Essa conversa de “repórter cidadão”, além do clichê, pode soar até hipócrita. O camarada é o exemplo de “bonzinho por um dia” e escreve no jornal o quanto é fundamental (os outros) abraçar o voluntariado, e ponto. Acompanhei o trabalho dos voluntários no albergue do Ceac por duas noites, oportunidade em que tentei dar uma força para o pessoal. Não fiz nada demais, além de entregar um par de tênis aqui ou levar um bolo de chocolate ali, etc.
Mas me impressionou muito - além da extrema dedicação dos voluntários - a necessidade que os albergados têm simplesmente por um pouco de atenção. Não tive qualquer trabalho na abordagem de personagens para a matéria. Os próprios fizeram fila para conversar comigo e testemunhar suas dificuldades, muitas vezes um interrompendo o outro.
Colegas na dor de não ter uma casa para desabafar as derrotas ou até comemorar as vitórias (por que não?), reuniram-se no alojamento para contar seus dramas pessoais ao ponto da segurança pedir para cessarmos a “terapia em grupo” para que os outros, principalmente os que acordam cedo para trabalhar, pudessem descansar, enfim, com as luzes apagadas.
Não importa o que façam durante o dia, no período noturno, ao menos, testemunham funcionários e voluntários da casa, o respeito prepondera nos alojamentos, talvez por ser a única fonte de calor (nas duas maneiras) que os abrigados encontram.
Na segunda noite, reencontro alguns personagens da véspera, ávidos em completar os relatos. Um deles, Luiz Carlos, que afirma ter deixado o Amazonas em busca de reabilitação contra dependência química em Bauru, insiste: quer que eu ligue para seus parentes para avisá-los de que está vivo.
Argumento que não posso fazer o telefonema, impedido pela isenção jornalística na ocasião. Asseguro a ele que o contato da familiar, que vive em Goiânia (GO), foi passado para a assistente social da casa, que se incumbiu de tomar as providências. “Só de falar com você fico mais tranquilo”, disse o “xará”, que foi dormir mais leve enquanto eu saía, com uma “bigorna” nas costas.
Um ano de casa nova
Neste mês, a nova sede do albergue noturno do Ceac celebra um ano de fundação. O abrigo, que existe há cinco décadas, ganhou nova cara e espaço com as acomodações realocadas da rua Sete de Setembro estrategicamente para a Vila Antártica, a poucos metros do Terminal Rodoviário.
Após o primeiro ano de atividades em espaço físico ampliado, os planos também são de aumentar a atuação do CEAC no atendimento aos migrantes, chamados de “trecheiros” dentro da casa de passagem, e também aos sem-teto da cidade que encontrarão, ainda neste ano, mais que “casa, comida e roupa lavada”.
A entidade visa prestar atendimento também durante o horário comercial, com a atuação de assistentes sociais, psicólogos, oficinas educativas e recreativas, além de encaminhamento profissional, antecipa a coordenadora social Francine Tamos.
“Através das oficinas eles poderão despertar as aptidões que, muitas vezes, nem mesmo se lembram que possuem”, confia a coordenadora.
Serviço: Doações ou inscrições para turmas de voluntários, também presentes em outras iniciativas mantidas pela entidade, podem ser combinadas pelo telefone (14) 3366-3232.