Internacional

Morsi é vencedor da eleição no Egito

Por Marcelo Ninio | Enviado especial
| Tempo de leitura: 3 min

Cairo - Berço do islã político moderno, o Egito será o primeiro país árabe a ter um chefe de Estado islamita democraticamente eleito, quase um ano e meio após a deposição do ditador Hosni Mubarak.


Uma multidão na praça Tahrir, epicentro da revolta contra Mubarak, explodiu em festa quando a comissão eleitoral confirmou o nome de Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, como o novo presidente do país.


Morsi foi eleito com 51,7% dos votos, derrotando no segundo turno o general da reserva Ahmed Shafiq, último premiê de Mubarak e visto pelos opositores como representante do antigo regime.


Temido por muitos eleitores seculares, por mulheres e entre a minoria cristã, Morsi adotou um tom conciliatório em seu primeiro pronunciamento como líder eleito, prometendo ser o “presidente de todos os egípcios”.


Num sinal de que a vitória é só o começo de mais uma etapa da queda de braço entre islamitas e a Junta Militar, a campanha de Morsi convocou seus seguidores a manter a ocupação da praça Tahrir até que os poderes do presidente sejam restituídos.


Há uma semana, pouco após o fechamento das urnas, os militares emitiram decretos se apropriando de prerrogativas do presidente, como o poder de declarar guerra e aprovar o orçamento militar.


Dias antes, uma decisão do Supremo dissolvera o Parlamento dominado por forças islamitas, entregando aos generais o poder Legislativo.


As medidas, classificadas pela Irmandade Muçulmana como um “golpe brando”, aumentaram a desconfiança sobre a transição democrática conduzida pelos militares, que prometem transferir o poder no fim do mês.


Ainda que as limitações tenham tornado a Presidência um cargo parcialmente simbólico, a vitória de Morsi é uma conquista histórica para a Irmandade, que passou a maior parte de seus 80 anos na clandestinidade política.


Vidrado na TV de um café abarrotado de gente a poucos metros da praça Tahrir, o dentista Ibrahim Abdelghami, 28 anos, chorou de alegria quando a comissão eleitoral fez o anúncio do resultado.


“Essa é a vitória da revolução e uma pequena homenagem aos mártires que caíram lutando contra a ditadura de Mubarak”, disse Abdelghami. “Mas é só o primeiro passo. Agora começa uma longa luta contra os militares.”


Num contraste com os 18 dias de protestos de 2011 que levaram à deposição de Mubarak, quando seculares e religiosos, muçulmanos e cristãos e partidários de diversas correntes políticas se uniram, ontem a Tahrir era praticamente toda islamita.


Uma ilha de depressão em meio à festa no centro do Cairo era o famoso café Riche, de propriedade de cristãos e tradicional ponto de encontro de intelectuais liberais.


“Saímos de uma ditadura militar para entrar numa ditadura religiosa”, disse Amir Salem, advogado que representou famílias de manifestantes mortos pela polícia na revolta do ano passado, num julgamento que condenou Mubarak à prisão perpétua.


O chefe da Junta Militar, marechal Hussein Tantawi, parabenizou Morsi pela vitória, segundo uma TV estatal.


Nos últimos dias, tanques foram posicionados na periferia do Cairo e no Parlamento, na expectativa de distúrbios. Mas anteontem não havia soldados na praça Tahrir, e a festa islamita tomou conta do centro da capital.


Num comunicado da Casa Branca, o governo dos EUA parabenizou Morsi e prometeu “trabalhar com todas as partes no Egito para manter a longa parceria”.


O governo de Israel, onde a iminente vitória da Irmandade Muçulmana vinha provocando nervosismo em torno do futuro do acordo de paz com o Egito, disse “respeitar o processo democrático” no país vizinho.


“Israel espera continuar a cooperação com o governo do Egito com base no acordo de paz, que é do interesse de ambos os povos”, disse ontem o premiê Binyamin Netanyahu em um comunicado

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