Bairros

Bairros escondem raridades

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 8 min

Nas mãos do oleiro

Você sabia que, em plena era digital, Bauru abriga uma cerâmica onde vasos, moringas e filtros de barro são produzidos manualmente? Pois esta é uma das gratas surpresas escondidas nos bairros da cidade, no caso, mais especificamente, no Jardim Tangarás.

É lá que há 25 anos está localizada a Cerâmica Costa Lopes, de propriedade do José Roberto Lopes, 57 anos, mais conhecido como Pererê.

“Aprendi a profissão com meus tios. Eu estudava de manhã, depois, quando saía da escola, ia direto para a cerâmica. Peguei gosto e, com o tempo, abri meu próprio negócio”, conta Pererê, que chegou a desistir da carreira de jogador profissional e do curso de direito para dedicar-se ao ofício herdado da família. “Não deu. A paixão pela cerâmica falou mais alto”, justifica.

Atualmente, os dois filhos de Pererê ajudam o pai na cerâmica que, com o apoio de alguns funcionários, faz cerca de 100 vasos médios por dia.

E se engana quem pensa que o fato de estar escondida em um dos bairros mais distantes do Centro da cidade é um fator prejudicial ao comércio da família Costa Lopes. Pererê garante que a propaganda boca a boca e o carinho na lida com cliente ultrapassam qualquer barreira geográfica.

“Vem gente de todo o canto da cidade comprar vaso aqui comigo. As pessoas sabem que é algo único, com preço de fábrica e boa qualidade. Além disso, vendo para quase todas as cidades do Estado de São Paulo”, afirma.

 

Serviço

A Cerâmica Costa Lopes fica na rua Luiz Berro, 2-115 – Jardim Tangarás. Telefone: (14) 3203-2928

 

Asilo dos azulejos

Jarras, xícaras, ramalhetes de flores, bules... Quem nunca viu um destes motivos estampando a parede de uma cozinha? Usuais na década de 50, azulejos deste tipo certamente estão presentes nas melhores lembranças de quem costumava visitar a casa da avó para fazer uma boquinha no almoço de domingo, por exemplo.

Contudo, aos poucos, estes azulejos foram sendo substituídos por novas e modernas peças, com tamanhos maiores, texturas frias e designs arrojados.  Atualmente, em uma época da busca pelo reestabelecimento das origens e dos vínculos, estas peças são consideradas verdadeiras preciosidades.

Em Bauru, uma loja localizada nas entranhas da Vila Bom Jesus abriga mais de 30 mil metros destas raridades. São azulejos de todos os tipos, tamanhos e épocas. Os mais velhos, por exemplo, datam da década de 60.

O responsável pelo acervo é o comerciante Roberto Garcia Rodrigues, 66 anos, que garimpa azulejos antigos pelos diversos cantos do Brasil desde 1985.

“Eu trabalhava em São Paulo e era desenhista projetista. Depois, fiquei desempregado e fui trabalhar com meu cunhado em uma loja do ramo, em Santos. Vi que, por conta de minha antiga profissão, tinha uma boa memória visual e, por isso, conseguia identificar os azulejos rapidamente. Com isso, fiz uma pesquisa de mercado e decidi abrir a loja em Bauru”, conta.

Segundo ele, os primeiros meses foram os mais complicados, afinal, foi preciso tempo e paciência para constituir seu estoque. Atualmente, quem entra no galpão onde a loja funciona surpreende-se com a quantidade de azulejos existente no local: são corredores e mais corredores, pilhas e mais pilhas...

“E eu sei o ano e o tipo de todo os azulejos daqui. É só trazer uma amostra da peça que eu encontro”, orgulha-se.

 

  • Serviço

O Asilo dos Azulejos fica na rua Coronel Alves Seabra, 18-16 – Vila Bom Jesus. Telefone: (14)3232-8121.

 

É joia!

Não há como negar: joias sempre foram e sempre serão a paixão das mulheres. Isso porque desde os tempos remotos, colares, anéis, brincos, pulseiras, pingentes e tudo mais o que tiver como componente o precioso metal e seu atraente brilho pode ser considerado sinônimo de status, glamour, feminilidade, poder, entre outras coisas.

Por conta desta predileção feminina, as joias passaram a ser produzidas em escala. Neste cenário, joias exclusivas ganham cada vez mais valor. Em Bauru, a designer de joias Mônica Pimentel Pelli é uma das poucas joalheiras da cidade que mantém a confecção artesanal destas preciosidades.

“É um processo demorado e bastante difícil, mas o resultado compensa, já que a pessoa tem a oportunidade de ter peças exclusivas”, explica.

Pouca gente sabe, mas até que uma peça chegue ao seu formato final é preciso muita paciência e determinação. Mônica conta que o primeiro passo é derreter o metal até que ele se torne uma grande bola líquida e incandescente. Depois, ele é passado para uma ferramenta chamada lingote, que o deixa em formato de canudo. Na sequência, a peça passa por uma espécie de rolo compressor por diversas vezes, até transformar-se em uma placa.

“Depois disso, dou formato na peça manualmente, lixando, serrando, limando e soldando conforme o desenho da joia”, conta ela, que ressalta que os processos variam de acordo com as técnicas de produção existentes.

Segundo ela, uma peça pode levar de três dias a uma semana para ficar pronta.

“Sei que é um trabalho raro, e, por isso mesmo, motivador. É incrível você desenhar uma joia e conseguir materializá-la, sendo responsável pela transformação do metal”, justifica.

 

  • Serviço

  • A designer de joias Mônica Pimentel Pelli atende pelo e-mail joiasartesanaisbauru@gmail.com

     

    Entre facas e adagas

    É em uma rua de terra no Parque Paulista que fica “escondida” a única cutelaria de Bauru: a Cutelaria Pinheiro. E é das mãos de Emerson Lopes Pinheiro, 32 anos, que saem facas, adagas, canivetes, espadas, machados entre outros instrumentos de caça e de corte.

    As peças são exclusivas, geralmente encomendadas por colecionadores ou caçadores internacionais, e fabricadas com muito esmero e de forma totalmente artesanal pelo cuteleiro.

    “Primeiro, faço o processo de forja do metal. Em seguida, martelo o aço ainda quente sobre uma bigorna, até que ele adquira o formato que desejo. Na sequência, faço outros processos até que o instrumento ganhe forma e brilho. Por último, desenvolvo os cabos”, explica ele, resumidamente, já que as etapas são bastante técnicas e específicas.

    Emerson encantou-se pela cutelaria ainda criança. Criado em uma fazenda, desde muito novo sempre teve contato com facas. Na adolescência, estudou no Senai, onde aprendeu a tratar o aço e a lidar com o torno. Depois, dedicou-se a uma extensa pesquisa com cuteleiros para aprender o ofício. Aos 17 anos, em 1997, tornou-se o cuteleiro mais jovem do Brasil.

    “Minha mãe enlouquecia comigo porque ainda bem novo sempre ia para São Paulo conversar com colecionadores e aprender sobre cutelaria. Mas isso é porque amo meu trabalho”, confessa.

    Emerson leva de 15 a 20 dias para produzir uma peça, tempo pequeno se comparado ao que ele levou para adquirir o conhecimento que tem sobre o assunto.

    “É realmente algo bem específico. Tem de saber a temperatura exata para tirar uma peça da forja, a forma de moldá-la, o modo como dar corte à peça...”, enumera ele, apontando fatores que podem ser considerados como o motivo de os cuteleiros serem artigo raro na Bauru contemporânea.

     

    Serviço

    A Cutelaria Pinheiro fica na rua Carlos Ribeiro Viana, 4-33 – Parque Paulista. (14) 3203-0422.

     

    Bate na madeira!

    Móveis feitos com madeira de boa qualidade, que tenham estilo e que sejam peças exclusivas são artigos cada dia mais raros no mercado. Atualmente, o que predomina é a produção em larga escala, padronizada e com custos nem tão compensadores assim.

    Em Bauru, o artesão João Albano Gomes vai na contramão desta tendência. Em um cantinho localizado na Chácara São João, ele transforma qualquer pedaço de madeira, seja ele grande ou pequeno, em verdadeiras obras de arte.


    “Faço de tudo: de mesas e cadeiras a capelas e adegas”, explica.

    Tudo começou há 28 anos, quando ele notou que podia dar utilidade às sobras de materiais da construção em que ele trabalhava como mestre de obras. Com o tempo, tomou gosto pela coisa e passou a dedicar suas horas de folga ao trabalho de artesão. Foi quando um amigo o incentivou a fazer uma exposição de seu trabalho.

    “Como não tinha nada a perder, topei. Levei para a exposição 14 móveis feitos por mim. Todos eram parte da minha casa. Mas choveu todos os dias... Já estava recolhendo todo o material quando o sol decidiu sair. Em um dia vendi tudo o que tinha levado. Só não vendi a cama porque não ia ter onde dormir depois”, conta, rindo.

    Com o aumento de pedidos, João abandonou o trabalho de mestre de obras para dedicar-se ao artesanato e fundou a Broto Novo Oficina de Artes. Hoje, conta com a propaganda boca a boca para vender seus produtos.

    “E funciona. Além de fazer o que gosto, tenho sucesso com minhas obras”, comemora ele, que conta que produz as peças de acordo com a madeira que encontra. “É como uma obra de arte mesmo. Transformo a madeira de acordo com as possibilidades que ela me oferece. Por isso é difícil pegar encomenda”, explica.

     

    Serviço:

    A Broto Novo Oficina de Artes fica na Via de Acesso B, 1-150 – Chácara São João. Telefone: (14) 3277-2845 ou (14) 3277-7926.

     

    À luz de velas

    Uma casa de madeira com quase 90 anos, que tem redes e árvores frutíferas enfeitando sua entrada e que está localizada na movimentada rua 13 de Maio é o esconderijo da artesã Carla Motta, 41 anos.

    Especializada na confecção de velas e sabonetes artesanais com sementes e folhas típicas brasileiras, Carla fez o que muita gente pensa ser improvável: transformou sua vocação em um negócio rentável.

    “Sempre gostei de fazer crochê, sabonetes, velas... Adquiri este hábito com minha bisavó, com minha avó e com minha tia. Sendo assim, sempre aprendi as coisas por conta de minha curiosidade, nunca fiz curso”, lembra Carla, referindo-se ao surgimento de sua paixão pelos trabalhos manuais.

    Daí para a comercialização de seus artesanatos foi um pulo. “Morei em Bonito (MT) por um tempo e lá aprendi a colocar sementes nas velas e a utilizar os materiais da mata. Foi quando abri a Elemento Natural e passei a vender as velas que fazia”, conta.

    Atualmente, Carla é famosa entre noivas e empresas de Bauru e região por conta das velas, sabonetes e outros brindes artesanais que faz. “As coisas foram acontecendo. Hoje, felizmente, temos bons clientes”, comemora.

     

  • Serviço

  • A Elemento Natural fica na rua 13 de Maio, 12-45 – Centro. Telefone: (14) 3227-3874.

     

    Comentários

    Comentários