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Novo Dicionário Aurélio e o Falibilismo

Wellington Anselmo Martins
| Tempo de leitura: 3 min

Será a pressa do capitalismo? Mero engano humano? Ou irresponsabilidade cultural mesmo?

Eu cresci ouvindo meus professores dizerem que o Dicionário Aurélio e a Enciclopédia Barsa são referências inquestionáveis. Pois é. Daí eu próprio virei professor. E, semana passada, entrei numa livraria e vi, em destaque, a nova versão do Aurélio, da editora Positivo. É gigante! E bem cara (para o meu bolso de professor). Mas não resisti. E, mesmo na era digital das consultas virtuais ao "teacher Google", resolvi comprar o tradicional dicionário.

Eu, como bom leitor que sou, adoro livro novo. O cheiro. O colorido forte da impressão recente. Há uma certa mística em um livro que ainda não foi aberto, que ainda é virgem e espera seu primeiro leitor. Enfim, mal cheguei em casa e logo fui tirar meu novo livro do plástico. Tratei-o com todo carinho merecido, como a uma namorada nova e apaixonada de quem não se espera decepção alguma.

Devido ao curso de mestrado que estou fazendo, eu tenho lido muito sobre o filósofo Charles Peirce. E, cá entre nós, esse sujeito foi um dicionário ambulante ou, arriscaria dizer, uma enciclopédia ambulante. Sim, ele foi um erudito! E um dos belos conceitos peircianos é sua crítica à ciência, o qual ele chamou de Falibilismo. Basicamente, o falibilismo é a ideia que contraria aquela noção de que a ciência é um conhecimento "exato". Entendeu? Isto é, o Peirce sabia que as diversas ciências estão repletas de erros e equívocos. Sabia que o conhecimento e a ação humana são, naturalmente, fenômenos falhos.

Pois bem, voltemos ao meu novo Dicionário Aurélio. Acontece que, logo após tirá-lo do plástico, em casa, e por andar estudando muito sobre Peirce, a primeira palavra que eu quis pesquisar no Aurélio foi o termo "peirciano". Para minha alegria, ele estava lá, no canto esquerdo da página 1.595. Para minha tristeza, logo de primeiro olhar, já vi a informação errada. "Poxa, mataram o Peirce 20 anos antes!" Inventaram uma data para a vida do filósofo e colocaram lá, na definição da palavra que eu buscava. Os renomados autores do novo Dicionário Aurélio disseram que ele morreu em 1894. E eu fiquei tentando adivinhar como eles chegaram a esse ano. Não consegui. Pois todas as fontes que eu tenho em casa (mais de 30) e até uma simples pesquisa no Google dão a data correta da morte do Peirce: ano de 1914. Ou seja, duas décadas depois. Esse erro de informação está tanto na versão impressa quanto eletrônica do novo Aurélio. O que é uma pena, não é?!

Bom, realmente o Peirce estava certo com seu falibilismo: até os conhecimentos que temos por mais seguros e verdadeiros estão submetidos a equívocos e falhas inevitáveis. Só achei uma judiação o fato de eu ter visto o erro no meu dicionário novo logo na primeira palavra que fui pesquisar. Seria engraçado até, caso eu não tivesse pagado tão caro pela versão atual do Aurélio.

O autor, Wellington Anselmo Martins, é professor universitário, mestrando em Filosofia (pela PUC-SP) e graduado em Filosofia (pela USC-Bauru) / am.wellington@hotmail.com

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