranças de infância vêm do amor da família composta por oito irmãos: “Ainda hoje somos muito unidos”. O chamado para a vocação veio aos 7 anos de idade e, aos 80 anos, ela diz: “Sinto-me muito bem , não tenho problemas de saúde e estou preparada para novos desafios, para ajudar”.


Em Bauru há décadas, a entrevistada de hoje já foi duas vezes reitora da USC e, na entrevista que segue, ela também fala sobre a importância da educação e da religião na vida do ser humano. Acompanhe.  



Jornal da Cidade - Como foi a sua vida em Colombo?


Irmã Elvira Milani - Vivi os meus primeiros anos de vida em uma região chamada Várzea do Capivari, próximo a Colombo. É uma região bem tranquila e pequena, praticamente uma vila considerada dormitório de Curitiba. Naquela época, meu pai tinha um armazém herdado dos meus avós e o que mais marcou a minha infância foi a relação familiar. Éramos uma família de oito irmãos. E nossa vida era a família. Lembro-me com muita ternura de nossa rotina de brincadeiras e do amor de nossos pais. Depois nos mudamos para Curitiba e, quando eu tinha 13 ou 14 anos, minha mãe morreu.



JC - Imagino que esse foi um momento difícil para a família.


Irmã Elvira - Sim, inclusive porque ficamos um pouco separados. Um irmão foi morar com uma tia, o outro com outra...Até que meu pai se casou novamente e reuniu a família outra vez. Desse novo casamento ele teve mais uma filha, uma irmã muito querida. Então, o que mais marcou minha infância e juventude foi essa união da família. Até hoje somos muito unidos e fazemos questão de nos reunirmos ao menos uma vez por ano. Não há brigas, desavenças...Somos irmãos.



JC - Quando a vocação religiosa a tocou?


Irmã Elvira - Eu sinto que houve o primeiro toque de Deus na minha vida quando fiz a minha Primeira Eucaristia, aos 7 anos de idade. É claro que eu não sabia o que a vocação representa, mas senti, assim, um chamado especial. Mas aos 18 anos de idade, quando fui para São Paulo conhecer a vida das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus é que eu entrei para a área de formação para a vida religiosa e fui me definindo. Quando eu tinha 20 anos, percebi que realmente estava sendo chamada por Deus para essa doação de vida aos irmãos e fui percebendo que essa vida de dedicação e de paixão por Jesus Cristo estava reservada para mim e que essa era e é a minha vocação. A vida consagrada é sinal e testemunho do amor e da paixão do coração de Deus, em seu filho Jesus, pela humanidade. Em seguida fiz os primeiros votos, em São Paulo, e logo vim para Bauru.



JC - E a senhora vive na cidade desde essa época?


Irmã Elvira - Praticamente, sim. Eu morei por cinco anos nos Estado Unidos, onde estudei literatura inglesa e americana. Isso foi na década de 1960 e fiz mestrado e doutorado no estado de Missouri. Quando voltei, fui professora do curso de inglês e de literatura da USC por muitos anos.



JC - Além de professora, a senhora foi reitora da USC por duas vezes, certo?


Irmã Elvira - Sim. Ficamos como faculdades integradas por cerca de 10 anos e quando o Ministério aprovou que a instituição se tornasse universidade, eu fiquei como a primeira reitora. Depois fui eleita Provincial das Irmãs Apóstolas e morei em São Paulo durante nove anos. Depois fiquei por mais alguns anos em um retino em Indaiatuba e voltei para Bauru em 2005, quando assumi novamente como reitora e fiquei no cargo até o final de 2010.  



JC - A USC é a sua segunda família?


Irmã Elvira - Sim. Não vi a abertura da Universidade, mas fui aluna antes de ir para os Estados Unidos. E praticamente a minha vida foi aqui. A USC é também uma paixão. Ajudei a construir boa parte dos blocos e fui diretora por 16 anos. Sempre gostei do trabalho na universidade, tanto do administrativo como o da sala de aula. Acho que a área da educação é uma fonte de desenvolvimento para a sociedade e para cada um dos indivíduos.   



JC - Quais são as atividades que a senhora desempenha, hoje?


Irmã Elvira - Desde a época de reitora eu atuo na linha de projetos socioculturais. E hoje estamos com o projeto Fazendo Arte: “Piano e Voz”, com um grupo de 250 crianças carentes de Bauru. Fizemos uma apresentação no último dia 19 de junho, gratuita e aberta ao público. Iremos repetir a apresentação em agosto e novembro. Ver todas aquelas crianças foi algo muito bonito e emocionante. O projeto tem muitos parceiros, entre eles o Ministério da Cultura.



JC - E por falar em projeto social, a senhora foi para o Haiti em abril. Como foi essa viagem?


Irmã Elvira - Fui a convite da nossa superiora provincial. No início, eu não sabia o que faria por lá, estava meio sem rumo. Então ela me disse para ver o que as irmãs estão fazendo - somos quatro no Haiti-, para ver o que pode ser feito em termos de projetos para ajudar financeiramente. Eles não têm absolutamente nada. Participei de um encontro feito para mães e filhos, com animação e brincadeiras e, no final, senti meu coração apertando porque eles ficaram olhando para a gente como quem espera por alimento.



JC - O que essa experiência representou?


Irmã Elvira - Eu voltei rejuvenescida porque vi que ainda posso fazer muito por eles, mesmo com 80 anos de idade. Vou captar recursos para mandar cestas básicas, criar uma pequena escola...Mas, o que realmente vai contar para eles vai ser a ajuda na saúde. Entre os problemas como cólera, tifo e febre amarela, o que lá é comum, eles não têm nada. Não há postos de saúde, médicos e o governo não faz nada. Então nós vamos criar um pequeno ambulatório com uma clínica de odontologia e um laboratório de análises clínicas para ajudar um bairro chamado Santo Nove, em Porto Príncipe.



JC - Vocês contarão com a ajuda de voluntários?


Irmã Elvira - Teremos algumas enfermeiras de lá e algumas daqui que irão como voluntárias. Atualmente temos uma médica que atende duas horas por semana. Estou trabalhando em alguns projetos e acredito que até agosto nós vamos conseguir divulgá-los para ao menos conseguir fundos e enviar para lá. Estamos terminando um projeto para uma organização não governamental (ONG) italiana e tudo indica que eles irão reformar uma casa para começarmos esse primeiro trabalho na área da saúde e da educação. Já na semana que vem eu terei uma entrevista em São Paulo para também ver se consigo captar recursos.



JC - E quanto à instituição Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus?


Irmã Elvira - Estamos presentes em boa parte do Brasil e em 14 países. A área da educação predomina, mas também temos promoção humana, creches, asilos e atuamos bastante na parte social. Somos cerca de 1.500 irmãs espalhadas pelo mundo e, no Brasil, somos 600. A instituição nasceu no norte da Itália com a Madre Clélia Merloni, que está em processo de beatificação em Roma.


JC - Como a senhora analisa a importância da religião na sociedade?


Irmã Elvira - Vejo isso de forma geral e também em pessoas próximas. Hoje, a vida leva as pessoas para o nível da eficiência, da eficácia no trabalho, da tecnologia...Agora, o outro lado da moeda é que, sem Deus, sem voltar-se para o lado espiritual, a pessoa nunca será feliz. Quem não tem Deus no coração e quem não se volta para Deus de uma maneira ou de outra, como na oração, por exemplo, sempre vai sentir alguma falha dentro de si. O ponto culminante na vida de um ser humano é a relação pessoal com Deus. Quem não tem isso, mais cedo ou mais tarde vai se desiludir com a vida. Ele tem paixão por nós, mas nos esquecemos disso com o mundo de hoje e suas solicitações. Jesus me fez viver plenamente e realizada com seu amor. Certamente foi isso que me deu essa nova perspectiva de vida, que é o trabalho social no Haiti.



JC - Deus é a sua fonte de juventude?


Irmã Elvira - Sinto isso até fisicamente. Sinto-me muito bem aos 80 anos de idade. Não tenho problemas de saúde e estou preparada para novos desafios, para ajudar. Não vou dizer que não tive percalços no caminho. É claro que tive. A morte da minha mãe foi um momento muito difícil, mas nada me impediu de continuar essa caminhada e de ajudar. Gosto da seguinte frase: “Em tudo, amai e servir”. Deus é amor, portanto, eu também quero ser amor e doação para o outro.

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