Após passarem pela triagem inicial (embriagados ou pessoas listadas por terem causado problemas cedem lugar para os outros na fila de entrada), todos vestem o mesmo uniforme, comem a mesma comida e dormem em camas iguais. No entanto, a bagagem de vida de cada um é distinta, alguns com histórias surpreendentes.
Quem coleciona na memória muitas delas é o voluntário Irani de Castro. Aos 84 anos, ele é o chefe do turno de quinta-feira e comanda o trabalho de outras 15 pessoas que, por livre e espontânea boa vontade, doam seu tempo em prol de quem não tem o básico do básico.
Seguidor da doutrina espírita, assim como a maioria dos voluntários, ele comanda a prece para garantir proteção no início de mais uma noite no albergue.
No apagar das luzes dentro do alojamento, ele também faz questão de levar uma palavra de paz e otimismo aos abrigados que, independentemente ao que aconteceu na rua durante o dia, respeitam e absorvem toda a serenidade do momento de fé e reflexão.
Do alto da experiência de meio século de voluntariado, “seo” Irani lembra algumas das histórias camufladas sobre roupas esfarrapadas e expressões de fome. “Já vi muita coisa, mas tem algumas que ficam na cabeça. Teve uma vez que chegou um cidadão aqui que não entendia nossas perguntas”, recorda.
Irani lembra que, para entrevistar o migrante, teve o auxílio de outro albergado, que entrou na conversa, dirigindo-se logo ao homem silencioso. “Do you speak english?”, perguntando se ele, por acaso, falava inglês... russo... francês e assim por diante, sempre na língua correspondente ao idioma indagado.
O estrangeiro em questão era um francês em viagem pela América do Sul e que havia sido assaltado até que, de trem, chegou a Bauru. O “voluntário” em questão, era um ex-jogador de futebol que, pelas viradas da vida, perdeu o que tinha e foi parar no albergue em Bauru, ainda na região central próximo à estação ferroviária.
Ex-jogador do São Paulo - Irani desculpa-se pela memória falhar na tentativa o nome do atleta -, o cidadão havia jogado na Europa na década de 1970, daí a justificativa sobre o “mendigo poliglota”.
Mas o mundo da bola revela seu lado triste também nas noites atuais do albergue. Ao invés dos uniformes com números nas costas e chuteiras nos pés, hoje Marco Antônio Benedito veste a mesma camisa que os outros assistidos e o distintivo no peito é o do Ceac. “Sou alcoólatra, gastei tudo em bebida. Futebol é uma máfia, todos os jogadores bebem”, denuncia.
Longe dos gramados, ele chega para mais uma noite no albergue. Após deixar os pertences na recepção (regra da casa) e os R$ 0,35 que carregava nos bolsos, o ex-zagueiro lembra da época em que a preocupação maior era barrar os atacantes. “Passei pelo XV de Piracicaba, equipes B do Palmeiras e Grêmio e Botafogo de Ribeirão Preto”, relembra.
Marco alega não poder mais jogar por conta de uma séria lesão no joelho. E é através das contradições e dos sonhos que a dura marcação da vida na rua mostra suas garras. “Mas ainda quero ver se jogo a segunda divisão do Mato Grosso, por onde já passei. Lá é fácil”, garante, a caminho do beliche onde ia passar a noite.