Ciências

Bitolados e ... Doutores!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

Incrível, mas existe vida além da sua profissão. Para a felicidade estar bem pertinho devemos desenvolver a sensibilidade e ela representa a capacidade do cérebro captar os estímulos advindos dos órgãos dos sentidos: visão, tato, audição, olfato e paladar. Para Aristóteles não existe nada no intelecto que não tenha passado antes pelos órgãos dos sentidos.


Para desenvolver aptidões e capacidades físicas vamos para a academia exercitar músculos, tendões e fortalecer os ossos. Para desenvolver o cérebro e a capacidade de refletir, criar e raciocinar desfrutamos de atividades como artes e cultura para alargar as suas portas de entrada.


Quando foi sua última visita a um museu? E a uma exposição artística ou a uma biblioteca? Qual foi o último livro lido fora da área de trabalho? E a última vez que foi ao cinema, teatro, concerto e show? A quanto tempo você não toca, pinta, lê, compartilha e admira o que não seja profissão? Lê jornais e revistas regularmente? Se a resposta for mais que seis meses, deve-se ter cuidado pois o ser humano pode ter se transformar em pedra, pode quebrar se estiver insensível.


Alguém  responde: vou ao cinema toda semana, assisto todos os filmes, mas também ... coitado, só fala de filmes e mais nada! Pode ter se transformado apenas em uma tela de histórias alheias. Ah!, mas viajo todos os anos! Imaginem então a cultura de motoristas de ônibus, caminhoneiros e pilotos, devem ser inatingíveis. Viagem não mais significa cultura, apenas milhagem. O acesso  a informação, fotos, mapas e vídeos é irrestrito e mesmo em casa se conhece o mundo todo.


A mente deve se deparar com realidades e diferenças, e elas estão ao seu lado, para entender e compreender o seu papel no planeta, valorizar as sucessivas gerações para elevar o seu espírito além do ponto em que aqui chegou. Com visão mais aberta e variada do mundo, ficamos mais serenos e felizes. Quando pensamos apenas no que especializamos, ficamos chatos e conversamos apenas sobre isto. E ainda ficamos irados quando mudam o assunto.


Na mesa do bar ou restaurante discute-se projetos quando engenheiros, doenças e casos clínicos quando médicos e dentistas, ecologia quando biólogos e assim restritivamente. Um fato ocorrido em 2011 na USP em São Paulo e relatado na imprensa me deixou encabulado. Doutores, chefes e outros responsáveis limparam o Departamento de Química e descartaram no lixo, vejam no lixo, gravuras que estavam nas paredes. Acharam feios ou velhos os quadros. Um funcionário da limpeza recolheu e levou para casa. Depois de alguns anos, descobriu-se que eram valiosas obras de arte.


Certas pessoas ficam perplexas com o desperdício de alimentos e dinheiro nas feiras livres e supermercados. Não viram nada! Não visitaram setores de descartes de instituições públicas e privadas: simplesmente é assustador. Falta cultura e sensibilidade, assim como criatividade e capacidade de contextualização. Na formação acadêmica, infelizmente, não se valoriza o lado humanístico, artístico e cultural. A falta de senso estético e de noção ética do mundo tende a determinar posições e atos patéticos.


Quando uma pessoa tem a cabeça aberta e desenvolve a sensibilidade, as portas do cérebro ficam livres, desimpedidas, cheias de circulação e vigor. Ao estudar, ler e memorizar tudo fica muito fácil para os bem humorados e de mente livre. A pessoa pessimista, cheio de culpas, com visão negativa e sombria do mundo reclama de tudo e precisa de muito mais esforço para aprender. Bom humor é sinal de inteligência garantida.


A competição predatória no mundo científico leva muitos doutores a não ter cultura geral, noção das artes e contato com o conhecimento e contexto geral do mundo. Bitola-se em si mesmo e no mundo familiar, restringe sua rede contatos a parceiros parecidos e se acha o ser humano mais importante e culto do mundo por ter publicado alguns trabalhos em inglês técnico. Se domina outro idioma, acha-se especial com certificado de que é culto, enfim acha-se um semi-deus!


O trinômio diploma, viagem e idioma é muito importante, mas pode ser exercido por uma pessoa de visão restrita e dogmática do mundo e não necessariamente garante que a mente é culta e contextualizada e  para um Doutor, a profundidade e a restrição do conhecimento pode ter efeitos colaterais. Da mesma forma que podemos jogar obras de arte no lixo por incapacidade de reconhecer nelas algum valor estético e histórico, pode-se fazer o mesmo com pessoas, talentos, oportunidades e amores.


Que pena!

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