Cultura

Raízes caipiras

Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 6 min

“Não há o novo se não houver o antigo”. É o que pensa a cantora de música caipira Mariangela Zan sobre a relação entre a tradicional música de raiz e o universo do sertanejo universitário, moda que alcança principalmente os mais jovens. Para ela, os estilos mais novos do sertanejo, de certa forma, conseguem incentivar, no público jovem, o hábito de ouvir a viola e as músicas mais antigas e tradicionais da cultura caipira. Ela será atração de destaque do Arraiá da Solidariedade, que será realizado no próximo sábado, no Sambódromo.

Com 32 anos, Mariangela segue carreira solo após acompanhar por muitos anos o pai, o acordeonista e compositor Mário Zan, famoso por suas canções típicas de festas juninas, como “Balão Bonito”, “Noites de Junho” e “Pula a Fogueira”. Em seu show, a artista pretende mostrar ao público a riqueza de nosso folclore e da música caipira, cantando grandes clássicos eternizados nas vozes de verdadeiros ícones do segmento.

Em entrevista ao JC, a cantora diz que sempre sentiu interesse pela música, pois cresceu no meio de músicos e compositores. Mariangela, que é formada em Direito e Jornalismo, ainda revelou ao JC outra paixão além da música. “Sou uma verdadeira protetora de animais. Vivo recolhendo gatos e cachorros da rua e encaminhando para entidades. Em casa, eu cuido de dez gatos e dois cachorros”, conta. Confira a entrevista concedida ao JC Cultura pela cantora:

JC - Como começou sua intimidade com a música, em especial a música caipira?

Mariangela - Começou desde muito cedo, ainda na barriga da minha mãe! Sou nascida em São Paulo e sempre estive inserida no universo da música caipira. Minha casa era muito frequentada por artistas que eram amigos do meu pai (Mário Zan), como o Tião Carreiro, o Zé Fortuna, Lourival dos Santos... era esse o pessoal “fraquinho” que frequentava a minha casa (risos).


JC - Qual a última vez que esteve em Bauru e o que se lembra daqui?

Mariangela - Já toquei no Sesc Bauru em carreira solo em 2010. Com meu pai, já estive na cidade umas cinco ou seis vezes. Cantei com ele durante 14 anos até seu falecimento, em novembro de 2006. Em maio de 2007, retomei a carreira artística em formato de carreira solo. Bauru é uma cidade adorável, organizada, com ruas bem numeradas... Me recebeu muito bem e estou muito feliz em poder voltar. Tem um povo muito carinhoso.


JC - Como é seu show? É verdade que todo mundo canta junto com você?

Mariangela - Sim, é um show em que as pessoas cantam junto, pois eu apresento clássicos, como “Saudade da Minha Terra”, “Boiadeiro Errante”, faço pout-pourri com os arrasta-pés em homenagem a Tonico e Tinoco, canto pagodes caipiras de Tião Carreiro e Pardinho, e também músicas de Mário Zan, como “Chalana”, “Arroz a Carreteiro” (Palmeira e Mário Zan). São vários clássicos bem conhecidos em um show que dura uma hora e meia, aproximadamente. Além desses clássicos, no show em Bauru também vou cantar canções típicas de festas juninas, já que meu pai é autor das principais músicas de quadrilhas conhecidas, dessas que a gente dança nas escolas. Um exemplo é “Festa na Roça”. Se o público quiser, podemos até improvisar uma quadrilha ali na hora ao som dessa canção.


JC - Você começou a cantar cedo, aos 13 anos, sempre muito influenciada por seu pai. O que mais ficou marcado desse relacionamento?

Mariangela - Aprendi muito com a sabedoria musical dele. Ele não sabia só música sertaneja. Ele entendia de tango, tocava música russa, italiana... Era muito culto musicalmente. Ele também me ensinou a se portar no palco, com públicos diferentes. A melhor escola de música que eu poderia ter foi essa convivência com Mário Zan. Foi maravilhoso.


JC - Você é uma estudiosa da música brasileira, especialmente a de raiz. Como você avalia atualmente este estilo no Brasil?

Mariangela - Teve um tempo em que a viola foi esquecida. Mas, hoje em dia, a viola e a música caipira têm tido um destaque maior, pela existência dessas orquestras de viola, que estão ressurgindo. Não só a viola, mas também a sanfona. E penso que, hoje em dia, com o sertanejo universitário, que é o que está na moda, muitos ‘modões caipiras’ acabam sendo inseridos nos shows, como os de Tião Carreiro. E é uma forma de divulgação da nossa música de raiz. Por isso, acho que o sertanejo atual merece respeito, pois esses artistas acabam tocando em suas apresentações músicas de raiz. Assim, as novas gerações acabam conhecendo também essas canções mais antigas. Tiro meu chapéu para duplas que atualmente fazem sucesso, como João Carreiro & Capataz, que trazem músicas de raiz em seus shows. A Paula Fernandes também é outra que segue tocando canções de modão de Tião Carreiro. E não há o novo se não houver o antigo. Se você assistir a um show de sertanejo universitário, você vai ouvir uma ou duas músicas de raiz. Essa é uma forma de levar para os novos públicos o hábito de ouvir a viola e as músicas mais antigas. Acho que até na televisão e na rádio tem tido espaço sim. Exemplo é o “Viola, Minha Viola”, da TV Cultura.


JC - Há uma música predileta que você gosta de cantar nos shows?

Mariangela - Em meus shows, não posso deixar de cantar “Chalana”, que todo mundo pede, que também é uma das minhas preferidas... “Boiadeiro Errante” também gosto, além de “Tocando em Frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira.


JC - E qual música você considera a mais bonita já composta por seu pai?

Mariangela - Gosto muito de uma música que fala sobre dois romances do meu pai, chamada Nova Flor. Essa canção junta duas histórias de amor, uma malsucedida e outra que foi bem-sucedida. O Palmeira, que foi parceiro do meu pai em várias canções, conseguiu transformar essa história em um poesia muito bonita. Inclusive, essa canção fez muito sucesso no Exterior e foi gravada em inglês como “Love Me Like a Stranger”, em espanhol como “Los Hombres no Deben Llorar” e em alemão como “Fremde oder Freunde”.


JC - Além de cantar, você exerce outra atividade?

Mariangela - Sou produtora de shows de outros artistas. Tenho uma produtora chamada Mariangela Zan Produções Artísticas.


O Arraiá da Solidariedade

O Arraiá da Solidariedade será realizado neste sábado, 30 de junho, a partir das 10h. A festa tem entrada gratuita e contará com barracas de comidas e bebidas típicas, apresentação de quadrilhas, além de programação artística. O evento também contará com as Feiras de Artesanato Ubá e de Artes do Médio Tietê. O evento tem caráter solidário, pois toda a renda será destinada a entidades assistenciais e carnavalescas de Bauru. A realização é da Sebes, Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Secretaria Municipal de Cultura e Feira de Cultura do Médio Tietê com apoio do JC, Pão de Açúcar e Rádio Auri-Verde.


Programação do Arraiá

Horário/Atração

13h30  Solenidade de Abertura/Grupo Folia de Reis

14h  Ary e Amigos – sertanejo universitário

15h  Grupo Sorri Bauru – quadrilha junina

15h15  Fábio e Paulinho – sertanejo universitário

15h30  Clube da Viola e Catira

16h  José Garcia Studio de Danças – 100 anos de Luiz Gonzaga

16h30  Dito Zerbinatti – viola instrumental

17h  Bruno e Léo – sertanejo raiz

18h  Repertório/Missa Sertaneja

19h30  Líder do Forró

20h  Emílio Campanholi e Conjunto

21h30  Mariângela Zan e banda – show de encerramento

 

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