Lula faz lembrar o coronel Limoeiro, personagem de Chico Anísio inspirado em Chico Heráclito, chefe político no interior de Pernambuco. Ele dizia que "política é que nem cerca: se for esticada a gente passa por baixo; se for bamba a gente pula". Lula pulou a moral bamba do partidarismo político brasileiro quando foi à casa de Paulo Maluf pedir apoio para o seu afilhado Fernando Haddad, candidato à Prefeitura de São Paulo. A repercussão da foto tirada no jardim do Maluf chocou o pouco que restava dos ideais trotskistas de Luiza Erundina. Renunciou ao convite para ser vice de Haddad, embora permaneça coligada ao partido que a expulsou em 1997.
O filósofo francês Roland Barthes (A Câmara Clara, 1980) dizia que "a fotografia é subversiva não quando assusta, repele, ou mesmo estigmatiza, mas quando leva a pensar". Lula nada entende de semiótica. Ele aprendeu que no Brasil política se faz com fisiologismo. Vale misturar doce com salgado e até feijão com macarrão, mesmo que perturbe os estômagos mais delicados. Em outros tempos Lula e Maluf teriam se reunido num restaurante estrelado de Paris, com direito a guardanapo na cabeça. Procurado pela Interpol por crimes financeiros, o único país em que Maluf pode viver solto é o nosso. Razão de a aliança firmar-se aqui mesmo, nos jardins babilônicos da mansão paulistana.
Durante as Diretas-Já, o metalúrgico ainda ingênuo chamou Maluf de "símbolo da pouca-vergonha nacional" e prometeu: "Daremos a nossa própria vida para Paulo Maluf não ser presidente". Em 2007 Maluf ousou declarar que "Lula hoje é mais malufista do que eu". Ele não estava brincando. Recém-saído do cárcere da Polícia Federal Maluf correu ao Palácio do Planalto para beijar a mão de Lula. Foi um encontro discreto, com sorrisos largos e fotografias protocolares. Lula, reeleito, precisava juntar os cacos para enfrentar um novo mandato. O visitante ainda deu a entender que fora ao Palácio porque Lula tornara-se neoliberal e o seu partido estava solidário com ele no episódio do "mensalão". Maluf não mudou. Foi o PT que ficou parecido. O espantoso em Lula é que o espantoso não espanta ninguém. Alguns anos mais tarde, ele, Collor e Sarney estavam de mãos dadas. "Depois de mim, o dilúvio"(Luiz XV, 1710-1774).
Política no Brasil é feita dessa maneira. Compra-se e vende-se "por um prato de lentilhas", ou por 30 dinheiros, ou por 1 minuto e 35 segundos na televisão. Essa prática os romanos chamavam de "contubérnio". Naquele tempo era uma camaradagem forçada entre soldados. O cristianismo adotou o termo para se referir à convivência de pessoas que mantêm relações sexuais sem estar casadas. Na política passou a ser usada como aliança reprovável. Espúrias porque atendem a interesses menores e não servem ao coletivo. O velho contubérnio se faz valer em todos os casamentos políticos. O PSDB de José Serra se une ao PR de Valdemar Costa Neto - aquele que foi denunciado pela própria esposa por receber malas de dinheiro do mensalão. A tendência de juntar alhos com bugalhos tornou-se uma característica inconfundível da política brasileira pós-1985. Tudo é justificado pelo tempo ganho para a propaganda partidária no rádio e na televisão. É o chamado "horário gratuito" que, de gratuito nada tem. As emissoras compensam o valor do tempo cedido em impostos que deveriam recolher. A incongruência começa aí. Não importa que esses programas sejam ridículos, demagógicos e de baixa qualidade. Numa campanha eleitoral não está em jogo uma causa, a razão, o país. Só o Poder.
Na sua autobiografia "Meu último suspiro", o cineasta Luiz Buñuel (1901-1983) entregava um sonho: queria, após sua morte, despertar a cada dez anos para ler jornais e atualizar-se das coisas do mundo antes de iniciar o repouso de mais uma década. Se fosse brasileiro iria se decepcionar. Com certeza pediria para não mais ser acordado do seu sono eterno. Passam-se décadas, e nada muda. Como costuma gritar o alemão indignado: "Die alte scheisse!" Em bom português: é tudo a mesma merda.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC